PUB

Colunistas

Educação, formação profissional e emprego: o triângulo que pode salvar Cabo Verde

Por: António Delgado  Medina*

Há uma pergunta que todos nós, enquanto cidadãos, deveríamos fazer com honestidade: quem construirá o Cabo Verde de amanhã se a sua juventude continuar a partir ao ritmo a que está a partir hoje?

Todos os dias vemos jovens a embarcar para novos destinos. Uns procuram melhores salários, outros procuram oportunidades profissionais, outros ainda simplesmente procuram um futuro que acreditam não conseguir encontrar na sua própria terra.

Não há nada de errado em procurar uma vida melhor. A mobilidade faz parte do mundo moderno e sempre fez parte da história cabo-verdiana. O problema surge quando um país investe na formação dos seus recursos humanos e, quando estes atingem o seu potencial produtivo, vê-os partir para contribuir para o desenvolvimento de outras economias.

Estamos a formar excelentes eletricistas, canalizadores, mecânicos, técnicos de frio, soldadores, pedreiros, profissionais de hotelaria, enfermeiros, programadores, engenheiros e licenciados das mais diversas áreas. Muitos concluem a sua formação com elevado mérito, mas poucos encontram condições que lhes permitam construir um projeto de vida digno em Cabo Verde.

Este é um problema que exige uma reflexão nacional profunda.

É urgente construir uma verdadeira integração entre o sistema educativo, a formação profissional, o ensino técnico e superior e o mercado de trabalho. Não podem continuar a existir como realidades paralelas, cada uma a funcionar segundo a sua própria lógica, sem uma visão estratégica comum.

Precisamos de formar pessoas para responder às necessidades concretas da economia nacional e, ao mesmo tempo, criar condições para que essas competências sejam valorizadas dentro do próprio país.

A educação não pode ser vista apenas como um instrumento de obtenção de diplomas. Deve ser um motor de desenvolvimento económico, inovação, produtividade e criação de riqueza.

A formação profissional, por sua vez, não pode limitar-se à certificação de competências. Tem de estar articulada com políticas públicas de emprego, com incentivos ao empreendedorismo, com programas de inserção profissional e com uma forte ligação ao tecido empresarial.

É urgente construir uma verdadeira integração entre o sistema educativo, a formação profissional, o ensino técnico e superior e o mercado de trabalho. Não podem continuar a existir como realidades paralelas, cada uma a funcionar segundo a sua própria lógica, sem uma visão estratégica comum. (…) Precisamos de uma estratégia nacional integrada que una Governo, empresas, universidades, centros de formação profissional, municípios e sociedade civil numa mesma visão de futuro.

O ensino técnico deve assumir um papel central na preparação dos profissionais de que Cabo Verde efetivamente necessita para sustentar o seu desenvolvimento.

Mas tudo isto será insuficiente se persistirem remunerações incapazes de proporcionar uma vida digna aos trabalhadores.

Nenhum discurso patriótico será suficientemente forte para convencer um jovem qualificado a permanecer no país se não conseguir garantir habitação, estabilidade financeira, perspetivas de crescimento profissional e qualidade de vida para si e para a sua família.

Não basta formar. É preciso criar oportunidades.

Não basta qualificar. É preciso valorizar.

Não basta pedir aos jovens que fiquem. É preciso dar-lhes razões para ficar.

Ao mesmo tempo, é fundamental apostar nos enormes potenciais económicos de Cabo Verde. A economia azul, a valorização sustentável dos recursos do mar, a agricultura adaptada às condições climáticas, as energias renováveis, a economia digital, o turismo de qualidade, as indústrias criativas e a inovação tecnológica podem tornar-se verdadeiros motores de emprego qualificado para milhares de jovens.

Precisamos de uma estratégia nacional integrada que una Governo, empresas, universidades, centros de formação profissional, municípios e sociedade civil numa mesma visão de futuro.

A juventude não representa apenas uma faixa etária da população. Ela representa o nosso maior ativo estratégico.

Cada jovem qualificado que abandona definitivamente o país leva consigo conhecimento, investimento público, capacidade produtiva, criatividade, inovação e esperança.

Se não conseguirmos inverter esta tendência, corremos o risco de assistir, silenciosamente, a uma das maiores perdas de capital humano da nossa história recente.

Num pequeno arquipélago perdido no meio do Atlântico, sem grandes recursos naturais, a verdadeira riqueza nunca esteve no subsolo, nem estará apenas no turismo ou nas remessas da diáspora. A verdadeira riqueza de Cabo Verde sempre esteve nas suas pessoas.

E talvez tenha chegado o momento de assumirmos, como prioridade nacional, que investir nos nossos jovens só fará pleno sentido quando conseguirmos criar as condições para que possam realizar os seus sonhos sem precisarem de procurar o futuro longe da terra que os viu nascer.

Nenhum país se desenvolve exportando, de forma permanente, aquilo que tem de mais valioso: a inteligência, o talento e a força da sua juventude.

São Vicente, 16 de junho de 2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

PUB

PUB

PUB

To Top