
Por: Arlindo Fortes*
A publicação de “To Defend the Earth is to Defend the Human: Translations and the Role of Critical Zones of Africa” constitui uma importante oportunidade para revisitar uma dimensão particularmente relevante, mas ainda insuficientemente explorada, do legado de Amílcar Cabral: o seu pensamento e trabalho como agrónomo e cientista dos solos.
Cabral é justamente reconhecido como um dos grandes pensadores africanos da libertação e como uma das figuras fundamentais das lutas anticoloniais em África. Contudo, a sua formação científica e a sua experiência como agrónomo não podem ser consideradas apenas elementos biográficos.
Elas foram fundamentais para a construção do seu pensamento político, económico e social. Em Cabral, a ciência agronómica, a agricultura, a relação com a terra e a emancipação dos povos constituíam dimensões profundamente interligadas.
É precisamente esta dimensão que a presente publicação ajuda a recuperar e a projetar para uma audiência internacional. A tradução para inglês dos seus textos e reflexões permite que investigadores, estudantes e profissionais de diferentes áreas possam contactar diretamente com uma parte do pensamento de Cabral que permanece extremamente atual.
Para um agrónomo e académico cabo-verdiano, esta publicação assume uma importância particular. A relação de Cabral com a agricultura e com os solos não pode ser dissociada da sua compreensão das condições concretas em que viviam as populações rurais.
A agricultura, para Cabral, não era simplesmente uma atividade económica ou um problema técnico de produtividade. Estava relacionada com a organização da sociedade, o acesso aos recursos, as relações de poder e, em última análise, a dignidade e a autonomia das populações.
Esta perspetiva mantém uma extraordinária atualidade. Hoje discutimos conceitos como justiça ambiental, soberania alimentar, agroecologia, agricultura regenerativa e resiliência climática. Muitos dos problemas que estão na base destes debates já estavam presentes nas reflexões de Cabral: a necessidade de compreender os sistemas agrícolas no seu contexto social; a importância de conhecer as características ecológicas dos territórios; a relação entre produção agrícola e condições de vida; e a necessidade de colocar o conhecimento científico ao serviço das comunidades.
O solo, neste sentido, não pode ser visto apenas como um substrato físico destinado à produção agrícola. É simultaneamente um sistema ecológico, uma base económica, um espaço de reprodução social e parte da história das comunidades. A forma como uma sociedade utiliza, conserva ou degrada os seus solos está relacionada com a forma como distribui recursos, organiza a produção e define as suas prioridades de desenvolvimento. É esta leitura integrada que torna particularmente relevante a recuperação do pensamento de Cabral no contexto atual.
África enfrenta hoje desafios ambientais de enorme dimensão: alterações climáticas, degradação dos solos, escassez de água, perda de biodiversidade e insegurança alimentar. Estes desafios afetam particularmente as comunidades rurais que dependem diretamente dos recursos naturais. Ao mesmo tempo, persistem modelos de desenvolvimento agrícola que nem sempre respondem adequadamente às especificidades ecológicas, económicas e sociais dos territórios africanos.
Neste contexto, recuperar Cabral não significa olhar para o passado com nostalgia. Significa reconhecer que existe no pensamento africano uma tradição intelectual capaz de contribuir para os debates contemporâneos sobre sustentabilidade e justiça ambiental.
Para Cabo Verde, esta questão assume uma importância ainda maior. A história do país está profundamente ligada à agricultura, à escassez de água, à fragilidade dos solos e à necessidade permanente de adaptação a condições ambientais difíceis. As comunidades rurais cabo-verdianas desenvolveram, ao longo de gerações, conhecimentos e estratégias de adaptação resultantes da sua relação direta com um território marcado pela aridez e pela variabilidade climática.
A experiência cabo-verdiana demonstra que não é possível pensar o desenvolvimento agrícola exclusivamente a partir de soluções técnicas externas. A ciência é fundamental, mas deve dialogar com o conhecimento local, com a experiência dos agricultores e com as especificidades ecológicas e sociais de cada território.
É também aqui que a obra de Cabral oferece uma importante reflexão para as universidades africanas. As instituições de ensino superior têm uma responsabilidade que ultrapassa a transmissão de conhecimentos técnicos. Devem também contribuir para recuperar, valorizar e reinterpretar os patrimónios intelectuais africanos. Durante demasiado tempo, muitos pensadores africanos foram incorporados no debate internacional sobretudo enquanto figuras políticas ou históricas, enquanto as suas contribuições científicas permaneceram menos conhecidas.
A publicação de “To Defend the Earth is to Defend the Human” contribui para corrigir essa situação. Ao tornar acessível em inglês o pensamento agronómico de Cabral, a obra cria novas pontes entre as ciências agrárias, as ciências ambientais, as humanidades, os estudos do desenvolvimento e a ecologia política.
A tradução assume, por isso, uma dimensão que ultrapassa o exercício linguístico. É também um ato de justiça intelectual: permite que ideias circulem entre línguas, disciplinas e gerações e que conhecimentos historicamente marginalizados ocupem o espaço que lhes é devido no debate científico internacional.
Cabral demonstrou que o conhecimento científico não deve estar desligado das sociedades que pretende servir. A sua experiência como agrónomo mostra-nos que compreender a terra significa também compreender as pessoas que dela dependem. E compreender os problemas da agricultura significa compreender as relações económicas, sociais e políticas que estruturam os territórios rurais.
Esta abordagem é particularmente importante para a educação ambiental contemporânea. Formar agrónomos, engenheiros, cientistas ambientais e decisores públicos exige mais do que transmitir conhecimentos técnicos. É necessário formar profissionais capazes de compreender as interdependências entre sistemas ecológicos e sistemas sociais, entre recursos naturais e justiça, entre produção e dignidade humana.
É neste ponto que a frase que dá título à publicação – “To Defend the Earth is to Defend the Human” – adquire todo o seu significado. Defender a terra significa defender os ecossistemas, os solos e os recursos naturais. Mas significa também defender as comunidades, os agricultores e as gerações futuras. Significa reconhecer que não haverá sustentabilidade sem justiça e que não haverá verdadeira transformação ambiental sem colocar a dignidade humana no centro.
Para Cabo Verde, esta publicação representa igualmente uma oportunidade de reafirmar a dimensão internacional do legado de Amílcar Cabral. Cabral pertence à história de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, mas o seu pensamento ultrapassa largamente as fronteiras nacionais. A sua contribuição para a ciência agronómica e para a reflexão sobre a relação entre terra, sociedade e desenvolvimento constitui um património africano e uma contribuição para o pensamento global. Por isso, esta obra deve ser entendida não apenas como uma recuperação de textos históricos, mas como um convite à investigação, ao diálogo interdisciplinar e à renovação das formas como pensamos a agricultura, os solos, a educação e o ambiente.
Ao tornar o pensamento agronómico de Amílcar Cabral acessível a novas gerações e a novos públicos, esta publicação recorda-nos que muitas das questões que hoje consideramos centrais para o futuro do planeta têm raízes profundas no pensamento africano. Celebrar Cabral é, assim, não apenas recordar o seu passado, mas continuar a interrogar o presente e a construir o futuro. E talvez seja esse o maior significado de “To Defend the Earth is to Defend the Human”: recordar-nos que defender a terra é, em última análise, defender a vida, a dignidade e a possibilidade de construir sociedades mais justas e sustentáveis.
*Vice Presidente da Escola de Ciências Agrárias e Ambientais da Unicv.

