
Por: Luís Carvalho*
O futuro do automóvel será eléctrico. A China já percebeu isso há muito tempo. Cabo Verde deveria perceber também e aproveitar a oportunidade.
O gigante asiático não é apenas a “fábrica do mundo”. É hoje uma das maiores potências mundiais na produção de carros eléctricos e esta realidade deveria merecer uma atenção especial dos governantes cabo-verdianos.
Num país que importa praticamente tudo o que consome, que gasta recursos consideráveis na importação de combustíveis e que assumiu compromissos ambientais, a mobilidade eléctrica pode deixar de ser uma promessa distante para transformar-se numa política concreta. E a China pode ser uma parceira estratégica.
Os fabricantes chineses estão a produzir milhões de veículos eléctricos, com uma enorme diversidade de modelos e preços cada vez mais competitivos. Esta escala permite que países pequenos, como Cabo Verde, possam ter acesso a tecnologias que, há poucos anos, pareciam reservadas aos mercados mais ricos.
A China é hoje uma das maiores potências mundiais na produção de carros eléctricos e esta realidade deveria merecer uma atenção especial dos governantes cabo-verdianos. (…) Num momento em que a China procura ampliar a presença internacional dos seus fabricantes de veículos eléctricos, Cabo Verde poderá aproveitar a conjuntura para negociar uma parceria que responda às suas próprias necessidades, transformando a mobilidade eléctrica numa componente efectiva da estratégia de desenvolvimento sustentável do país
Por que não aproveitar?
Cabo Verde poderia reforçar a sua estratégia de introdução progressiva de veículos eléctricos, começando pelas frotas do Estado, empresas públicas, táxis, rent-a-car e transportes colectivos.
Ao mesmo tempo, deveria negociar com os fabricantes chineses não apenas a importação dos automóveis, mas também a instalação de postos de carregamento, formação de técnicos, manutenção e transferência de conhecimentos.
A mobilidade eléctrica, que tanto Cabo Verde vem mostrando empenhado, deve caminhar lado a lado com o aumento da produção de energia solar e eólica.

O arquipélago tem sol, vento e mar, recursos esses que podem levá-lo a reduzir a sua dependência energética externa. Temos, portanto, condições para fazer da mobilidade eléctrica uma componente importante da transição energética. A China dispõe de tecnologias e know-how que pode colocar ao serviço de Cabo Verde. Seria uma oportunidade para transformar a cooperação entre os dois países numa parceria mais moderna e orientada para o futuro.
Imagine-se, por exemplo, uma Cidade da Praia onde uma parte significativa dos veículos fossem eléctricos. Menos ruído, menos emissões e, potencialmente, menores custos de funcionamento.
Imagine-se o Estado a substituir progressivamente a sua frota por veículos eléctricos e a criar uma rede pública de carregamento.
Não seria apenas uma política ambiental. Seria também uma política económica. A questão é saber se temos visão para negociar com a China uma parceria que vá além da simples compra de carros.
Cabo Verde é um mercado pequeno. Mas pode transformar essa aparente fraqueza numa vantagem. Poderia servir de laboratório para soluções de mobilidade eléctrica adaptadas aos pequenos Estados insulares africanos.
Num momento em que a China procura ampliar a presença internacional dos seus fabricantes de veículos eléctricos, Cabo Verde poderá aproveitar a conjuntura para negociar uma parceria que responda às suas próprias necessidades, transformando a mobilidade eléctrica numa componente efectiva da estratégia de desenvolvimento sustentável do país.
A China tem tecnologia, escala e experiência. Cabo Verde tem uma necessidade concreta de reduzir a factura energética e as emissões. Falta-nos, talvez, uma estratégia.
Não defendo que Cabo Verde abandone amanhã os carros convencionais. Sou paladino da substituição gradual destas frotas por veículos eléctricos.
A meu ver, o Estado deve assumir um papel de liderança na transição energética, criando simultaneamente um mercado inicial para os veículos eléctricos e para os serviços associados.
*Agência Inforpress

