
Por: Rui Pereira
As eleições legislativas de 17 de maio de 2026 poderão vir a ser interpretadas, com o distanciamento histórico que o tempo permitirá, não apenas como um exercício regular de alternância democrática, mas como um dos momentos de inflexão política, sociológica e institucional mais relevantes do Cabo Verde contemporâneo.
A vitória do PAICV, conquistando maioria parlamentar, e a derrota do MpD após uma década de governação, representam potencialmente algo mais profundo do que a mera substituição de protagonistas.
O que parece emergir é o questionamento gradual de um determinado paradigma de desenvolvimento, de governação e de relação entre Estado, economia e sociedade.
Os ciclos políticos raramente se encerram apenas porque os números eleitorais mudam. Normalmente terminam quando deixam de produzir esperança social. E talvez seja precisamente aqui que reside a principal leitura do momento cabo-verdiano.
O dado mais inquietante destas eleições não está apenas na redistribuição dos mandatos parlamentares. Está sobretudo na abstenção superior a metade do eleitorado. Quando mais de cinquenta por cento dos cidadãos escolhem não participar, a democracia continua funcional do ponto de vista procedimental, mas passa a emitir sinais evidentes de desgaste político, fadiga cívica e erosão da confiança coletiva.
A abstenção elevada pode significar múltiplas leituras simultâneas: desalento, desencanto, desmobilização, protesto silencioso ou simples descrença na capacidade transformadora da política.
Seja qual for a interpretação dominante, o facto central permanece: existe hoje uma distância preocupante entre instituições e cidadãos.
A vitória de Francisco Carvalho não deve ser lida exclusivamente como adesão integral a um novo projeto político. Em larga medida, ela parece traduzir uma reação social perante uma governação percecionada por setores significativos da população como excessivamente tecnocrática, distante da experiência quotidiana e insuficientemente sensível aos problemas concretos das famílias.
Custo de vida elevado, dificuldades habitacionais, fragilidades nos transportes marítimos e aéreos, pressão sobre os serviços de saúde, desemprego e subemprego juvenil, dificuldades no acesso ao ensino superior e crescente sentimento de insegurança económica foram, provavelmente, fatores silenciosos que atravessaram o comportamento eleitoral.
Durante dez anos, o MpD conseguiu consolidar indicadores macroeconómicos relevantes, reforçar infraestruturas, aprofundar a inserção internacional do país e fortalecer a reputação externa de estabilidade institucional. Porém, as democracias contemporâneas raramente premiam apenas indicadores agregados. Os cidadãos votam crescentemente pela experiência vivida.
Quando crescimento económico e perceção social deixam de caminhar lado a lado, instala-se aquilo que alguns autores designam por “paradoxo da prosperidade estatística”: os indicadores melhoram, mas a sensação coletiva não acompanha.
Cabo Verde não vive uma crise clássica de colapso político ou económico. Vive talvez algo mais complexo: uma crise de transição. E as crises de transição são frequentemente as mais difíceis, porque exigem abandonar modelos que ainda funcionam parcialmente, sem possuir ainda modelos alternativos plenamente consolidados.
O dado mais inquietante destas eleições não está apenas na redistribuição dos mandatos parlamentares. Está sobretudo na abstenção superior a metade do eleitorado. Quando mais de cinquenta por cento dos cidadãos escolhem não participar, a democracia continua funcional do ponto de vista procedimental, mas passa a emitir sinais evidentes de desgaste político, fadiga cívica e erosão da confiança coletiva. (…) Isto significa repensar profundamente políticas públicas, modelo educativo, sistema produtivo, papel da diáspora, relação entre ilhas, integração digital, inovação tecnológica e capacidade de execução estatal.
A economia continua resiliente, mas revela sinais de desaceleração. A dependência estrutural do turismo permanece elevada. O peso das importações continua significativo. O consumo interno mantém baixa capacidade multiplicadora. As remessas continuam fundamentais. A produtividade permanece limitada. O mercado interno é reduzido. A vulnerabilidade externa continua extrema.
Tudo isto acontece num contexto internacional marcado por fragmentação geopolítica, reorganização das cadeias globais de valor, aceleração tecnológica, competição por investimento, crises climáticas e emergência de novas formas de produção baseadas no conhecimento.
Neste quadro, a grande questão política cabo-verdiana deixa de ser simplesmente quem governa. Passa a ser como governar um pequeno Estado arquipelágico, fragmentado territorialmente, dependente externamente e simultaneamente pressionado por enormes expectativas sociais.
Talvez a resposta passe por reconhecer que o país enfrenta sinais de esgotamento gradual de um determinado paradigma de desenvolvimento.
Cabo Verde necessita transitar de uma democracia predominantemente distributiva para uma democracia produtiva; de uma economia baseada sobretudo na circulação de recursos para uma economia geradora de valor; de um Estado regulador e administrador para um Estado estratega, executor, coordenador e mobilizador da sociedade.
Isto significa repensar profundamente políticas públicas, modelo educativo, sistema produtivo, papel da diáspora, relação entre ilhas, integração digital, inovação tecnológica e capacidade de execução estatal.
Neste sentido, o novo Governo enfrentará simultaneamente oportunidade e armadilha.
A oportunidade consiste em beneficiar do capital político da mudança. A armadilha será acreditar que mudar protagonistas equivale automaticamente a mudar realidades.
Os primeiros cem dias serão decisivos para reconstruir confiança. O primeiro ano será crucial para iniciar reformas. A legislatura inteira terá de estar orientada para alterar capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais.
Sem isso, existe o risco de transformar esperança renovada em frustração ampliada.
A nova gramática da governação cabo-verdiana exigirá menos administração rotineira e maior capacidade de coordenação estratégica. Exigirá menos dependência do Estado enquanto distribuidor e maior capacidade de construção de ecossistemas produtivos. Exigirá menos fragmentação territorial e maior integração económica, logística e digital.
Cinco pilares parecem particularmente centrais para esse novo ciclo:
(1) Estado sério;
(2) economia produtiva;
(3) sociedade mobilizada;
(4) juventude com futuro;
(5) diáspora transformada em potência estratégica nacional.
No fundo, a escolha colocada diante de Cabo Verde já não parece ser entre esquerda e direita, PAICV e MPD, continuidade ou alternância, governo A ou governo B.
A escolha parece hoje mais profunda.
Continuar a administrar vulnerabilidades ou construir capacidades.
É precisamente aí que começa o verdadeiro teste político do novo ciclo cabo-verdiano.

