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China: um país que surpreende a cada passo

Por: Luís Carvalho*

Há viagens que nos levam a conhecer novos lugares. Outras levam-nos a repensar o mundo. A minha passagem pela China, entre 23 de Junho e 7 de Julho de 2026, foi das duas.

Quando aterrei em Pequim para participar no Seminário para Responsáveis pela Informação e Jornalistas dos Países do Sul Global, esperava encontrar um país tecnologicamente avançado. Encontrei isso, mas descobri muito mais: uma sociedade que procura conciliar uma história milenar com uma impressionante aposta na inovação.

Durante duas semanas, entre Pequim e a Região Autónoma Hui de Ningxia, convivi com colegas da Ásia, África, América Latina e Caraíbas. É curioso como jornalistas de culturas tão diferentes acabam por partilhar as mesmas inquietações:  como combater a desinformação, como preservar a credibilidade e como sobreviver à revolução digital sem perder a essência da profissão.

As conferências sucediam-se a um ritmo intenso. Falava-se de inteligência artificial, produção multimédia, plataformas digitais e novos modelos de distribuição de notícias. Mas o que mais me marcou não foram as apresentações em auditórios modernos. Foi perceber que, para os chineses, a tecnologia não é tida como um fim em si mesma, mas uma ferramenta para aumentar a eficiência e responder às necessidades de uma sociedade em constante transformação.

Na ZOOXER TECH vi câmaras robotizadas que seguem automaticamente o apresentador, sistemas inteligentes capazes de realizar uma transmissão quase sem intervenção humana e soluções que reduzem drasticamente o tempo de produção audiovisual. 

Confesso que, por momentos, imaginei como seria uma agência noticiosa como a Inforpress a beneficiar destas ferramentas. Não para substituir jornalistas, mas para lhes devolver aquilo que a tecnologia nunca conseguirá oferecer: tempo para pensar, investigar e contar boas histórias.

Outro momento marcante aconteceu na Estação Langyuan, um antigo complexo industrial transformado num vibrante centro de criatividade e inovação. Ali, entre edifícios preservados e empresas dedicadas à inteligência artificial generativa, compreendi que modernizar não significa apagar o passado. Pelo contrário, significa dar-lhe uma nova vida.

Mas nenhuma inovação consegue competir com a emoção de subir a Grande Muralha da China. Diante daquela obra colossal, construída pedra sobre pedra ao longo de séculos, torna-se impossível não pensar na persistência humana. A muralha não é apenas um monumento; é uma lição de determinação.

Em Ningxia, a paisagem revelou outra face da China. Entre o Rio Amarelo, os campos agrícolas altamente mecanizados e os Túmulos Imperiais de Xixia, percebe-se um país que procura equilibrar desenvolvimento económico, preservação cultural e gestão dos recursos naturais. A imagem estereotipada de uma China feita apenas de arranha-céus desaparece rapidamente perante a diversidade das suas regiões.

Regressei a Cabo Verde convencido de que a inteligência artificial transformará inevitavelmente o jornalismo. A transcrição automática, a tradução, a pesquisa documental ou a  legendagem poderão tornar as redacções mais eficientes. Mas também voltei com uma certeza reforçada: nenhuma máquina substituirá o olhar crítico, a sensibilidade e o sentido ético de um jornalista.

No fim da viagem, trouxe fotografias, lembranças e muitos apontamentos. Trouxe, sobretudo, a convicção de que o futuro da comunicação social dependerá menos da tecnologia que adoptarmos e mais da forma como escolhermos utilizá-la.

A China ensinou-me que tradição e inovação podem caminhar lado a lado. Talvez essa seja a maior lição da viagem: construir o futuro sem esquecer o caminho percorrido. Afinal, tal como a Grande Muralha continua de pé séculos depois da sua construção, também o bom jornalismo continuará a resistir se permanecer assente nos seus alicerces essenciais: rigor, independência, credibilidade e serviço público.

*Da Agência Inforpress

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