
Por: Denise Resende*
Este artigo dá continuidade à reflexão iniciada em “O silenciamento do mérito nas organizações”.
Ao longo da última década, consolidou-se entre muitos cidadãos a perceção de que, em determinadas escolhas, a proximidade política, a amizade, a lealdade pessoal ou o favoritismo tiveram mais peso do que a competência, a experiência e a preparação exigidas para o exercício de funções de elevada complexidade e importância nacional.
Cargos com impacto direto na vida das pessoas, no funcionamento do Estado e na credibilidade das instituições exigem escolhas particularmente cuidadosas. Não basta que alguém seja próximo, disponível ou politicamente conveniente. É indispensável avaliar a sua capacidade técnica, a experiência acumulada, o equilíbrio emocional, o sentido de justiça, a aptidão para liderar equipas e o respeito pelos limites do poder que lhe é confiado.
Os resultados de escolhas menos criteriosas tornam-se visíveis na fragilidade de algumas instituições, na desmotivação dos profissionais e na perda de confiança dos cidadãos. Multiplicaram-se relatos de abuso de poder, assédio laboral, intimidação, perseguição profissional, silenciamento de opiniões divergentes e desvalorização de trabalhadores competentes em diferentes estruturas públicas.
Estas situações não devem ser analisadas apenas como conflitos pessoais ou problemas isolados. Muitas vezes, revelam fragilidades mais profundas na cultura de liderança, nos mecanismos de responsabilização e nos critérios utilizados para selecionar pessoas para funções de direção.
A forma como são escolhidos os responsáveis pelas instituições revela muito sobre a maturidade democrática e sobre a visão de país de quem decide. Uma nomeação não representa apenas a confiança depositada numa pessoa. Representa também uma mensagem dirigida à sociedade sobre os valores reconhecidos, recompensados e considerados essenciais para o exercício do poder.
Em cada transição governativa, os cidadãos esperam que o mérito ocupe o lugar que lhe é devido. Essa expectativa começa na composição das listas partidárias e estende-se aos cargos de confiança, à nomeação de dirigentes e à seleção de responsáveis pelas instituições públicas.
Uma transição política não se deve limitar à substituição de nomes. Deve constituir uma oportunidade para rever práticas, elevar os critérios de escolha e colocar as pessoas, a competência e o interesse nacional no centro das decisões.
Uma verdadeira cultura de mérito não elimina a política; fortalece-a. Instituições lideradas por pessoas competentes tornam-se mais credíveis, eficazes e respeitadas. Uma sociedade que reconhece o mérito transmite às novas gerações uma mensagem poderosa: vale a pena estudar, trabalhar, inovar, persistir e servir. (…) Sem o mérito como principal critério, perdem as instituições, perde a confiança dos cidadãos e perde o país. Com o mérito como regra, todos ganhamos
Importa deixar claro que não se trata de reclamar cargos para determinadas pessoas, grupos ou gerações. Também não se trata de defender a substituição de uns apenas para abrir espaço a outros. Trata-se de exigir que cada função seja confiada a quem demonstre preparação, integridade, equilíbrio e capacidade efetiva para a exercer em benefício do país.
Meritocracia não significa que apenas as pessoas com mais qualificações académicas devam ocupar cargos de liderança. Um diploma, por si só, não transforma ninguém num bom dirigente. O mérito inclui competência técnica, experiência, integridade, capacidade de liderança, inteligência emocional, sentido de serviço público e resultados demonstrados.
O mérito constrói-se através do trabalho, da dedicação, da consistência, da ética e da credibilidade. Revela-se igualmente na forma como uma pessoa trata os outros, respeita opiniões diferentes, gere conflitos, reconhece o valor das equipas e utiliza a autoridade que lhe foi confiada.
A substituição destes critérios pela proximidade política, pela amizade, pelo favoritismo ou por interesses circunstanciais fragiliza as instituições. Dirigentes que sentem dever a sua posição essencialmente a uma relação pessoal ou partidária podem confundir autoridade com domínio, liderança com imposição e lealdade institucional com submissão.
Nenhuma organização, seja pública, privada ou do terceiro setor, consegue alcançar elevados níveis de desempenho sem colocar as pessoas certas nos lugares certos. Equipas fortes constroem-se com líderes competentes, capazes de inspirar confiança, tomar decisões difíceis, reconhecer o talento dos outros e colocar o interesse coletivo acima das conveniências individuais.
Naturalmente, a confiança política faz parte da governação. Quem governa deve poder trabalhar com pessoas em quem confia. Contudo, essa confiança não pode substituir a competência. Ambas devem caminhar lado a lado. Na ausência desse equilíbrio, o preço recai sobre a qualidade das políticas públicas, a eficiência das instituições e, em última análise, sobre os cidadãos.
Cabo Verde dispõe de recursos humanos altamente qualificados, tanto no país como na diáspora. Em praticamente todas as áreas existem profissionais capazes de assumir responsabilidades com competência, experiência e sentido de missão. O desafio reside na criação de processos transparentes e justos, capazes de identificar, valorizar e selecionar esse talento.
Uma verdadeira cultura de mérito não elimina a política; fortalece-a. Instituições lideradas por pessoas competentes tornam-se mais credíveis, eficazes e respeitadas. Uma sociedade que reconhece o mérito transmite às novas gerações uma mensagem poderosa: vale a pena estudar, trabalhar, inovar, persistir e servir.
Para uma sociedade verdadeiramente meritocrática devem ser criadas condições para que o talento possa emergir, independentemente da origem social, do local de nascimento, das relações pessoais ou da proximidade aos centros de decisão.
O desafio, por isso, não consiste em escolher quem está mais perto do poder, mas quem está mais preparado para servir Cabo Verde.
Sem o mérito como principal critério, perdem as instituições, perde a confiança dos cidadãos e perde o país.
Com o mérito como regra, todos ganhamos.
*Psicóloga, orientadora parental e especialista em proteção infantil, com intervenção em contextos comunitários e contributo em iniciativas de advocacy e políticas de proteção da criança em Cabo Verde.

