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Alargamento do tempo diário de permanência na escola: Avanço ou retrocesso?

Por: Alcides Moreira *

Esta semana, a recém-empossada Ministra da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho, Dra. Adélcia Almeida, trouxe ao debate público uma questão que venho defendendo há mais de oito anos.

Ainda enquanto Diretor do Centro Educativo Miraflores, procurei dar passos concretos para que aquele estabelecimento se tornasse pioneiro na implementação de um modelo mais ajustado à realidade sociofamiliar cabo-verdiana, articulando melhor o sistema educativo com as necessidades das crianças, das famílias e da sociedade.

A discussão é pertinente e chega num momento em que Cabo Verde precisa de repensar o papel da escola. Não podemos falar de um sistema educativo de qualidade quando se reduz a carga horária das disciplinas estruturantes, nem podemos afirmar que protegemos as nossas crianças quando estas passam mais tempo sozinhas em casa ou expostas a diversos riscos do que num ambiente escolar seguro e estimulante.

Por isso, o aumento do tempo diário de permanência das crianças na escola deve ser encarado como um investimento estratégico no futuro do país. Trata-se de uma medida que reforça a proteção da criança, melhora a qualidade das aprendizagens e contribui para a formação integral de cidadãos mais preparados para os desafios do século XXI.

O aumento do tempo diário de permanência das crianças na escola deve ser encarado como um investimento estratégico no futuro do país. Trata-se de uma medida que reforça a proteção da criança, melhora a qualidade das aprendizagens e contribui para a formação integral de cidadãos mais preparados para os desafios do século XXI.

Naturalmente, este alargamento do tempo escolar não deve significar apenas “mais horas de aula”. Deve traduzir-se numa escola mais rica, mais inclusiva e mais dinâmica, capaz de oferecer experiências diversificadas e significativas.

Entre os principais benefícios de uma permanência superior a quatro horas diárias destacam-se:

-Melhoria do desempenho académico, proporcionando mais tempo para consolidar aprendizagens em leitura, escrita, matemática, ciências e outras áreas fundamentais.

-Redução do abandono e do absentismo escolar, fortalecendo o vínculo entre a criança, a escola, a família e a comunidade.

-Maior proteção das crianças, sobretudo nos casos em que os pais trabalham durante todo o dia, reduzindo a exposição a situações de risco, violência, negligência ou trabalho infantil.

-Desenvolvimento de competências para a vida, como trabalho em equipa, pensamento crítico, criatividade, comunicação, resolução de problemas e liderança, através de atividades complementares.

-Promoção da igualdade de oportunidades, beneficiando especialmente crianças provenientes de famílias com menos recursos, que muitas vezes não têm acesso a apoio educativo ou atividades extracurriculares.

-Melhoria da saúde e da nutrição, através de programas de alimentação escolar, educação para a saúde e promoção de hábitos de vida saudáveis.

-Maior envolvimento das famílias na educação dos filhos, reforçando a parceria entre escola, pais e comunidade.

-Contributo para o desenvolvimento económico e social de Cabo Verde, formando jovens mais qualificados, mais autónomos e mais preparados para responder às exigências do mercado de trabalho e da cidadania.

Contudo, para que esta medida produza os resultados esperados, é indispensável garantir algumas condições essenciais:

-Infraestruturas escolares adequadas e seguras.

-Professores devidamente preparados e valorizados.

-Recursos pedagógicos suficientes e atualizados.

-Alimentação escolar de qualidade.

-Atividades culturais, artísticas, desportivas e tecnológicas que promovam o desenvolvimento integral das crianças.

-Transporte escolar acessível, sobretudo para os alunos que residem em zonas mais distantes.

Num país marcado por desigualdades socioeconómicas entre ilhas e comunidades, o alargamento do tempo de permanência na escola pode constituir uma poderosa estratégia de proteção social, prevenção de situações de risco e promoção da equidade.

Mais do que uma reforma educativa, trata-se de uma aposta no desenvolvimento humano. Investir mais tempo, mais qualidade e mais oportunidades na escola é investir numa geração mais preparada, mais protegida e mais capaz de construir um Cabo Verde mais justo, inclusivo e próspero.

A verdadeira questão, portanto,  não é saber se devemos aumentar o tempo de permanência das crianças na escola. A questão é saber se podemos continuar a adiar uma decisão que representa um investimento direto no futuro das nossas crianças e do nosso país.

*Coordenador Nacional de Cuidados Alternativos de crianças e jovens nas Aldeias Infantis SOS Cabo Verde

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