Os CVMA 2026 em São Vicente consagraram June Freedom como o grande vencedor da noite, com três prémios, enquanto nomes como Josslyn, Djodje, Garry, Trakinuz e Fattú Djakité também se destacaram. A gala reforçou o caráter nacional do evento, celebrando a diversidade musical cabo-verdiana em 19 categorias. A noite, porém, não se resumiu apenas à música e glamour: entre apagão, discursos incómodos e respostas pouco elegantes, o evento transformou-se num palco de tensões sociais e políticas que marcaram tanto quanto os vencedores.
Os vencedores e o brilho da música
O certame, o 15⁰, foi o primeiro realizado em São Vicente, com a habitual promessa de celebrar o talento nacional. Apesar dos percalços técnicos, os prémios foram entregues nas diversas categorias, destacando artistas que continuam a elevar a música cabo-verdiana. Houve reconhecimento para novos talentos e consagração de nomes já estabelecidos, reforçando a diversidade cultural e criativa da ilha. O público celebrou cada anúncio, confirmando que os CVMA permanecem como vitrine essencial da produção artística nacional.
O apagão que interrompeu o espetáculo
Um dos momentos mais comentados da noite foi o apagão que suspendeu a cerimónia por alguns minutos. Mas o público continuou a vibrar. A falha técnica expôs fragilidades na organização e gerou desconforto entre artistas e público, lembrando que a infraestrutura cultural ainda carece de maior investimento e fiabilidade.
Batchar e as perguntas incómodas
O rapper Batchar aproveitou o palco para dirigir questões às autoridades locais e nacionais presentes. A mais incisiva foi sobre o destino do dinheiro prometido para a reconstrução da ilha após a passagem da tempestade Erin.
A pergunta ecoou no auditório e trouxe à tona uma ferida ainda aberta na memória coletiva de São Vicente, ou seja, a falta de transparência na gestão dos fundos de recuperação. A resposta de Augusto Neves nao se fez esperar.
Visivelmente incomodado, Augusto Neves, Presidente da Câmara Municipal de São Vicente, reagiu de forma pouco diplomática. Chamou o artista de “chefe da bicharada”, expressão que rapidamente se espalhou nas redes sociais e foi interpretada como desrespeitosa e desclassificada para o cargo que ocupa.
O episódio expôs a tensão entre poder político e voz artística, revelando a dificuldade das autoridades em lidar com críticas públicas.
O balanço dos CVMA em São Vicente vai muito além da lista de vencedores. A noite mostrou o vigor da música cabo-verdiana, mas também expôs fragilidades técnicas e tensões sociais. O confronto entre Batchar e Augusto Neves ficará como símbolo de uma sociedade que exige respostas claras e respeito mútuo. Mais do que um espetáculo, os CVMA tornaram-se um espelho das contradições do país: talento e criatividade em alta, mas ainda à espera de transparência e responsabilidade.
Principais vencedores da 15ª edição dos CVMA
MÚSICA DO ANO
-Trakinuz – “Ave Maria”
ÁLBUM DO ANO
-June Freedom – “Casa Mira Mar”
MÚSICA POPULAR DO ANO
-Josslyn ft. MC Acondize – “Malibu”
INTÉRPRETE FEMININA
-Josslyn – “Malibu”
INTÉRPRETE MASCULINO
-Djodje – “Lua”:
VIDEOCLIPE DO ANO
-June Freedom – “Spiritual”
COLABORAÇÃO DO ANO
-June Freedom x Djodje x Loose JrGo Low
ARTISTA REVELAÇÃO
-Dennyh – “Maz um Beijo”
ARTISTA EM PALCO
-Fattú Djakité
OUTROS DESTAQUES
Cremilda Medina venceu Morna do Ano com Amizade. Neuza de Pina levou Coladeira do Ano com Nôs Rikeza. Beto Dias conquistou Funaná do Ano com Nha Bunita. Élida Almeida ft. Freirianas Guerreiras venceram Batuku do Ano com Nka Ta Pasa. Ceuzany ft. Fábio Ramos ganharam Música Tradicional do Ano com Riola de Casal. Hélio Batalha levou Hip Hop do Ano com Abensuado. Fattú Djakité também venceu Outros Ritmos do Ano com Badja Tina.
Impacto nacional e cultural
O evento reafirmou-se como premiação oficial da música cabo-verdiana, reunindo artistas de todas as ilhas e da diáspora. A gala homenageou figuras históricas como Cesária Évora, Luís Morais e Djosinha, reforçando o elo entre passado e presente.
Foram entregues Prémios de Ação Social a MC Acondize e Batchart, reconhecendo o papel da música como ferramenta de intervenção comunitária.
O balanço dos CVMA 2026 mostra que, apesar dos incidentes técnicos e das tensões políticas, a música cabo-verdiana continua vibrante e plural. June Freedom consolidou-se como figura central da nova geração, enquanto artistas como Josslyn, Djodje e Garry confirmaram o seu estatuto.
A noite, porém, não se resumiu apenas a música e glamour: entre apagões, discursos incómodos e respostas pouco elegantes, o evento transformou-se num palco de tensões sociais e políticas que marcaram tanto quanto os vencedores.
João A. do Rosário

