
Por: Edna Moreira Vezo*
A 4 de julho de 2026, em Miami, os Tubarões Azuis deixaram o relvado após uma prorrogação dramática frente à Argentina, campeã do mundo em título. O resultado 3-2 para os argentinos, não apaga, antes consagra, o feito mais extraordinário do futebol cabo-verdiano: a estreia num Mundial, a qualificação para a fase eliminatória e a condição de menor nação da história a alcançar os oitavos de final de uma Copa do Mundo. Com pouco mais de 525.000 habitantes, Cabo Verde inscreveu o seu nome nos anais do desporto mundial.
Este artigo não é sobre futebol. É sobre economia, estratégia e o valor da atenção global que Cabo Verde recebeu. Porque o que aconteceu fora dos relvados pode revelar-se tão transformador para o país como a proeza desportiva dentro deles.
A campanha dos Tubarões Azuis rendeu à Federação Cabo-verdiana de Futebol um encaixe financeiro estimado em 23,5 milhões de dólares (cerca de 2,3 mil milhões de escudos). Caso tivesse vencido a Argentina, o prémio ascenderia a 26 milhões de dólares. O valor arrecadado é, por si só, um marco financeiro para a federação. Mas, para o país, o verdadeiro prémio não se esgota no valor arrecadado pela Federação.
O Mundial de 2026 mobilizou um investimento publicitário global estimado em 10,5 mil milhões de dólares. As transmissões televisivas, os artigos na imprensa internacional e as conversas nas redes sociais repetiram o nome “Cabo Verde” milhões de vezes, em todos os fusos horários, em dezenas de idiomas. Quanto vale, para um país como o nosso, estar no centro deste palco?
A resposta começa a desenhar-se nos dados de procura turística.
O interesse global por Cabo Verde disparou durante o Mundial. A plataforma de viagens Trip.com registou um aumento de 388% nas pesquisas por Cabo Verde por parte de turistas chineses, em comparação com o mesmo período do ano anterior, e um salto de 852% face ao mês anterior. Nos Estados Unidos, a Expedia reportou um crescimento superior a 800% nas pesquisas pelo destino. O Google Trends assinalou que as buscas por “voos para Cabo Verde” atingiram o nível mais alto já registado.
Mais impressionante ainda é a conversão do interesse em reservas: as reservas de voos para Cabo Verde registaram um aumento de 76%, e as reservas hoteleiras cresceram 46% no mesmo período. Estes números, recolhidos por plataformas como Trip.com, Expedia, TUI e Tongcheng Travel, revelam um fenómeno que os especialistas em marketing turístico designam por destination discovery: quando um evento global apresenta um país inteiro a milhões de pessoas que jamais haviam pensado em visitá-lo.
A «Marca Cabo Verde» precisa agora de afirmar-se não apenas como um destino de sol e praia, mas como um arquipélago de cultura, história, música e resiliência, exatamente os atributos que os Tubarões Azuis personificaram durante o Mundial. (…) Os Tubarões Azuis mostraram ao mundo que Cabo Verde pode competir ao mais alto nível. Cabe agora ao país demonstrar que sabe capitalizar essa vitória, dentro e fora dos relvados.
O “Efeito Islândia” em versão africana
Não é a primeira vez que o futebol transforma a perceção global de uma pequena nação. A Islândia, com 330.000 habitantes, viu o turismo explodir após a sua campanha histórica no Euro 2016 e no Mundial de 2018. O “Efeito Islândia” catapultou uma ilha vulcânica do Atlântico Norte para o imaginário de milhões de viajantes.
Cabo Verde tem agora a oportunidade de replicar, e, quem sabe, superar esse fenómeno. Mas, ao contrário da Islândia, o arquipélago cabo-verdiano já depende fortemente do turismo: o setor responde por aproximadamente 25% do PIB. A diferença é que a procura permanece concentrada em visitantes europeus e em apenas duas das nove ilhas habitadas.
O que a Copa fez foi colocar Cabo Verde diante de um público completamente novo: americanos, asiáticos, latino-americanos, que ouviram o nome do país repetidamente durante as transmissões e viram imagens de praias vulcânicas, bandeiras coloridas e da festa dos torcedores.
O desafio da capitalização
O que se segue é a questão mais decisiva: como transformar este pico de visibilidade num crescimento sustentável?
O Governo cabo-verdiano, através do Ministério do Turismo, desenhou uma estratégia integrada em três fases: a primeira, durante o Mundial, centrou-se na ativação da diáspora e na criação de “Casas de Cabo Verde” nos países anfitriões (EUA, Canadá e México); a segunda, imediatamente após o torneio, aposta em campanhas digitais agressivas nos mercados emergentes; a terceira visa a conversão do interesse em investimento, atraindo não apenas turistas, mas também investidores para o setor hoteleiro, para as energias renováveis e para a economia azul.
O desafio é, contudo, imenso. O turismo em Cabo Verde permanece fortemente dependente de pacotes all inclusive vendidos por grandes operadoras internacionais, o que limita a circulação de dinheiro na economia local. A «Marca Cabo Verde» precisa agora de afirmar-se não apenas como um destino de sol e praia, mas como um arquipélago de cultura, história, música e resiliência, exatamente os atributos que os Tubarões Azuis personificaram durante o Mundial.
O legado e o futuro
A campanha de Cabo Verde no Mundial 2026 foi, acima de tudo, uma lição de economia da atenção. O prémio financeiro de 23,5 milhões de dólares é significativo, mas a verdadeira riqueza reside no capital de marca e na projeção internacional que o país conquistou.
Os dados de procura turística, os picos de pesquisa no Google e o aumento das reservas são mais do que números: são um termómetro do interesse global e uma janela de oportunidade que o país não pode desperdiçar.
A pergunta que fica não é se Cabo Verde ganhou ou perdeu o jogo em Miami. A pergunta é: como o país irá transformar esta visibilidade global num desenvolvimento sustentável e numa prosperidade duradoura para o seu povo?
Os Tubarões Azuis mostraram ao mundo que Cabo Verde pode competir ao mais alto nível. Cabe agora ao país demonstrar que sabe capitalizar essa vitória, dentro e fora dos relvados.
*Doutoranda em Desenvolvimento Global e Sustentabilidade, Consultora em Investimentos e Planeamento Estratégico, Presidente do Centro de Empoderamento Feminino – Criativa

