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Santo Antão: desenvolver a ilha para que partir seja uma escolha, não uma necessidade

Por: António Delgado  Medina*

A minha segunda visita de investigação à ilha de Santo Antão, no âmbito da elaboração da minha tese de doutoramento em Ciências Sociais, dedicada ao tema “Políticas Socioeconómicas de Desenvolvimento como Catalisadores Fundamentais na Regulação dos Fenómenos Migratórios em Cabo Verde”, permitiu-me ouvir diferentes protagonistas da realidade insular. 

Falei com o Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, empresários dos concelhos da Ribeira Grande e do Paul, delegados do Ministério da Educação, responsáveis pela formação profissional e cidadãos de diferentes idades e profissões. 

Apesar da diversidade dos interlocutores, uma preocupação surgiu de forma quase unânime: a saída contínua dos jovens da ilha.

Santo Antão é, por excelência, uma ilha de enormes potencialidades. Possui um património natural invejável, paisagens que atraem turistas de todo o mundo, terras férteis, uma cultura rica e um povo reconhecido pela sua capacidade de trabalho. No entanto, paradoxalmente, enfrenta hoje um dos maiores desafios ao seu desenvolvimento: a perda gradual da sua população jovem e ativa.

A emigração e a mobilidade sempre fizeram parte da história de Cabo Verde. Contudo, o fenómeno que hoje se observa em Santo Antão assume contornos diferentes. Já não se trata apenas da procura de melhores oportunidades no estrangeiro. Muitos jovens abandonam a ilha em direção a outras ilhas do arquipélago, sobretudo São Vicente Sal, Boa Vista e Santiago, por entenderem que Santo Antão deixou de lhes oferecer perspetivas de realização profissional e pessoal.

As consequências desta realidade são visíveis. Empresários dos setores da hotelaria, restauração, turismo, agricultura e construção civil relatam dificuldades crescentes em recrutar trabalhadores. Há investimentos realizados, há procura por serviços, mas falta mão de obra. Estamos perante um paradoxo preocupante: existe  desemprego em alguns segmentos da população e, simultaneamente, escassez de trabalhadores em setores estratégicos para a economia local.

Outro aspeto que merece uma reflexão séria diz respeito à formação profissional. Muitos dos entrevistados consideram que a oferta formativa atualmente existente não responde às necessidades concretas da ilha. Continuam a formar-se jovens em áreas cuja empregabilidade local é reduzida, enquanto setores fundamentais, como turismo sustentável, agricultura moderna, agroindústria, manutenção de equipamentos, energias renováveis e construção civil especializada, permanecem carentes de profissionais qualificados.

Nenhuma campanha de sensibilização convencerá os jovens a permanecerem na ilha se eles não encontrarem emprego digno, salários compatíveis com o custo de vida, acesso à habitação, formação ajustada às necessidades do mercado e perspetivas reais de progressão profissional

A formação profissional não pode ser concebida como um exercício meramente estatístico, destinado a apresentar números de formandos. Deve ser um verdadeiro instrumento de desenvolvimento territorial, construído em diálogo permanente com as necessidades das empresas, dos municípios e das comunidades locais. Formar sem criar oportunidades de inserção profissional significa, muitas vezes, preparar jovens para partir.

A agricultura constitui outro motivo de preocupação. Apesar das enormes potencialidades agrícolas de Santo Antão, verifica-se uma crescente desmotivação dos jovens relativamente ao trabalho no campo. As razões são diversas: baixos rendimentos, dificuldades de acesso à água, custos elevados dos fatores de produção, mercados pouco organizados, fraca inovação tecnológica e uma persistente desvalorização social da profissão de agricultor.

Enquanto a agricultura continuar a ser vista como uma atividade de sobrevivência, dificilmente conseguirá atrair novas gerações. É necessário transformá-la num setor moderno, rentável, tecnologicamente  inovador e economicamente competitivo.

Esta realidade demonstra que a questão migratória não pode ser analisada apenas como uma decisão individual. A migração é também um reflexo das políticas públicas, das oportunidades económicas, da qualidade das instituições e das expectativas que uma sociedade consegue oferecer aos seus cidadãos.

Nenhuma campanha de sensibilização convencerá os jovens a permanecerem na ilha se eles não encontrarem emprego digno, salários compatíveis com o custo de vida,  acesso à habitação, formação ajustada às necessidades do mercado e perspetivas reais de progressão profissional.

É precisamente aqui que as políticas socioeconómicas assumem um papel decisivo. Regular os fenómenos migratórios não significa impedir as pessoas de partir. Significa criar condições para que partir seja uma opção e não uma necessidade. Quando um jovem escolhe permanecer porque acredita no seu futuro, então a política pública cumpriu verdadeiramente a sua missão.

Santo Antão necessita de uma estratégia integrada de desenvolvimento que articule educação, formação profissional, turismo, agricultura, empreendedorismo, investimento privado e políticas de emprego. As soluções não podem continuar fragmentadas entre diferentes ministérios e programas sem coordenação.

É igualmente fundamental reforçar a ligação entre os centros de formação profissional e o tecido empresarial local, permitindo que os cursos sejam concebidos em função das reais necessidades do mercado de trabalho. As empresas devem deixar de ser meras destinatárias dos formandos para se tornarem parceiras ativas na definição das competências necessárias.

Importa também valorizar o empreendedorismo jovem, facilitar o acesso ao financiamento, incentivar projetos inovadores ligados à economia verde, ao turismo rural, à economia digital e à transformação agroalimentar. Santo Antão dispõe de recursos naturais e humanos suficientes para construir um modelo de desenvolvimento mais sustentável e inclusivo.

As entrevistas realizadas durante esta investigação deixam uma mensagem clara: existe vontade de investir, existe capacidade de trabalhar e existe orgulho na ilha. O que falta é uma política pública mais coerente, territorialmente diferenciada e orientada para resultados concretos.

Se Cabo Verde pretende transformar a migração numa escolha e não numa imposição, terá inevitavelmente de começar por fortalecer economias locais como a de Santo Antão. Caso contrário, continuará a assistir à saída dos seus jovens, ao envelhecimento das comunidades, à escassez de mão de obra e ao enfraquecimento gradual do seu potencial produtivo.

O verdadeiro desenvolvimento mede-se pela capacidade de um território oferecer razões para que os seus filhos queiram permanecer, construir família, investir e sonhar. Santo Antão ainda possui todas as condições para o conseguir. Mas o tempo para agir é agora, antes que a maior riqueza da ilha – as suas pessoas – continue a procurar, longe de casa, as oportunidades que não encontrou na terra onde nasceu.

21 de julho de 2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

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