
Por: António Delgado Medina*
Cabo Verde atravessa atualmente um dos maiores paradoxos da sua história recente. Nunca o país teve uma população tão qualificada, nunca investiu tanto na educação e na formação profissional, nunca dispôs de tantas potencialidades económicas por explorar e, paradoxalmente, nunca assistiu a uma vontade tão forte dos seus jovens em procurar oportunidades fora das fronteiras nacionais.
Todos os dias vemos partir jovens para Portugal, França, Luxemburgo, Holanda, Estados Unidos e outros destinos. Muitos partem à procura de emprego, outros procuram melhores salários, melhores condições de vida ou simplesmente a oportunidade de construir um futuro que acreditam não conseguir alcançar no seu próprio país.
A questão que se coloca é simples: será que Cabo Verde não tem condições para oferecer oportunidades aos seus jovens?
A resposta é não.
Cabo Verde não é um país pobre em recursos. Pelo contrário, possui recursos estratégicos que, se devidamente valorizados, podem transformar profundamente a sua economia e criar milhares de empregos para as novas gerações.
O primeiro desses recursos é o mar.
Com uma vasta Zona Económica Exclusiva, localizada numa posição geoestratégica privilegiada entre a Europa, África e as Américas, Cabo Verde dispõe de condições excecionais para desenvolver uma verdadeira Economia Azul.
A pesca moderna, a aquacultura, a transformação de pescado, a biotecnologia marinha, os transportes marítimos, a reparação naval, o turismo náutico e os serviços ligados ao oceano representam oportunidades ainda insuficientemente exploradas.
O mar cabo-verdiano pode ser muito mais do que uma fonte de subsistência. Pode transformar-se num dos principais motores de crescimento económico e de criação de emprego qualificado para milhares de jovens.
O segundo recurso é o sol.
Poucos países no mundo possuem níveis de radiação solar tão favoráveis como Cabo Verde. Associado ao potencial eólico já existente, o país reúne condições únicas para se afirmar como uma referência regional em energias renováveis. O investimento neste setor não só contribui para a independência energética nacional, como também pode gerar novas profissões, novas empresas e novas oportunidades de negócio para os jovens formados nas áreas técnicas e tecnológicas.
O terceiro recurso, e talvez o mais importante de todos, é a juventude.
A pesca moderna, a aquacultura, a transformação de pescado, a biotecnologia marinha, os transportes marítimos, a reparação naval, o turismo náutico e os serviços ligados ao oceano representam oportunidades ainda insuficientemente exploradas. (…) O segundo recurso é o sol. Poucos países no mundo possuem níveis de radiação solar tão favoráveis como Cabo Verde. (…) O terceiro recurso, e talvez o mais importante de todos, é a juventude. São os jovens que inovam, empreendem, produzem conhecimento, criam riqueza e impulsionam as transformações económicas e sociais.
Nenhuma sociedade se desenvolve sem jovens. São eles que inovam, empreendem, produzem conhecimento, criam riqueza e impulsionam as transformações económicas e sociais. Contudo, muitos jovens cabo-verdianos continuam a sentir que o seu talento encontra mais reconhecimento fora do país do que dentro dele.
Esta realidade obriga-nos a refletir sobre a ligação entre educação, formação profissional e mercado de trabalho.
Nas últimas décadas, Cabo Verde realizou avanços significativos na expansão do sistema educativo. O acesso ao ensino secundário, ao ensino superior e à formação profissional aumentou consideravelmente. Porém, continua a existir um desfasamento entre as qualificações adquiridas e as necessidades efetivas da economia nacional.
Formar jovens sem criar condições para a sua inserção profissional significa investir recursos que acabam por beneficiar outras economias. Muitos dos nossos melhores quadros são hoje profissionais altamente valorizados em países estrangeiros, enquanto setores estratégicos da economia nacional enfrentam dificuldades para recrutar trabalhadores qualificados.
É necessário reforçar a articulação entre escolas, centros de formação profissional, universidades e empresas. A definição da oferta formativa deve estar alinhada com os setores prioritários do desenvolvimento nacional. Precisamos de formar mais técnicos para a economia azul, para as energias renováveis, para a agricultura moderna, para a agroindústria, para a transformação digital, para o turismo sustentável e para as profissões emergentes da economia do conhecimento.
Mas também é fundamental valorizar os setores tradicionais.
A agricultura continua a ser um dos pilares da sobrevivência de milhares de famílias cabo-verdianas. Com investimentos adequados em gestão da água, dessalinização, energias renováveis, mecanização, transformação agroalimentar e melhoria dos circuitos de comercialização, este setor pode tornar-se muito mais atrativo para os jovens.
O mesmo se aplica ao turismo. O país não deve limitar-se a promover o turismo de sol e praia. O turismo rural, ecológico, cultural e comunitário oferece enormes oportunidades para ilhas como Santo Antão, São Nicolau, Maio, Brava e Fogo, contribuindo simultaneamente para reduzir as assimetrias regionais e travar os movimentos migratórios motivados pela falta de oportunidades locais.
A verdade é que a emigração não deve ser encarada apenas como um problema. Ela faz parte da história e da identidade cabo-verdianas. O problema surge quando os jovens partem não por opção, mas por falta de alternativas.
Nenhum país consegue sustentar o seu desenvolvimento se perder continuamente a sua população mais jovem, mais qualificada e mais produtiva. A economia precisa de trabalhadores. As empresas precisam de competências. As instituições precisam de liderança. As comunidades precisam de pessoas para garantir a sua continuidade.
O desafio de Cabo Verde não consiste em impedir os jovens de emigrar. O verdadeiro desafio consiste em criar condições para que eles possam escolher ficar.
Se conseguirmos transformar o mar em riqueza, o sol em energia e a juventude em capital humano valorizado, Cabo Verde terá todas as condições para construir um modelo de desenvolvimento mais inclusivo, sustentável e gerador de oportunidades.
O futuro do país depende menos dos recursos que possui e mais da capacidade de os transformar em prosperidade para a sua população.
E nessa equação, o mar, o sol e a juventude continuarão a ser as três maiores riquezas de Cabo Verde.
02 de junho de 2026
*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

