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Crónica Outras Vozes, Outras Vidas: Os mundiais deste Mundial

Por: Joaquim Arena

Terminado este Mundial 2026 no México, Canadá e EUA, quase tudo já foi dito e escrito – por nós e pelo mundo inteiro – sobre o feito histórico pela presença e o desempenho da selecção cabo-verdiana nesta edição do torneio. Nenhum roteiro de Hollywood ou livro de ficção poderia ter chegado perto, para o sucesso de uma equipa que levava na bagagem apenas sonhos e muita vontade nas pernas. Chegados aos 16 avos e tendo saído vitorioso da derrota no tempo de compensação com a Argentina, nas redes sociais, pelas ruas e cafés de Nova Iorque, em recintos desportivos de velhas glórias, nas páginas pessoais de Romário Nazário, do guarda-redes colombiano Higuita e ao lado de outros famosos, Vozinha manteve viva a chama da equipa e o nome de Cabo Verde bem alto. 

O ‘goleiro’ do Mindelo disparou no número de seguidores no instagram e tornou-se uma estrela à escala planetária. Parecia algo estudado e ensaiado: a imagem serena e confiante, homem humilde, o mais velho que dá ânimo e força aos seus colegas de equipa, o jogador que se revela (para quem o desconhecia) articulado em português, espanhol e inglês, sobretudo nesta última língua, permitindo-lhe ser entrevistado pela cadeia de televisão americana CBS e interagir com admiradores nas ruas de Nova Iorque.

Nenhum guionista faria melhor. Todos os astros e todos os planetas do universo alinharam-se e Cabo Verde ‘nasceu’ para o mundo. Tal qual Alcides Ghiggia colocou o Uruguai no mundo, no ‘maracanazo’, de 1950, na vitória sobre o Brasil. Ou o golo de Roger Milla (a célebre dança), em 1990, contra a Roménia, pelos Camarões. Dito isto, o que fica? Espanha a melhor equipa do mundo e Cabo Verde a equipa-sensação desta copa. Aquela que conquistou mais corações, mais adeptos em todos os continentes. Por todas as razões já sobejamente descritas.

Tirando a ‘campeoníssima’ Espanha e a estreia ‘di oro’ de Cabo Verde, este Mundial de 48 selecções (muitas com jogadores descendentes de imigrantes africanos) fica marcado por vários outros aspectos, naturalmente, e que vale pena referir. É um torneio pontuado por algumas vergonhas e outros escândalos, para além de cenas lamentáveis e desfechos tristes: a recusa do visto ao árbitro somali Omar Abdulkador Artan, pelas autoridades americanas e a inércia da FIFA; a forma como jogadores africanos foram tratados à chegada, nos aeroportos dos Estados Unidos; a obrigação da equipa nacional do Irão de abandonar o país após os jogos, imposta pela administração americana, e ter de mudar-se para o México; o cartão vermelho perdoado ao jogador da equipa americana Farolin Balogun por exigência de Donald Trump e a anuência de Gianni Infantino; a morte do jogador sul-africano, Jaden Adams, a pausa para hidratação, em estádios climatizados (para muitos, uma pausa para meter mais publicidade); os preços exorbitantes dos ingressos; as longas filas para entrar nos estádios; a presidente do México e o primeiro-ministro do Canadá, de países anfitriões do Mundial 2026, que não entregam sequer uma medalha aos jogadores; uma final de Copa do Mundo ‘travestida’ de Superbowl, com actuações entediantes, durante o intervalo de 20 minutos, de Chris Martin (Coldplay), Madona (num jipe acompanhada de Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho, numa cena considerada por muitos bastante confrangedora), Justin Biber (que discutiu, nos bastidores, o protagonismo com Madona), Shakira e Burna Boy, a orquestra do maestro Gustavo Dudamel, Os Marretas e personagens da Rua Sésamo, PS22 Chorus (coro infantil de Nova Iorque). Um pacote à medida do público americano, naturalmente.

As viradas espectaculares da Argentina, conduzidas por Messi (que, nas palavras do brasileiro Mauro Cézar Pereira, ‘derrotou o tempo’), que marcam esta Copa, não mereciam o lamentável e vergonhoso desfecho. Esta ficará também como a Copa em que o Brasil se perdeu do seu futebol, deu a bola para o adversário e saiu humilhado pelos ‘remadores’ noruegueses, nos quartos de final. Aquela em que Neymar se despediu em lágrimas, que Cristiano Ronaldo capitaneou uma equipa portuguesa vista como a maior desilusão do torneio, junto com a Alemanha

Mas o mau gosto do programa de ‘variedades’ já havia começado antes mesmo do jogo, com Post Malone e Sawe Lee, Robbie Williams, Laura Pausini Nicole Scherzinger, Jennifer Hudson (responsável por cantar o hino nacional dos EUA), IShowSpeed e o inenarrável Tom Cruise, aqui numa peregrina “participação especial com um discurso motivacional”… Ou seja, nada que tenha que ver com o tradicional espírito de um Mundial de futebol, com a alegria dos povos de todos os continentes. Viu-se antes, pelo menos nesta final, o futebol capturado por uma lógica de show-buzz americana requentada e caótica, a que se junta a permanente procura, ao longo dos jogos, por parte da realização, de estrelas de Hollywood e outras galáxias, sentadas nas bancadas do estádio. Como se as que estavam dentro do campo não bastavam. E finalmente, o enorme papel de ‘papagaio-de-pirata’ de emplastro planetário, desempenhado por um Donald Trump que teima em querer ficar na foto final do triunfo espanhol. 

Voltando ao futebol, o jogo entre a Espanha e a Argentina terá sido dos espectáculos mais entediantes desta fase final do Mundial 2026. Provavelmente dos piores de sempre numa final do Campeonato do Mundo, por vários motivos. Mas não por causa da equipa ibérica. A Espanha vinha num crescendo de qualidade do seu futebol, depois do empate imposto por Vozinha e seus Tubarões Azuis. A Espanha teve a chave mais complicada, na fase do mata-mata: bateu a Áustria, Portugal, Bélgica e a super-favorita França, sofrendo apenas um golo contra a Bélgica. A Espanha mostrou ao que vinha, com o seu estilo característico de jogar, mesmo sem finalizadores de renome, com Lamine Yamal ainda a recuperar a forma. O jogo de equipa com posse de bola e muita paciência. 

A Argentina teve, teoricamente, um caminho mais fácil. Mas, suou bastante para ultrapassar Cabo Verde, Egipto, Suíça e Inglaterra. Contra as duas primeiras, foi claramente beneficiada pelas arbitragens: faltas cometidas contra os adversários não marcadas e outras ‘cavadas’ pelos jogadores argentinos, golos contra anulados… Sendo o único desempenho merecedor de registo (e de forma limpa) a segunda parte do jogo da meia final contra a Inglaterra, na ‘remontada’ épica. Leonel Messi, até então o salvador da equipa “albiceleste”, desapareceu do jogo derradeiro da Copa. Um facto doloroso para os seus admiradores, já que esta foi a sua última Copa. A Espanha ocupou todo o terreno de jogo e os argentinos não fizeram um só remate à baliza em 90 minutos de jogo (algo que deve ter confundido o público americano, ainda a aprender as nuances do ‘soccer’). Já depois da expulsão de Enzo Fernandes e a jogar com 10, a fúria argentina lá deu um ar de sua graça nos últimos minutos, quando a derrota era mais do que anunciada, após o golo de Ferran Torres. 

A Argentina foi uma equipa covarde – opinião unânime, em todos os idiomas – que tentou levar o jogo para os penaltis. Terá sido por medo da Espanha? Por incapacidade, quando o seu melhor jogador não a pôde salvar? Jogou de forma suja, bruta e desleal, tentando provocar os jogadores espanhóis, provocar a sua expulsão pelo árbitro, como fez mesmo Leonel Messi com o lateral Cucurella. No final, para além de voltarem as costas à festa dos espanhóis, liderados pelo defesa Leandro Paredes coroaram o final da carreira de Messi com cenas de pancadaria lamentáveis, de agressões a jogadores e dirigentes espanhóis, que a FIFA promete investigar. 

As viradas espectaculares da Argentina, conduzidas por Messi (que, nas palavras do brasileiro Mauro Cézar Pereira, ‘derrotou o tempo’), que marcam esta Copa, não mereciam o lamentável e vergonhoso desfecho. Esta ficará também como a Copa em que o Brasil se perdeu do seu futebol, deu a bola para o adversário e saiu humilhado pelos ‘remadores’ noruegueses, nos quartos de final. Aquela em que Neymar se despediu em lágrimas, que Cristiano Ronaldo capitaneou uma equipa portuguesa vista como a maior desilusão do torneio, junto com a Alemanha. 

Adeus Américas 2026, olá Europa e Norte de África 2030

A próxima edição do Campeonato Mundial de Futebol 2030 será a do centésimo aniversário da competição, a decorrer em Espanha, Portugal e Marrocos. Uma estreia no Norte de África. Para esta efeméride, para além de cidades portuguesas, espanholas e marroquinas, estão também previstos jogos especiais a realizar no Cone Sul da América, no Estádio Centenário em Montevideo, no Uruguai, que recebeu a final do Mundial de 1930. Dois jogos irão decorrer também na Argentina e no Paraguai. De lembrar que o Uruguai organizou o primeiro Mundial em 1930, tendo vencido a Argentina na final, por 4-2. Quanto ao Paraguai, o país sediou a Conmebol, a única confederação de futebol existente na época. 

A FIFA também anunciou “uma cerimónia especial para o centenário”, a realizar uma semana antes da abertura, a 13 de Junho de 2030, em Montevideo, Uruguai. Quanto ao número de equipas a participar, Gianni Infantino, o presidente da FIFA, não escondeu, nesta edição de 2026, a sua vontade em acrescentar mais 16 países para 2030. Novos países, sobretudo aqueles que nunca foram a uma fase final e veem o exemplo de Cabo Verde, Jordânia e Curaçao, batem palmas. Mas haverá – como já há – fortes opositores ao alargamento do torneio a mais selecções nacionais. Porém, vale a pena voltar a falar de Cabo Verde, quando o argumento dos contras, como foi o caso de Gennaro Gattuso, seleccionar de uma ausente Itália, é a pobreza do futebol apresentado. Mas aqui ficam os votos para que a Itália regresse aos estádios da fase final Mundial e ultrapasse logo a crise que nos últimos anos se instalou no seu futebol. Fala-se em Pep Guardiola para trazer a ‘esquadra azzura’ de volta ao futebol internacional. Oxalá assim seja.

Álcool vs. desporto

Finalmente, aproveitar o exemplo do sucesso dos Tubarões Azuis, da sua resiliência, combatividade, determinação e sobretudo paciência, como factores que estão por trás do triunfo extraordinário alcançado, para uma campanha publicitária, é sempre positivo. A mensagem narrada pelo treinador Pedro Leitão Brito ‘Bubista’, que se ouve ao longo do filme, presta-se a esses slogans que estamos habituados a ver nas campanhas internacionais. No entanto, independentemente da ideia do acreditar nos objectivos propostos, para lá do tempo que se demora a alcançá-los, eu penso que aproveitar o sucesso de Cabo Verde para promover a marca de uma bebida alcoólica, vai contra todo o espírito desportivo – do corpo são e mente sã, que se exige aos atletas. Cavalgar a maior gesta desportiva de Cabo Verde para promover o consumo de álcool, uma marca de whisky, é de muito mau gosto e lamentável. Sobretudo para os jovens que sonham um dia ser Vozinhas, Ryans, Sidnys ou Yamal, Mbapé, Neymar, Ronaldo, Messi, etc.

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