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51 anos: o improvável como método

Por: Paulo Mendes

Transformar o orgulho dos Tubarões Azuis num acelerador do desenvolvimento e da vida concreta do nosso povo – um trabalho que tem de começar hoje.

Cruzei-me com o Gérson na praia. Catorze anos, uma bola gasta, um remate seco que levantou areia. Jogámos um pouco e foi ele quem puxou a conversa: o pai é vizinho do Vozinha, disse-me, com o peito cheio, e está orgulhoso do nosso país. Depois falou-me do jogo com a Espanha, do empate com o Uruguai, da noite em que quase vergámos a Argentina. Eu quase não falei. Ouvi. E enquanto o ouvia, subiu-me do inconsciente a abertura de Os Flagelados do Vento Leste, de Manuel Lopes – aquele Cabo Verde de terra gretada e céu sem promessa, onde um menino da idade do Gérson media os dias pela chuva que não vinha. 

Entre o menino de Manuel Lopes e este menino da praia vão décadas de reinvenção perante as dificuldades. E dei por mim a pensar que nunca tinha escutado, de um jovem de catorze anos, uma declaração tão desassombrada de orgulho em ser cabo-verdiano. Fiquei ainda mais comovido. Estava ainda a tentar recuperar a voz e as minhas emoções, em turbilhão desde a noite anterior.

No passado dia 5 de julho, celebramos 51 anos de independência. E celebramo-los a transbordar desse orgulho que o Gérson me devolveu na praia. Os Tubarões Azuis, a mais pequena nação de sempre a disputar um Campeonato do Mundo, caíram de pé, frente à Argentina, depois de terem feito o mundo inteiro suster a respiração. Não foi apenas futebol. Foi a demonstração, em direto e à escala planetária, daquilo que sempre soubemos de nós próprios: que a dimensão de um povo não se mede em quilómetros quadrados ou pela sua capacidade económica. 

Porque esta história bonita no Mundial não nasceu em 2026. Nasceu a 5 de julho de 1975, quando um arquipélago sem recursos naturais, castigado pela seca, sangrado durante séculos pela escravatura e pelo colonialismo, decidiu que existiria pelo seu próprio nome. Nasceu do pensamento de Amílcar Cabral, que nos ensinou que a cultura é arma e que a liberdade se conquista com organização e clarividência. E foi crescendo contra todos os prognósticos: a transição exemplar para a democracia multipartidária em 1991; a graduação, em 2008, de país menos avançado a país de rendimento; a construção de uma das democracias mais sólidas e estáveis de África, reconhecida por todos os índices internacionais; uma diáspora maior do que a população residente, que nunca deixou de remeter para casa afeto, remessas e mundo.

Cinquenta e um anos depois, o improvável tornou-se o nosso método. Um país que os relatórios das décadas de setenta davam como inviável – o país dos flagelados – tornou-se referência de governação, de alternância pacífica, de liberdade de imprensa. Fizemos das dificuldades matéria-prima. Fizemos da morabeza diplomacia. Fizemos da música de Cesária Évora um passaporte que chegou onde os nossos conterrâneos não tinham chegado.

Os 51 anos de independência não são um ponto de chegada: são a prova acumulada de que somos capazes. O que o Mundial nos deu foi o espelho onde um miúdo de catorze anos, numa praia, se viu grande. Cabo Verde já mostrou ao mundo quem é. Falta agora mostrarmo-nos, uns aos outros, tudo aquilo que ainda podemos ser.

Mas seria um erro – e um desperdício – deixar que este orgulho se esgote na festa ou na partilha nas redes sociais. O desafio que temos pela frente é precisamente este: transformar esta onda de notoriedade e de amor-próprio, este sentido renovado de pertença, num acelerador do nosso processo de desenvolvimento e numa melhoria concreta da vida do nosso povo. Porque o Gérson da praia merece mais do que motivos de orgulho: merece escola de qualidade, saúde que funcione, mobilidade acessível, oportunidades que não o obriguem a escolher entre a terra que ama e o futuro que sonha.

A receita, os Tubarões Azuis já a puseram em cima da mesa, para quem a quiser ler: resistência perante as dificuldades, união em torno de um objetivo comum, foco naquilo que é essencial e uma liderança capaz de organizar talentos dispersos pelo mundo numa só ambição. Foi esse o antídoto que tornou o improvável provável nos relvados da América. É esse o antídoto que pode tornar o improvável provável na economia, na educação, na saúde, na justiça social.

E porque as teses valem pelo que propõem, avanço três frentes onde este espírito pode traduzir-se em resultados a curto prazo. Cito-as apenas como exemplos – o fundamental será definir uma estratégia concertada para capitalizar este enorme recurso que é a notoriedade e a autoestima de um povo inteiro. 

A primeira: desenvolver e simplificar radicalmente a estratégia de captação de empresas para Cabo Verde. Não é preciso inventar muito – a Estónia, um pequeno país de 1,3 milhões de habitantes, criou o programa e-Residency, que permite a qualquer empreendedor do mundo registar e gerir uma empresa online, em minutos, sem pisar o território. O resultado foram dezenas de milhares de empresas atraídas para uma economia que, na sua escala, nada tinha de óbvio. Cabo Verde reúne condições singulares para adaptar este modelo: estabilidade política reconhecida, posição atlântica entre três continentes, uma diáspora empreendedora espalhada pelo mundo que seria a primeira embaixadora do programa, e agora uma notoriedade global que nenhuma campanha de marketing compraria. Falta a decisão de simplificar – licenciamento digital, fiscalidade clara, resposta em dias e não em meses.

A segunda frente é o turismo. Somos já um destino consolidado, mas demasiado concentrado em dois modelos e duas ilhas. O salto que está ao nosso alcance é alinhar uma estratégia nacional que diversifique a oferta – cultura, música, natureza, mar, história – e distribua o benefício por todo o arquipélago, transformando cada ilha num argumento e não numa periferia. O Mundial pôs o nome de Cabo Verde na boca do planeta; há milhões de pessoas que ouviram falar de nós pela primeira vez nas últimas semanas. Ou convertemos essa curiosidade em visitantes, investimento e emprego, ou deixamos que se evapore.

A terceira frente é a mais óbvia e, paradoxalmente, a mais adiada: uma agenda verdadeiramente disruptiva de envolvimento da diáspora. Repare-se no simbolismo – a seleção que nos fez chorar de orgulho é ela própria obra da diáspora: jovens nascidos ou criados em Roterdão, em Lisboa, em Dublin, que podiam ter escolhido outras bandeiras e escolheram a nossa. Se o futebol soube organizar o talento cabo-verdiano espalhado pelo mundo numa só equipa, porque não o país? Somos mais lá fora do que cá dentro, e durante décadas tratámos essa realidade como fonte de remessas e saudade, quando ela é o nosso maior ativo estratégico: capital, competências, redes, mercados. 

Uma agenda disruptiva significa ir além dos encontros protocolares – significa canais reais de investimento com regras simples, participação efetiva na vida cívica, política e económica nacional, programas de retorno de competências, e um estatuto que faça de cada cabo-verdiano no mundo um sócio do projeto Cabo Verde, não um espetador. 

O momento é este, e não voltará tão cedo: nunca a diáspora esteve tão orgulhosa, tão visível e tão disponível para ser convocada. Como o Vozinha, ela só espera que a chamem para a baliza.

E não menos importante: ao mesmo tempo que forçamos esta abertura ao mundo, há que usar este capital em duas direções que me parecem decisivas. Fortalecer a nossa relação com o continente africano – de que somos parte, história e futuro, e onde a CEDEAO e a zona de comércio livre continental representam mercados que mal começámos a explorar – e, em simultâneo, aprofundar a Parceria Especial com a União Europeia, esse estatuto singular que negociámos em 2007.

 E nessa relação com a Europa temos um ativo que raramente valorizamos: o espaço da Macaronésia. Partilhamos com os Açores, a Madeira e as Canárias um mar, um clima, uma história atlântica e desafios comuns – e essas regiões ultraperiféricas são portas de entrada naturais na União, com programas de cooperação já em curso que podemos ambicionar muito para além do que hoje são. Não se trata de escolher entre África e a Europa: trata-se de assumir, finalmente, a nossa vocação de ponte atlântica. Um arquipélago a meio caminho entre três continentes não tem geografia – tem destino. O que faltava era o mundo olhar para nós; agora que olha, cabe-nos transformar o olhar em relação, e a relação em desenvolvimento.

É um trabalho que tem de começar no imediato. Não daqui a um ciclo eleitoral, não quando as condições forem ideais – porque as condições, para nós, nunca foram ideais, e nem por isso deixámos de chegar onde chegámos. Os 51 anos de independência não são um ponto de chegada: são a prova acumulada de que somos capazes. O que o Mundial nos deu foi o espelho onde um miúdo de catorze anos, numa praia, se viu grande.

Cabo Verde já mostrou ao mundo quem é. Falta agora mostrarmo-nos, uns aos outros, tudo aquilo que ainda podemos ser.

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