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O efeito Vozinha: a construção da marca Cabo Verde

Por: Amílcar Aristides Monteiro*

Josimar Dias – “Vozinha” –  tem hoje 29,5 milhões de seguidores no Instagram. O Instituto do Turismo de Cabo Verde tem 3.699. A TradeInvest, a agência que atrai investimento e promove exportações, tem 2.315(). Um guarda-redes tem quase cinco mil vezes o alcance combinado das duas instituições responsáveis pela promoção internacional de Cabo Verde.

Vozinha tornou-se reconhecível internacionalmente como uma das expressões mais visíveis de Cabo Verde. Através do seu desempenho em campo, ele converteu esse capital simbólico associado a Cabo Verde em uma atenção internacional cuja autenticidade e intensidade dificilmente poderiam ser reproduzidas por uma campanha convencional de marketing.

Esta constatação resulta naquilo que o economista Sherwin Rosen(2) chamou de “economia das superestrelas”: a tecnologia de comunicação de massas multiplica o alcance de quem já está no topo a custo quase nulo. Rosen notou ainda que o valor da fama extravasa o campo de competência original – e é assim que um guarda-redes se torna, por associação, o ativo de marca-país mais visível que Cabo Verde alguma vez teve.

E para um micro-estado como Cabo Verde a visibilidade global vale ouro: campanhas de promoção internacional custam milhões de dólares, uma escala que Cabo Verde dificilmente poderia financiar. Mas uma superestrela que surge de forma natural, entrega a um custo relativamente baixo o que o marketing almeja – atenção genuína, à escala global, associada a emoção positiva(3). 

Desde que existam mecanismos capazes de converter a procura e contactos (leads) em oportunidades concretas, o ganho de exposição pode traduzir-se em ganhos para o turismo, o investimento e as exportações.

Outros estados insulares já perceberam isto. Em maio de 2025, a Jamaica nomeou Usain Bolt Embaixador Global de Turismo, institucionalizando o capital simbólico do seu maior ícone, e lançou uma campanha internacional que o tem como rosto(4).

A trajetória de Bolt levou uma década a construir-se; a de Vozinha é recente e instável. Mas o caso mostra o que é possível quando um pequeno país decide gerir a relação com o seu ícone, em vez de o deixar ao acaso.

Porém, estabelecer uma parceria com o Vozinha seria a parte mais simples. Na prática, Cabo Verde continua a tratar a promoção internacional como uma sucessão de iniciativas de marketing tradicional, e não como a construção deliberada de uma marca. 

Após o Mundial, existem medidas que podem ser implementadas de imediato. Entre elas estão o reforço da comunicação nos canais oficiais, a mobilização dos operadores turísticos e da diáspora nos mercados em crescimento – particularmente no Brasil, onde Vozinha conquistou grande projeção – e a abertura de negociações transparentes para uma parceria de médio prazo com o jogador, salvaguardando a sua autonomia, os direitos de imagem e contrapartidas claramente definidas.

O efeito Vozinha transcende o turismo. Ele evidencia o potencial da marca Cabo Verde para reforçar a diplomacia económica, promover exportações, atrair investimento e mobilizar a diáspora em torno de uma narrativa positiva do país.

A janela de oportunidade, contudo, já começou a estreitar-se. Cabo Verde foi eliminado do Mundial em 3 de julho, após perder por 3–2 com a Argentina no prolongamento(5). Desde então, a curva de atenção que pôs Cabo Verde nos destaques internacionais já está a arrefecer, e esperamos que estabilize num novo normal de visibilidade pós-Mundial.

Enquanto isso, os canais institucionais não revelam ainda uma intensificação de conteúdos e de interação proporcional à atenção internacional gerada pelo Mundial. 

No entanto, a procura é real. Nos EUA, após o jogo contra a Argentina, as pesquisas por “Cabo Verde vacation” subiram mais de 5.000%(6), em relação ao ano anterior, uma escala praticamente impossível de alcançar, com os recursos habitualmente disponíveis, por campanhas publicitárias, feiras ou fóruns promocionais isolados.

Após o Mundial, existem medidas que podem ser implementadas de imediato. Entre elas estão o reforço da comunicação nos canais oficiais, a mobilização dos operadores turísticos e da diáspora nos mercados em crescimento – particularmente no Brasil, onde Vozinha conquistou grande projeção – e a abertura de negociações transparentes para uma parceria de médio prazo com o jogador, salvaguardando a sua autonomia, os direitos de imagem e contrapartidas claramente definidas.

Mas nada disto resolve o problema de fundo – mais antigo que o Mundial. Nunca houve um esforço de branding-país concertado além do lançamento de logomarcas. 

A marca turística de Cabo Verde é cronicamente instável. “One Country, Ten Destinations” nasceu em 2010/2011, foi abandonada em 2016 e em 2024 o governo introduziu “The Islands of Cabo Verde, From the Heart”(7-8). O lançamento foi imediatamente ensombrado por uma polémica sobre semelhanças com o logótipo de uma empresa portuguesa(9). Aqui não interessa se houve cópia. 

O problema não é apenas a substituição de um logótipo, mas a perceção de que a narrativa e o posicionamento internacional do país podem ser reiniciados a cada ciclo político. Uma marca estável e uma narrativa consolidada do país são necessárias para aportar a estabilidade necessária para absorver o efeito Vozinha e a onda de impacto do sucesso dos Tubarões Azuis.

Além do branding, existe já, no papel, uma resposta parcial: o Programa Operacional do Turismo (2022-2026) prevê uma arquitetura institucional liderada por uma Destination Management Organization, com mais de 300 milhões de escudos de orçamento(10). 

Mais de três anos depois, a arquitetura prevista no Programa não se encontra plenamente operacional, pelo menos com o mandato integrado, a capacidade técnica e a continuidade institucional nele projetados.

Seria essa arquitetura, e não uma campanha pontual, que teria o mandato e a continuidade necessários para transformar o efeito Vozinha numa estratégia permanente de projeção internacional de Cabo Verde.

Mas a atenção internacional é, por natureza, efémera. O verdadeiro desafio é criar instituições capazes de converter notoriedade em turismo, investimento, exportações e prestígio internacional. É essa capacidade que distingue uma campanha de comunicação de uma verdadeira estratégia de construção de marca-país.

*Consultor em Gestão do Desenvolvimento | MSc Technology Management, BSU

Praia, 21 de julho de 2026

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