
Por: Paulo Mendes
Somos dez ilhas perdidas no meio do Atlântico. A partir de agora, o mundo inteiro sabe onde ficamos.
Pela primeira vez na nossa história, a seleção nacional jogou um Mundial de futebol. E na sua estreia, em Atlanta, diante da campeã europeia Espanha – uma das favoritas ao título -, os Tubarões Azuis fizeram o que ninguém esperava: não cederam. Zero a zero. Um ponto. Uma montanha.
Há cinquenta anos, quando nos tornámos independentes, organismos internacionais e observadores estrangeiros diziam que não tínhamos como sobreviver – um país sem água, sem recursos, sem condições para ser um Estado. Diziam que não aguentaríamos seis meses. Fintámos esse destino desde então, e voltámos a fintá-lo em Atlanta – não por sorte, mas por trabalho, por organização, por uma defesa que segurou 27 remates espanhóis com uma serenidade que desconcertou o mundo.
Para a nação cabo-verdiana – nas ilhas e fora delas – isto é mais do que futebol. É a prova de que pequeno não é sinónimo de fraco, e de que improvável não é o mesmo que impossível.
A simbologia da data não escapou a ninguém: a qualificação aconteceu no ano em que Cabo Verde celebra meio século de independência. E a estreia no maior palco do futebol mundial foi isto – um empate que a imprensa internacional descreveu como um dos maiores choques da história do torneio. O The Guardian escreveu “Uau, apenas uau.” O The Athletic perguntou se não seria o maior resultado surpresa desta Copa do Mundo. Os jornais espanhóis falaram em “vexame” e “desastre”. Nós chamamos-lhe outra coisa: mérito.
O nome do herói é Vozinha. Quarenta anos, guarda-redes histórico da nossa seleção, o homem que segurou a Europa campeã com as mãos. A cada defesa – e foram muitas, brilhantes, decisivas -, o seu nome era entoado pelas bancadas de Atlanta. Em alguns momentos, até pelos próprios adeptos espanhóis, impressionados. Há algo de poético em que seja ele – o mais velho em campo, o que mais tempo carregou este sonho – a ser o protagonista desta noite histórica.
Seguem-se o Uruguai, a 21 de junho, em Miami, e a Arábia Saudita, em Houston, no encerramento da fase de grupos. Há quem sonhe, com toda a legitimidade, com mais do que a fase de grupos – e depois de Atlanta, esse sonho tem outro peso.
O capitão Ryan Mendes, na cerimónia em que o Presidente da República os condecorou, prometeu em nome do grupo “muita entrega e muito amor”. Em Atlanta, cumpriram a palavra – com rigor, com caráter, com identidade.
José Maria Neves chamou a este grupo a “geração de ouro” do futebol cabo-verdiano, e descreveu os Tubarões Azuis como “o maior cartão de visita de Cabo Verde”. Depois de hoje, essa frase não precisa de mais nenhuma explicação.
O significado desta conquista vai além de quem nos vê de fora. Importa, sobretudo, pelo que nos diz sobre nós próprios. O trabalho e o mérito mostraram-se antídoto para as nossas limitações. Não tínhamos a dimensão, não tínhamos os recursos, não tínhamos a tradição das grandes potências – e ainda assim chegámos onde nunca tínhamos chegado, e chegámos a ganhar um ponto à Espanha. Quando uma nação jovem percebe, na prática e não apenas no discurso, que tudo é possível, esse é um ativo que vale mais do que qualquer resultado desportivo isolado. E há um segundo ensinamento, talvez o mais importante: a união é o nosso maior ativo.
Mais do que futebol: um simbolismo que ultrapassa os resultados
E é aqui que vale a pena parar – porque seria fácil tratar este momento como um parêntese de alegria entre dois dias normais, e seguir em frente. Seria um erro.
Cabo Verde é um país de pouco mais de 4 mil quilómetros quadrados e menos de 600 mil habitantes residentes – a terceira menor nação em população a disputar alguma vez um Mundial, atrás apenas da Islândia e de Curaçao. Há mais cabo-verdianos fora do arquipélago do que dentro dele.
Durante décadas, a forma como o mundo nos conheceu – quando nos conheceu – foi através da música, da emigração, ou de relatórios de organismos internacionais sobre as nossas vulnerabilidades e dependência de ajuda externa.
Esta noite inverte essa equação de forma definitiva. Durante semanas, o nome do nosso país vai ser pronunciado em estúdios de televisão em dezenas de línguas – não como nota de rodapé geopolítica, mas como protagonista desportivo que empatou com a campeã europeia.
Mas o significado desta conquista vai além de quem nos vê de fora. Importa, sobretudo, pelo que nos diz sobre nós próprios. O trabalho e o mérito mostraram-se antídoto para as nossas limitações. Não tínhamos a dimensão, não tínhamos os recursos, não tínhamos a tradição das grandes potências – e ainda assim chegámos onde nunca tínhamos chegado, e chegámos a ganhar um ponto à Espanha. Quando uma nação jovem percebe, na prática e não apenas no discurso, que tudo é possível, esse é um ativo que vale mais do que qualquer resultado desportivo isolado.
E há um segundo ensinamento, talvez o mais importante: a união é o nosso maior ativo. Um povo pequeno, disperso por várias ilhas e por meio mundo, mostrou que quando se une em torno de um propósito, tem uma força que paralisa os campeões europeus. Se conseguimos isto no futebol, não há razão para não o conseguirmos noutros domínios.
Vozinha disse, antes do Mundial, que a qualificação podia mudar muito o país em termos desportivos, sociais, culturais e de infraestruturas, além de mostrar ao mundo a qualidade que Cabo Verde tem. Hoje, o mundo viu essa qualidade com os próprios olhos.
Muitos destes jogadores construíram carreira fora do país, em ligas de Portugal e de outros pontos da Europa. A emigração, para eles como para tantos da sua geração, foi o caminho natural para encontrar oportunidade. O que esta seleção fez foi transformar esse percurso disperso numa força coletiva que devolve ao país, de uma só vez, o reconhecimento que cada um deles foi construindo, jogo a jogo, fora de casa. É a diáspora a tornar-se vitória nacional.
Há quase um século, Jorge Barbosa escreveu sobre o mar que nos cerca e nos prende às ilhas – o convite permanente à evasão e o desespero de querer partir e ter que ficar. Era o mar da seca, do isolamento, da emigração como condenação. Hoje, esse mesmo mar é outra coisa. Já não nos cerca – mede-nos a esperança.
E o hino soou em Atlanta. A emoção tomou conta de nós – na Praia, no Mindelo, em Lisboa, em Boston, em Roterdão, em Paris, nos Açores. Ouvimos a nossa história a ser cantada no maior palco do mundo.
Cabo Verde 0 – Espanha 0. Uma frase que vai ficar para sempre.
Somos grandes – e a nossa esperança, como diz o nosso hino, é do tamanho do mar. Que orgulho imenso no meu país.

