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1966: o ano em que SC Mindelense levou Cabo Verde à Europa – esquecer encolhe a nossa dimensão

Por: Emanuel Charles D’ Oliveira

Na brilhante folha de serviço prestado pelo Mindelense ao desporto caboverdiano, ficará registada mais esta inestimável acção, se todos soubermos corresponder, com a melhor e mais sã colaboração. Joaquim Ribeiro – O Arquipélago – 10/03/1966

Jogar à bola numa terra sedenta de chuva e de progresso, privada de liberdades e de oportunidades nunca podia ser um jogo justo. Contudo, Cabo Verde que sempre ousou estar um passo à frente dele mesmo, também no futebol ultrapassou obstáculos impensáveis em busca de modernidades que saciassem suas sedes. Neste artigo reviveremos um dos episódios que marcou a nossa longa e persistente caminhada no futebol.

Ao mesmo tempo que nos regozijamos da nossa primeira participação num Mundial de Futebol (e que participação!) não devíamos descurar de assinalar o 1º centenário do futebol em Cabo Verde, mas sim gravar na memória coletiva um fator relevante na construção da nossa nação que, ao longo dos tempos, acumulou experiências e nomes dignos de registo e de orgulho. O que fomos e fizemos no passado definem o que somos hoje, tendo o futebol como um elemento que conta na nossa formação identitária pela intensidade e extensão, que foi praticada e sentida desde o início do século passado, quiçá finais do século XIX.

Completou este ano sessenta anos que uma fresta do futebol europeu abriu-se para Cabo Verde quando o CS Mindelense conseguiu o direito à XVI Taça de Portugal. Numa altura em que a Guiné se superiorizava no futebol, foram precisos três jogos com o Ténis Club da Guiné para o acesso à 3ª fase da Taça de Portugal, o equivalente às oitavas de final. 

Assim como as ilhas adjacentes (Madeira e Açores), as províncias ultramarinas só podiam ser representadas pelo respetivo campeão. Inicialmente até as regiões da Madeira e Açores, Angola e Moçambique tinham de passar por uma eliminatória entre si antes de rumar à metrópole. Cabo Verde e Guiné formavam outra região que tinha de decidir a sua representação.

Salvo uma eliminatória perdida frente à UDIB da Guiné Portuguesa, no ano de 1965, as digressões para fora do arquipélago, foram sempre informais – por vezes de interesse político – na nossa zona geográfica integrada ainda por Senegal, Gâmbia, Guiné Portuguesa e Guiné Francesa. 

A possibilidade de participação nas competições nacionais, ou seja metropolitanas, começaram a desenhar-se desde 1956 quando o governo de Salazar, em reação à pressão internacional para a pacífica descolonização dos territórios ocupados, decidiu mostrar ao mundo – através do futebol – a sua face luso tropicalista, portanto inclusiva, amiga dos colonizados e simpática aos povos do ultramar. 

As colónias africanas mais bem organizadas no desporto e com maior presença de colonos lusitanos avançaram de imediato como foram os casos de Moçambique e Angola. A vez de Guiné e Cabo Verde, devido à demora na adequação do associativismo desportivo, isto é a criação das Associações Provinciais próprias e subsequente inscrição na Federação Portuguesa de Futebol, só na época 1964-1965 puderam participar na dita taça, tendo a Guiné Bissau eliminado Cabo Verde e assim representar a região.

Quando chegou a vez de Cabo Verde, calhou ao Clube Sportivo Mindelense o Club Sport Marítimo da Madeira, com dois jogos seguidos no campo do adversário. Os cabo-verdianos foram muito bem recebidos, com elegância e agrado. A imprensa local considerou a equipa uma embaixada valorosa e simpática. Os jogadores crioulos já eram particularmente apreciados na Madeira. Desde a década anterior que muitos santiaguenses lá iam parar, como aconteceu com Patana e Adão Craveiro, Sabino, Féu, Toizinho, Corsino, Bernardino, Buguinho, etc. 

Todavia, pouco se sabia do futebol das ilhas africanas idem das ilhas adjacentes que também padeciam de contactos com o exterior, inclusive com o continente, daí o ambiente expectante. Na Madeira a movimentação foi enorme, o estádio dos Barreiros abarrotou-se nos dois encontros. Entre o mar de adeptos do Marítimo presenciaram os jogos um punhado de jogadores praienses que militavam no Sporting e Nacional da Madeira entre os quais Bernardino e Féu.

Para o financiamento da deslocação à metrópole foram movidos mundos e fundos. Uma viagem só possível graças à solidariedade de vários quadrantes da sociedade. As contribuições vieram de diferentes fontes: pelo apuramento (10.000$00), da FPF (67.000$00), da DGD (20.000$00), do governo provincial (31.000$00), da Câmara Municipal de S Vicente (15.000$00), da Câmara Municipal do Paúl (2.000$00), da Câmara M do Sal (1.000$00), de conterrâneos na Guiné (20.000$00) e da Praia (5.000$00). Na sede da província os principais clubes mobilizaram-se, participando no torneio organizado pelo Vitória FC, a Delegação de Futebol para Sotavento ofereceu igualmente um torneio.

Completou este ano sessenta anos que uma fresta do futebol europeu abriu-se para Cabo Verde quando o CS Mindelense conseguiu o direito à XVI Taça de Portugal. Numa altura em que a Guiné se superiorizava no futebol, foram precisos três jogos com o Ténis Club da Guiné para o acesso à 3ª fase da Taça de Portugal, o equivalente às oitavas de final

Como consequência da inexpressiva atenção central, as iniciativas locais para a mobilização de recursos para o futebol tornou-se habitual nas ilhas. O arquipélago foi de longe o território sob o domínio português que menor benefícios colheu. Nem um único estádio digno dessa designação teve direito, sendo ultrapassado por Guiné, S. Tomé e muito mais ainda por Moçambique e Angola. O esforço e a dedicação internos foram, na prática, o único motor que implementava, sustentava e organizava o desporto ilhéu, particularmente o futebol.

Numa época em que viajar de avião era luxo, a ida a Portugal fez-se no navio Manuel Alfredo com partida no dia 13 de Março para uma viagem de cerca de uma semana. A escala obrigatória em Lisboa permitiu uma curta visita ao SL Benfica e ao Estádio da Luz onde foram apresentados ao público, no intervalo da partida entre Benfica e CUF. 

A apresentação dos elegantes e impecavelmente trajados crioulos, assim como a própria participação na taça, servia os propósitos do regime – a demonstração da civilidade dos colonizados como sucesso do colonialismo luso e ainda a ideia de uma pátria una. Entre os espetadores estava um conterrâneo nosso, ele também um senhor do futebol – Celestino Almeida (Didi) – quem ainda tem presente na memória o episódio, sobretudo o comentário dominante na bancada – ena, tantos pretos juntos!

A deslocação para Funchal foi de avião, no dia 24 de março. Ali foram recebidos por uma honrosa comitiva encabeçada por Henrique Vieira da Luz, presidente do clube anfitrião. A recepção continuou com um copo de água e visita à sala de troféus na sede do Marítimo, onde marcaram presença os ilustres governantes da ilha assim como dirigentes desportivos, não faltaram jornalistas e os discursos da praxe. A delegação visitante retribuiu oferecendo uma placa comemorativa ao clube anfitrião. 

A eliminatória de Funchal mereceu uma surpreendente cobertura jornalística. Numa época em que os jornais passavam pelo crivo da censura observou-se, naturalmente, um certo romantismo para não dizer subserviência política nos artigos publicados. O primeiro jogo no qual o Mindelense fez melhor figura, o jornal A Bola chegou a qualificá-lo de jornada de amizade num ambiente encantador. Justificar o despreparo do Mindelense impunha referir-se ao atraso e quasi abandono ao qual o arquipélago estava votado. 

Não é demais lembrar que o regime projetava, uma sociedade imaculada, sem elementos ou exemplos nocivos, ou seja acontecimentos que fossem em contramão com o sistema. A imprensa tinha por obrigação transmitir uma ideia ordeira do império, segundo a trilogia ´´Deus, Pátria e Família´´ e no desporto não podia ser diferente. As raras críticas tinham de ser com subtileza e bem refletidas.

Joaquim Ribeiro, com a sua característica frontalidade, arriscando, também qualificou a nossa participação na Taça de Portugal como uma “jornada de amizade, sem qualquer valor desportivo”, não vendo vantagens em participar em torneios convictos de resultados humilhantes. A segunda e última participação de Cabo Verde na Taça, em 1971, saldou-se numa pesadíssima derrota do Mindelense por 21-0 frente ao Sporting C de Portugal, o que teria selado de vez a tentação de voltar à taça. 

Joaquim Ribeiro ressalva, contudo, a potencialidade dos nossos jogadores que, com o devido enquadramento técnico, dariam boa conta de si, apontando os casos de Adão, Jorge Humberto e Sabino que evoluíam no futebol metropolitano. 

Telo Crato Monteiro, presidente da Associação de Futebol de Cabo Verde, foi quem liderou a missão composta ainda pelo presidente do clube são-vicentino – Ricardino Vasconcelos, o diretor do departamento de futebol – José João Araújo e os jogadores: Armando e Ricardo (guarda-redes), Arlanzo Veríssimo, João da Luz, Augusto Silva, Celso Souza e Armando Almeida-capitão (Defesas e médios); Daniel Évora, José Ferreira, Jorge Teixeira, Ibrantino César, José Inocêncio Fortes, José Brites (Nagoia), Salmino Ramos e Daniel Fortes (avançados). Nenhum era remunerado e muito menos profissionalizado, distribuindo-se pelas seguintes ocupações laborais: trabalhadores braçais (6); motorista (1); padeiro (1); negociante (1); estudante (2); dactilógrafo (1); mecânico (1); funcionário público e serralheiro (1). 

Se as espectativas eram grandes, as dificuldades eram ainda maiores. Ultrapassada a intrincada preparação da viajem, a relva e as botas de traves perfilavam entre as principais preocupações. A adaptação à relva não foi de grande monta. Além de uma possível sessão no Benfica e outra no Estádio Nacional, os demais treinos deram-se em piso de terra batida. As traves das botas que levavam foram substituídas por pitons, supostamente para melhor adaptação e ainda evitar danos no relvado.

Os jogos aconteceram no estádio dos Barreiros nos dias 27 de março e 3 de abril. Apesar da derrota na primeira mão por 4 a 2, a imprensa elogiou o futebol dos rapazes de Mindelo. Jogo esse que, do ponto de vista dos visitantes, foi deficientemente apitado, favorecendo a equipa da casa. A reclamação incidiu sobre a grande penalidade sofrida ao 13º minuto o que teria, na optica do capitão, condicionado significativamente o rendimento da equipa. 

A cautela manifestada pelo Marítimo quanto ao prognóstico do segundo jogo e, animados com os dois golos marcados, a equipa de Mindelo não se deu por eliminada, acreditava ainda poder dar a volta à situação, entrando em campo num taco-a-taco com os verde-rubro de Funchal. Segundo a imprensa local, os rapazes do Porto Grande, confiantes, abdicaram de uma táctica mais defensiva, tendo por isso sofrido a expressiva derrota por sete bolas sem resposta. 

Na opinião de Nagóia, a revelação de apenas 16 anos de idade, esse resultado não aconteceria de forma alguma se o factor casa fosse devidamente observado e o jogo ocorresse perante o seu público no ventoso e poeirento Campo Novo ou Fontinha onde poucos conseguiam passar. 

A tentativa de reduzir a vantagem dominante do Marítimo levou os dirigentes cabo-verdianos a propor, ainda antes da primeira mão, que o segundo jogo não fosse nos Barreiros. Este, um autêntico inferno para qualquer equipa visitante e que, anos mais tarde, conquistou o epíteto de Caldeirão. A contrapartida seria um dos campos pelados da ilha, possivelmente no recinto desportivo do liceu da cidade. 

Obviamente, a solicitação não podia ser atendida, havia muita coisa em jogo, nomeadamente a bilheteira que teria rendido cerca de 120 mil escudos portugueses em cada um dos jogos. Por alguma razão que não descortinamos o Mindelense sugeriu a mudança de horário do segundo jogo o que parece ter acontecido.

Da valorosa caravana que desbravou caminhos do nosso futebol e estirou as fronteiras cabo-verdianas continuam entre nós João da Cruz, Ibraltrino, Celso, Nagóia e possivelmente mais alguém. Esses valorosos futebolistas e dedicados dirigentes, em condições precárias, ousaram, desafiaram, lutaram, perderam em campo mas dignificaram um povo. Colocaram uma enorme pedra na edificação do futebol cabo-verdiano, por isso merecem ser honrados e lembrados.

Fontes: José Brites (Nagoia) e jornais: O Arquipélago, Suplemento Jornal da Madeira, Correio Desportivo, Diário de Notícias e Jornal da Madeira. Setembro 1966

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