Da ‘gentinha’ ao ‘copo leti’, dos choques sociais e transformação das elites em Cabo Verde, o país atravessa, segundo os analistas ouvidos pelo A NAÇÃO, um período de grande confusão sobre a sua identidade social. Um assunto sensível, pouco ou nada abordado publicamente, mas que nos últimos tempos ganhou força nos discursos políticos à volta do posicionamento social e da rápida ascensão de Francisco Carvalho. Afinal, quem é elite em Cabo Verde? O país precisa ou não de elites?…
Se as primeiras elites em Cabo Verde foram formadas pelos ‘reinóis’ na época do povoamento e dos morgados, o acesso à terra, primeiro, e depois à educação, trouxe mudanças neste segmento da população que liderou a sociedade cabo-verdiana, dos tempos antigos aos nossos dias. Sim, o fenómeno não é novo, porque sempre houve elites em Cabo Verde ou em qualquer outro país e civilização.
O conceito de elite tem várias interpretações. Se por um lado são uma componente inevitável e necessária das sociedades modernas, por outro há quem ainda veja nas elites uma força que deve ser combatida. De uma forma geral, representam os grupos que exercem maior influência na condução dos assuntos públicos, na economia, na ciência, na cultura e nas restantes áreas estratégicas da vida colectiva. Quando concentram poder sem mecanismos de controlo, as elites podem favorecer desigualdades, corrupção e exclusão. Contudo, o seu papel pode ser altamente positivo quando promovem inovação, desenvolvimento, estabilidade institucional e bem-estar social.
A diferença entre sociedades mais prósperas e mais frágeis não reside apenas na existência de elites, mas sobretudo na forma como estas são seleccionadas, fiscalizadas, renovadas e responsabilizadas perante os cidadãos. Assim, a qualidade das elites e das instituições que as enquadram constitui um dos factores mais determinantes para o progresso económico, político e social de qualquer país, e por isso Cabo Verde não foge à regra.
Ser elite ou não
E de que falamos, afinal, quando se fala de elite em Cabo Verde? Não há dúvidas de que o conceito ou a ideia de elite entrou, nos tempos mais recentes, no discurso político nacional de forma mais clara. Não que ele já não fizesse parte. Mas a chegada de Francisco Carvalho ao poder, primeiro como presidente da maior Câmara do país, depois como líder do PAICV e finalmente como primeiro-ministro, em vários momentos, chamou a atenção para o discurso do ‘nós’ e ‘eles’, socorrendo-se dessa diferenciação social para marcar posição. A própria decisão de não deixar a sua residência no bairro de Vila Nova, após a sua eleição à chefia do governo, foi vista por muitos como a de alguém que faz parte da elite política do país, mas que se recusa a vestir essa ‘camisola’, por alegadamente não querer deixar de ser do “povo”.
Elite simbólica e territorial
O sociólogo Redy Lima, que destaca para início de conversa a elite simbólica e territorial, recupera a expressão ‘copo leti’, também surgida no discurso de Francisco Carvalho, para uma explicação da forma como os mais jovens, sobretudo da capital, veem a ideia de elites actualmente. Uma experiência, como diz, colhida por estudos no terreno, em 2008, nos bairros da Praia.

Redy Lima
Assim, o ‘copo leti’ seria o menino descendente dos morgados e o ‘borra-café’ o filho do criado; “depois temos também expressões como ‘gentinha’, aqui usadas por pessoas de uma certa idade, coisas que nos anos 90 foram reconfiguradas numa versão mais ‘light’, numa versão mais de juventude, que o hip-hop depois vem pegar, portanto, neste discurso anti-elite”.
Lima diz ter começado a perceber que em Cabo Verde “há um ressentimento de elite, de classe, o que ficou claro nas últimas eleições, e quando analisamos a base do apoio a Francisco Carvalho é esta malta que eu comecei a estudar, entra aqui também o pan-africanismo, mas também um pan-africanismo a várias dimensões. É interessante porque isto é que obrigou a tentar perceber o que é a elite em Cabo Verde, e muitos amigos, que querendo ou não fazem parte da elite, de uma dimensão da elite simbólica, tendem hoje a dizer que não fazem parte da elite porque em Cabo Verde todo o mundo é elite”.
A dimensão simbólica da elite remete para a história das ilhas, para aquelas pessoas que estudaram, as elites intelectuais, que depois desenvolveram toda a literatura que se conhece, os nativistas, os claridosos, enfim, a literatura não académica, etc.
“Mas se formos ver essa elite não era apenas quem tinha estudado, mas quem estava por trás dessas pessoas, porque há sempre essa dimensão simbólica por trás”, diz o entrevistado do A NAÇÃO.
As elites e os partidos políticos
Opinião unânime dos analistas ouvidos por este jornal é que, em Cabo Verde, falar hoje de elites é falar, inevitavelmente, dos partidos políticos, já que a construção desse segmento social e político está ligado à construção do país e intimamente ligada ao Estado, como já acontecia durante a época colonial. Afinal, é através dos partidos que se dá conquista do poder, dos cargos públicos mais importantes, etc.
“Com a democratização social do país, em 1975, as pessoas ditas ‘gentinhas’ começaram de facto a ter ascensão social a partir do partido (PAIGC), houve essa noção de igualdade, mas o partido tinha uma clara consciência de classe, Cabral trabalhava essa dimensão simbólica a partir da cultura”, acrescenta Redy Lima.
Joaquim Arena
Leia a matéria na íntegra na Edição 987 do Jornal A Nação, de 30 de Julho de 2026

