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Mundial 2026: o sonho “Azul” cabo-Verdiano

Por: Umaro Djau*

Pequenas manchas de camisolas azuis num oceano vermelho de adeptos espanhóis. Até nas bancadas do Estádio Mercedes-Benz, em Atlanta, as probabilidades pareciam estar todas a favor da Espanha. Mas cabo-verdianos vindos de vários pontos dos Estados Unidos  – e alguns de outras partes do mundo – chegaram à cidade de Martin Luther King Jr. para ver os seus Tubarões Azuis defrontarem uma potência do futebol europeu.

Assisti, na bancada, a este momento raro em que o desporto deixa de ser apenas desporto e se transforma em memória colectiva de um país. O jogo de estreia de Cabo Verde no Campeonato do Mundo FIFA 2026 foi mais do que uma partida de futebol. Foi a materialização de um espírito de luta carregado por gerações nas ilhas e diáspora. É a primeira vez de Cabo Verde num mundial de futebol. E, só por isso, antes mesmo de a bola rolar no Estádio Mercedes-Benz, Cabo Verde já tinha vencido.

Vi milhares de cabo-verdianos chegarem ao estádio com bandeiras, camisolas, lágrimas contidas e corações em palpitação. Muitos vieram de vários pontos dos Estados Unidos. Outros atravessaram oceanos. Milhares mais acompanhavam em Cabo Verde e tantos outros lugares onde há uma morabeza plantada no mundo. Naquele instante, Atlanta tornou-se uma extensão emocional do arquipélago.

Entre os presentes estava o Presidente da República, José Maria Pereira Neves. Presente e patriótico. Presente não como um espectador distante, mas um símbolo vivo de uma nação que se reconhecia naquele momento. 

O Presidente Neves vestia um casaco azul-real, inspirado em Cabo Verde, com as faixas horizontais vermelha, branca e azul da bandeira nacional, realçadas por estrelas amarelas no peito. A parte inferior trazia um tecido preto e dourado, criando uma fusão distinta entre roupa desportiva, orgulho nacional e elegância cultural. Era uma declaração: Cabo Verde estava ali, inteiro, digno e orgulhoso.

É preciso dizer com clareza: estar no Mundial já era, por si só, uma vitória. Para um pequeno Estado insular da África Ocidental, chegar ao maior palco do futebol mundial é desafiar estatísticas, geografias e previsões. Era a primeira oportunidade. Era o sonho tornado realidade. Era o orgulho nacional a ganhar corpo diante do mundo. 

Cabo Verde não estava ali apenas para participar. Os Tubarões Azuis começaram a acreditar que evitar a derrota era uma possibilidade real. A Espanha, campeã europeia, tinha mais nome, mais história e mais favoritismo. Mas Cabo Verde tinha disciplina, coragem, organização e uma alma enorme. O intervalo chegou com o resultado em 0-0. E já era evidente que o guarda-redes cabo-verdiano merecia atenção especial. Ao intervalo, escrevi no Facebook: “Vozinha, o guarda-redes de Cabo Verde, certamente o melhor jogador dos Tubarões Azuis, durante a primeira parte do jogo.”

Vozinha, nome pelo qual é conhecido Josimar José Évora Dias, é um veterano guarda-redes cabo-verdiano, natural de São Vicente, que há muitos anos defende a selecção nacional com liderança, experiência e serenidade. Em Atlanta, ele não foi apenas um guarda-redes. Foi muralha, símbolo e segurança emocional para milhões de cabo-verdianos. Evitou cerca de sete prováveis golos da Espanha, conforme as estatísticas do jogo. Cada defesa sua parecia dizer ao mundo: este país pode ser pequeno no mapa, mas não é pequeno na ambição.

Se Cabo Verde era, para muitos, uma ilha relativamente desconhecida antes do jogo, isso mudou antes do apito final. Milhões de adeptos repararam. As redes sociais encheram-se de celebrações, vídeos, lágrimas, bandeiras e mensagens de orgulho. 

Os grandes meios internacionais também tomaram nota. A CNN titulou: “O pequeno Cabo Verde surpreende os campeões europeus com um empate a zero na sua estreia no Mundial.” Manchetes semelhantes multiplicaram-se pela internet, no New York Times, no The Guardian, em O Globo e em muitos outros órgãos. 

“Estamos, assim!, na boca do mundo”, reconheceu o Presidente José Maria Pereira Neves, através da sua página oficial no Facebook.

Horas depois do empate com a Espanha, um amigo pessoal de longa data nos Estados Unidos, Luís Monteiro, conhecido como DJ Guelas, fez uma observação certeira num vídeo publicado no seu Facebook:

“Não sei se compreendemos plenamente a magnitude deste momento. Nos próximos dias, isso se tornará ainda mais evidente.  Toda a gente vai reparar. Que felicidade, que orgulho”!

Fê-lo com pausa e emoção. Ele tinha razão. Há momentos cuja grandeza só se compreende plenamente depois. Mas, há outros que nos atravessam imediatamente. Este foi um deles. Caso para dizer, “nôs óra dja txiga” (Chegou a Nossa Hora). 

O homem do jogo, o Vozinha, tornou-se uma celebridade instantânea. Segundo relatos partilhados, os seus seguidores no Instagram cresceram cerca de 10.000% depois do histórico resultado frente à Espanha, passando de 50 mil para mais de cinco milhões. Mais do que números, isso mostra como um só jogo pode transformar um atleta em símbolo global de resistência, orgulho e inspiração.

Como guineense, estive ali também por razões que ultrapassam o futebol. Cabo Verde e Guiné-Bissau não são países estranhos um ao outro. Lutaram juntos pela independência contra o colonialismo português, sob a mesma bandeira, o mesmo partido e a mesma liderança. Apesar da separação política depois de 1980, os povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde continuam ligados por sangue, amizade, história e geografia.

Fui ao estádio para apoiar Cabo Verde em honra dessa história comum, dessa luta partilhada e dessa fraternidade que nenhum calendário ou incidente político pode apagar. Acreditem que não fui o único guineense. Somos milhares, incluindo a minha conterranea Sarathou Nabian que trazia consigo a bandeira da Guiné-Bissau, em memória dessa luta e história partilhadas.

O que vi no estádio foi amor e lágrimas. Vi gente abraçada antes, durante e depois do jogo. Vi adultos chorarem como crianças. Vi jovens talvez a compreenderem, pela primeira vez, que a história também se faz em campo. Vi a minha amiga Terza Limas Neves cantar o hino nacional de Cabo Verde com lágrimas nos olhos. A FIFA registou o momento e partilhou o vídeo dela. Aquilo não era apenas emoção desportiva. Era pertença. Era memória. Era gratidão. Era uma nação inteira a dizer: nós existimos, nós chegámos, nós merecemos estar aqui.

Cabo Verde é um país que sonha. E hoje, Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Pedro Pires, Silvino da Luz, Osvaldo Lopes da Silva, Amâncio Lopes, Maria Ilídia Évora, Josefina Chantre, Marline Barbosa Almeida, Alcides Évora, Manuel Boal, Lilica Boal, Óscar Duarte e tantos cabo-verdianos e guineenses que deram a vida, o suor, a inteligência e a coragem pela dignidade dos seus povos teriam razões para se orgulhar do que o Cabo Verde se tornou.

Como escreveu o Presidente Neves, há “momentos em que uma nação se redefine”. Cabo Verde tem vindo a redefinir-se pela sua estabilidade, pelo seu desenvolvimento gradual, pela sua coesão social, pela sua diáspora activa e pela dignidade com que representa um povo pequeno em número, mas imenso em espírito. 

A presença dos Tubarões Azuis no Mundial é apenas o mais recente sonho tornado possível. Depois do jogo, o Presidente escreveu também: “Cabo Verde é enorme!” Noutra publicação, acrescentou: “O meu orgulho é a humanidade que nos une, ilha a ilha, dor a dor, amor a amor! Morabeza, Amor a Bessa!”

É exactamente isso. Hoje, Cabo Verde é, indiscutivelmente, enorme. Enorme na alma. Enorme na diáspora. Enorme na dignidade. Enorme na capacidade de fazer o mundo olhar para um pequeno arquipélago africano e reconhecer a sua grandeza.

No campo, o resultado foi um empate. Na história, foi uma vitória. Cabo Verde já é vencedor -mempatando, perdendo ou ganhando.

*Umaro Djau é Deputado da XI Legislatura da Guiné-Bissau e Jornalista Internacional. Instagram: @umarodjau | Twitter: @UmaroDjauGB

Em Atlanta

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