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Pravda ou Istina? A Intelligentsia cabo-verdiana entre o dever da verdade e o peso da História

Por: Guedson C. Rompão*

Há questões que, por mais que as interroguemos, recusam-se a dar tréguas. Como o vento leste que varre as ilhas sem pedir licença, elas instalam-se, persistentes, no espírito de quem exerce o ofício de pensar. Uma delas, talvez a mais inquietante, é esta: qual o papel da intelligentsia numa sociedade pequena, insular, profundamente marcada pela emigração e pela escassez, mas que se pretende portadora de um projecto nacional coerente? A pergunta não é nova, evidentemente. Mas ganha contornos particulares quando aplicada a Cabo Verde, onde a elite intelectual, esse grupo difuso de escritores, docentes, artistas, jornalistas e académicos, sempre viveu na tensão entre a afirmação identitária e a crítica autónoma, entre a construção da nação e a honestidade da reflexão.

O caso russo

O estudo de Olga Zhukova sobre a intelligentsia russa, publicado na revista Thought, oferece-nos um prisma analítico útil para compreender esta nossa condição periférica. Ao examinar como os pensadores russos se confrontaram com a liberdade e a responsabilidade moral, Zhukova desenha um quadro que, além de dialogar com as epistemologias do Sul Global de autores como Fanon ou Glissant, encontra ecos no arquipélago atlântico. Não se trata de estabelecer paralelismos forçados entre a Rússia czarista e Cabo Verde pós-colonial, seria um disparate histórico e metodológico. Trata-se, isso sim, de reconhecer que o dilema fundamental é transversal: como conciliar a liberdade de pensar com a responsabilidade de agir? Como servir a verdade sem trair o chão que nos viu nascer?

Deformação moral dos ideiais

Zhukova, recuperando uma distinção clássica da filosofia russa, nomeadamente de Nikolai Berdyaev no célebre volume Vekhi (1909), estabelece uma diferença crucial entre dois conceitos de verdade. Por um lado, a Pravda, a verdade-moral, a verdade que serve a causa, que mobiliza as massas, que condena o opressor e absolve o oprimido. É a verdade útil, a que justifica a luta e alimenta a utopia. Por outro, a Istina, a verdade-metafísica, objectiva e universal, aquela que existe independentemente das nossas vontades ou das nossas causas políticas. É a verdade que exige honestidade intelectual rigorosa, análise fria e coragem para dizer o que é, mesmo que isso atrapalhe a agenda política. Convém assinalar que, na tradição filosófica russa, estas noções enraízam-se numa mundivisão ortodoxa, onde a verdade não é apenas epistemológica mas também ontológica e escatológica. A sua aplicação ao contexto crioulo e pós-colonial de Cabo Verde é, portanto, conceptual e não cultural; o que nos interessa é o dilema estrutural que elas revelam, e não a sua genealogia teológica.

Na verdade, o que Zhukova denuncia, seguindo Berdyaev, é a tendência da intelligentsia russa para sacrificar a Istina em nome da Pravda. Ou seja: se um dado histórico, uma constatação sociológica ou uma verdade científica contradizia a luta revolucionária, os intelectuais ignoravam-na, distorciam-na ou submetiam-na à utilidade política. Acreditavam que, como o fim, a revolução, a justiça social, era nobre, os meios intelectuais, manipular a verdade, eram justificáveis. A esta atitude, Zhukova chama “deformação moral dos ideais”: a intelligentsia perdeu a honestidade intelectual porque colocou a agenda política acima da busca desinteressada pela verdade.

É precisamente aqui que o espelho russo se revela útil, desde que manuseado com o devido cuidado. A intelligentsia czarista movia-se num império continental com aspirações messiânicas, dilacerada entre eslavófilos e ocidentalistas, entre a obediência ao trono e o apelo da revolução. A cabo-verdiana, por seu turno, formou-se na condição insular e periférica, marcada pela escassez, pela emigração como experiência ontológica e pela ausência de um inimigo externo claro após a independência. O que as irmana não é o contexto, mas o dilema: como servir a verdade quando a fragilidade da nação parece exigir a protecção do discurso?

Cabo Verde, Claridade, Cabral e outros

Em Cabo Verde, este problema coloca-se com particular acuidade. A nossa intelligentsia formou-se no contexto do colonialismo português, nos interstícios de um sistema que negava sistematicamente a possibilidade de uma cultura autónoma no arquipélago. O movimento Claridade, na década de 1930, representou o primeiro esforço coerente de auto-escrita da identidade cabo-verdiana, com figuras como Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa a procurarem uma expressão literária e cultural genuinamente crioula. Embora não político, o movimento lançou as bases de uma intelligentsia portadora de um projeto de emancipação cultural.

A intelligensia cabo-verdiana formou-se no contexto colonial

Com a luta anticolonial e a figura tutelar de Amílcar Cabral, esta intelligentsia ganhou uma dimensão política inequívoca. Cabral percebeu que a libertação exigia um confronto honesto com a herança colonial. Contudo, impõe-se a análise crítica: não terá o próprio Cabral subordinado, por estratégia conjuntural, a Istina à Pravda revolucionária para garantir a coesão necessária à luta armada? O que é certo é que o seu argumento, nas mãos de muitos dos seus herdeiros, transformou-se numa narrativa acrítica de afirmação identitária que evitava escavar as feridas da história.

Esta mesma intelligentsia era, contudo, herdeira de uma tradição de crítica social e política que, noutros momentos, se aproximara do radicalismo. O processo que culminou na independência, em 1975, gerou expectativas imensas de transformação social, e a elite intelectual alinhou-se, em larga medida, com o projecto revolucionário do PAICV, vendo na construção do Estado-nação a realização do ideal de liberdade e justiça social. O paradoxo é que esta adesão, por mais sincera que fosse, fundiu o impulso crítico com a disciplina partidária, e a reflexão intelectual correu o risco de se transformar em aparelho ideológico do poder.

Rússia e Cabo Verde

O que Zhukova identifica na tradição russa, a “questão da responsabilidade moral e política da classe educada pela escolha histórica da Rússia e pelo seu destino”, encontra paralelo na experiência cabo-verdiana. A pergunta que se coloca é: como é que a nossa intelligentsia respondeu, historicamente, ao desafio da responsabilidade?

A elite intelectual, longe de atuar sempre como um bloco monolítico, alinhou-se maioritariamente com o projecto do PAICV pós-1975, fundindo o impulso crítico com a disciplina partidária. Nesses anos formativos, cedeu-se frequentemente à tentação da Pravda. A narrativa nacional exaltou a mestiçagem como síntese perfeita, silenciando as reais tensões socioculturais e políticas entre Barlavento e Sotavento, e subalternizando as desigualdades de classe e os episódios de dissidência interna em prol de uma unidade mítica. O preço desta deformação é alto: quando a intelligentsia deixa de ser o espaço da reflexão autónoma para se tornar aparelho de legitimação do poder, corrói a sua credibilidade e fragiliza o projecto nacional.

Intelligentsia cabo-verdiana e três questões

Apesar de vivermos hoje um contexto diferente, o desafio é igualmente exigente. Com a democratização do sistema político, a abertura económica e a integração na globalização, a intelligentsia cabo-verdiana vê-se confrontada com novas questões que exigem uma renovação do seu compromisso com a verdade filosófica.

A primeira questão é a da identidade nacional no contexto da diáspora massiva. Cabo Verde é, hoje, uma nação que se estende por três continentes, com uma diáspora que ultrapassa em número a população residente. O que significa, neste contexto, ser cabo-verdiano? A identidade nacional é um território ou uma comunidade de afectos? É um projecto de futuro ou um arquipélago de saudade? Estas perguntas não têm respostas fáceis, e exigem da intelligentsia uma capacidade de reflexão que vá para além dos discursos identitários convencionais.

A segunda questão é a da sustentabilidade do desenvolvimento. Cabo Verde é um país de pequena dimensão, com recursos naturais escassos, fortemente dependente da ajuda externa e da emigração. A verdade filosófica obriga a reconhecer os limites do projecto de desenvolvimento, a questionar as políticas públicas, a avaliar criticamente os resultados alcançados. Mas esta avaliação crítica, para ser útil, não pode ser meramente negativa; tem de apontar caminhos, sugerir alternativas, propor soluções pragmáticas.

A terceira questão é a da relação entre intelectuais e poder. Num regime democrático, a intelligentsia não pode limitar-se a ser oposição ou governo; tem de ser, antes de mais, um espaço de reflexão autónoma, um lugar onde as questões são formuladas com honestidade intelectual e discutidas com rigor analítico. O que exige, da parte dos intelectuais, uma dupla coragem: a de criticar o poder quando ele merece crítica, e a de reconhecer os seus méritos quando ele os tem. O que exclui, igualmente, tanto a subserviência acrítica como a oposição sistemática e irresponsável.

Veja-se que Zhukova insiste na importância da “consciência intelectual”, alinhada ao pensamento de Semyon Frank, como capacidade de resistir à pressão ideológica e manter a honestidade intelectual mesmo em condições adversas. Para Frank, a consciência é “o timoneiro da liberdade, que cuida para que a liberdade não se transforme em arbítrio”. E a garantia da liberdade e da independência é a consciência como regulador interno, que torna o homem capaz de resistir a toda a coacção externa.

Em Cabo Verde, esta consciência intelectual é particularmente necessária num contexto de pequenez e de dependência. A intelligentsia cabo-verdiana está sujeita a pressões múltiplas: a pressão do poder político, que procura instrumentalizá-la, ora convocando os intelectuais para a legitimação do discurso oficial, ora marginalizando quem se recusa a alinhar; a pressão do mercado, que procura banalizá-la, reduzindo a produção cultural a um folclore turístico ou a uma mercadoria de exportação para a diáspora; a pressão da opinião pública, que, num espaço mediático exíguo, tende a simplificar as posições críticas em rótulos de “oposição” ou “situação”, como se não houvesse lugar para a nuance; e a pressão da própria diáspora, que, saudosa e distante, por vezes exotiza a cabo-verdianidade, exigindo uma imagem congelada da identidade que resista ao tempo e à mudança. Resistir a estas pressões não é fácil — quem disse que haveria de ser? — mas é a condição mínima para que a intelligentsia não se transforme num mero apêndice do poder ou do mercado.

É aqui que certas figuras da nossa intelligentsia se revelam paradigmáticas, e não apenas no domínio literário. Se escritores como Germano Almeida ou Dina Salústio e muitos outros não se limitam a exaltar a cabo-verdianidade — problematizam-na, desconstroem-na, expõem as suas contradições e os seus silêncios —, também no campo das ciências sociais e da história há quem pratique essa mesma honestidade intelectual, recusando a tentação da Pravda identitária e interrogando, com Istina, as zonas de sombra do nosso passado e do nosso presente. Ao fazê-lo, estes intelectuais prestam um serviço inestimável à comunidade: ajudam-na a ver-se ao espelho (sem os véus dos mitos e as distorções da propaganda) e a crescer, não na ilusão da perfeição, mas na consciência das suas fragilidades e das suas possibilidades.

O desconforto da dúvida

O apelo final de Zhukova, dirigido à intelligentsia russa, é igualmente aplicável à nossa intelligentsia: que ela não se contente com o papel de cronista ou de celebrante; que assuma o desconforto da dúvida, o risco da crítica, a exigência da verdade; e que, ao fazê-lo, se lembre sempre que o seu compromisso não é com nenhum poder, mas com a comunidade que a viu crescer. A verdade filosófica, essa Istina que nos incomoda e nos desafia, não é um luxo para os tempos de bonança. Ela é a bússola que nos orienta quando os ventos sopram contra. E em Cabo Verde, os ventos nunca param de soprar. A seca, a emigração, a dependência externa, as desigualdades regionais, a fragilidade do tecido económico, todos estes factores exigem da intelligentsia uma lucidez que não pode ser sacrificada em nome de nenhuma causa, por mais nobre que ela seja.

A intelligentsia cabo-verdiana tem, assim, uma dupla responsabilidade: a de preservar e transmitir o legado cultural, e a de renovar o pensamento crítico, confrontando-se com as realidades do presente e com os desafios do futuro. Esta dupla responsabilidade exige uma honestidade intelectual que não se dobra a conveniências políticas ou a modas ideológicas. Exige uma coragem que não se contenta com discursos fáceis ou com análises superficiais. Exige, finalmente, uma humildade que reconhece os limites do saber e a complexidade do real.

É nesse equilíbrio, entre a afirmação identitária e a crítica autónoma, entre o compromisso com a comunidade e a honestidade com a verdade, que a intelligentsia cabo-verdiana poderá encontrar o seu caminho. Poderá ela sê-lo, quando os ventos da dependência económica e da polarização global sopram cada vez com mais força? A resposta não está escrita em nenhum manifesto, nem pode ser decretada por nenhum poder. Cabe a cada intelectual, na solidão do seu ofício e na comunhão com a sua gente, descobri-la e merecê-la.

Os ventos, em Cabo Verde, nunca param de soprar. A questão não é pará-los — seria impossível. A questão é aprender a navegar com eles, sem perder de vista a estrela polar da verdade. Mesmo que, por vezes, ela se esconda nas nuvens.

*Jurista & Investigador | Presidente e Fundador do Centro de Estudos Africanos para Desenvolvimento e Inovação.

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