
Por: António Delgado Medina*
Durante décadas, Cabo Verde construiu a sua história sobre a mobilidade humana. A emigração ajudou milhares de famílias a superar dificuldades económicas e permitiu ao país beneficiar das remessas enviadas pela diáspora. Ninguém de bom senso pode ser contra a livre circulação de pessoas, nem contra a possibilidade de os nossos jovens procurarem formação, conhecimento e oportunidades além-fronteiras.
No entanto, há uma questão que merece uma reflexão séria e urgente: estaremos a transformar a formação dos nossos jovens numa estratégia de desenvolvimento nacional ou numa estratégia de exportação permanente dos nossos melhores recursos humanos?
Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma intensificação dos programas de recrutamento e mobilização de jovens cabo-verdianos para frequentarem formação profissional e cursos superiores em Portugal. À primeira vista, trata-se de uma excelente oportunidade. E, de facto, para muitos jovens representa a concretização de um sonho.
O problema começa quando observamos o que acontece depois.
A esmagadora maioria destes jovens não regressa ao país. Após concluírem a formação, permanecem em Portugal ou seguem para outros países europeus, atraídos por melhores salários, melhores condições de trabalho, maior estabilidade social e melhores perspetivas de futuro.
Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma intensificação dos programas de recrutamento e mobilização de jovens cabo-verdianos para frequentarem formação profissional e cursos superiores em Portugal. (…) A esmagadora maioria destes jovens não regressa ao país. Após concluírem a formação, permanecem em Portugal ou seguem para outros países europeus.
Perante esta realidade, a questão que devemos colocar não é se os jovens devem partir. A verdadeira questão é: porque é que tantos já não encontram razões para regressar?
Os dados demográficos são preocupantes. Segundo os resultados do IV Recenseamento Geral da População e Habitação, Cabo Verde tinha 491.683 habitantes em 2010. Em 2021, segundo os dados definitivos do V Recenseamento, a população residente situava-se em 491.233 habitantes, praticamente estagnada ao longo de onze anos. Em termos práticos, o país deixou de crescer demograficamente, fenómeno explicado, em grande medida, pela emigração e pela redução da natalidade.
Este dado deveria preocupar-nos profundamente. Enquanto vários países europeus enfrentam desafios relacionados com o envelhecimento populacional e procuram ativamente jovens trabalhadores e estudantes para revitalizar as suas economias, Cabo Verde assiste à saída contínua da sua população mais qualificada, mais dinâmica e mais empreendedora.
Estamos a perder precisamente aqueles que deveriam liderar a inovação, criar empresas, impulsionar a economia digital, desenvolver a agricultura moderna, fortalecer a indústria, renovar a administração pública e garantir a sustentabilidade futura do país.
Nenhuma nação consegue desenvolver-se de forma sustentável quando exporta sistematicamente os seus recursos humanos mais valiosos.
O problema não está na mobilidade. O problema está na ausência de condições que tornem o regresso atrativo. Temos de criar um país onde migrar seja uma opção e não uma necessidade. Isso implica políticas públicas corajosas e estruturantes.
Implica melhorar os salários e as condições de trabalho. Implica reforçar o acesso à habitação. Implica apoiar o empreendedorismo jovem. Implica criar mais oportunidades de investigação, inovação e desenvolvimento tecnológico. Implica aproximar a educação e a formação profissional das reais necessidades do mercado de trabalho.
E, sobretudo, implica investir seriamente na qualificação dentro do próprio país.
Tomemos o caso de São Vicente.
A ilha possui uma localização estratégica privilegiada, tradição educativa, forte dinâmica empresarial e excelentes acessibilidades. No entanto, continua sem possuir um grande centro de formação profissional de referência internacional, equipado segundo padrões europeus e capaz de servir não apenas Cabo Verde, mas também a costa ocidental africana.
Porque não criar em São Vicente um Centro de Excelência para a Formação Profissional?
Um centro moderno, especializado em áreas como energias renováveis, economia azul, tecnologias digitais, manutenção industrial, turismo, logística portuária, construção sustentável e inteligência artificial.
Um centro capaz de atrair estudantes de toda a África Ocidental.
Um centro capaz de transformar São Vicente num verdadeiro polo regional do conhecimento e da qualificação profissional.
Se conseguimos investir em infraestruturas físicas, também devemos ser capazes de investir na principal infraestrutura de qualquer país: as pessoas.
A juventude cabo-verdiana não é apenas um grupo etário. É o maior ativo estratégico da nação.
Podemos continuar a celebrar a saída dos nossos jovens como sinal de sucesso individual. Mas não podemos ignorar que, coletivamente, estamos perante um desafio nacional de enormes proporções.
A grande pergunta que Cabo Verde deve fazer a si próprio não é quantos jovens consegue enviar para o exterior. A pergunta decisiva é outra:
Que país estamos a construir para que eles tenham vontade de regressar e ajudar a desenvolver a terra que os viu nascer?
1 de julho de 2026
*Geógrafo, Mestre em Gestão Educativa e Doutorando em Ciências Sociais

