Por: Rui Pereira
Há momentos em que uma nação fala ao mundo. E há momentos, mais raros, em que uma nação fala ao mundo a partir daquilo que é. A intervenção de Francisco Carvalho na Assembleia Geral das Nações Unidas, falando em crioulo cabo-verdiano, pertence a esta segunda categoria. Não foi apenas uma intervenção política. Foi, também, um gesto de identidade. E talvez seja precisamente aí que resida a sua dimensão mais interessante.
A imagem que me ocorre é a de uma “manhã das tribos”. Não no sentido primitivo ou fechado da palavra, mas como metáfora de um mundo em que povos, nações, culturas e comunidades procuram afirmar a sua singularidade num espaço global cada vez mais disputado. A globalização não matou as identidades. Pelo contrário: tornou-as mais visíveis, mais conscientes de si e, em muitos casos, mais estratégicas.
Na grande praça planetária da ONU, onde 193 Estados se encontram para falar de guerras, paz, clima, desenvolvimento, desigualdades e futuro, cada país leva consigo mais do que uma posição diplomática. Leva uma história, uma memória, uma língua, uma maneira de olhar o mundo. E, quando essa identidade consegue transformar-se em narrativa, pode converter-se em influência.
É aqui que o crioulo ganha uma importância que ultrapassa largamente a questão linguística.
Ao falar crioulo na tribuna das Nações Unidas, Francisco Carvalho não levou simplesmente uma língua materna para Nova Iorque. Levou uma forma cabo-verdiana de existir e de dizer o mundo. Uma língua nascida do encontro, da circulação, da mestiçagem e da criação; uma língua que atravessou séculos sem deixar de ser profundamente nossa. Naquele instante, o crioulo deixou de ser apenas língua de intimidade para tornar-se língua de representação.
E isso tem uma poderosa dimensão simbólica.
Durante demasiado tempo, pequenas nações tenderam a imaginar que, para serem ouvidas nos grandes espaços internacionais, tinham de falar necessariamente com a linguagem dos grandes. O gesto de Carvalho sugere outra possibilidade: podemos falar ao mundo sem deixar de falar a partir de nós próprios.
Não se trata, evidentemente, de substituir o português, o inglês, o francês ou qualquer outra língua de circulação internacional. Trata-se de acrescentar a esses idiomas a voz própria de Cabo Verde. O universal não precisa de ser construído pela homogeneização. Pode nascer precisamente do encontro das diferenças.
É esse o sentido mais profundo da “Manhã das Tribos”: um mundo global em que a singularidade voltou a ser um recurso político.
Ao falar crioulo na tribuna das Nações Unidas, Francisco Carvalho não levou simplesmente uma língua materna para Nova Iorque. Levou uma forma cabo-verdiana de existir e de dizer o mundo. (…) Naquele instante, o crioulo deixou de ser apenas língua de intimidade para tornar-se língua de representação. E isso tem uma poderosa dimensão simbólica
O conceito de soft power ajuda a compreender esta transformação. Poder não é apenas capacidade militar, económica ou coerciva. É também capacidade de atrair, persuadir, gerar simpatia, produzir reconhecimento e fazer com que uma determinada imagem nacional permaneça na consciência dos outros. Cultura, valores, língua, música, diplomacia, credibilidade e capacidade de diálogo podem tornar-se instrumentos de influência.
Cabo Verde possui, há muito, alguns desses elementos. A morna, o crioulo, a morabeza, a diáspora, a estabilidade democrática, a vocação para o diálogo, a experiência de país insular e a capacidade de construir pontes entre espaços culturais diferentes constituem activos de uma diplomacia que não precisa de levantar a voz para ser ouvida.
A questão estratégica é saber converter esses activos simbólicos em capital internacional.
Na ONU, Carvalho falou de Cabo Verde como um país pequeno em território, mas grande na dimensão dos seus sonhos. A formulação é feliz porque toca numa velha contradição da política internacional: o mapa mede territórios, mas não mede necessariamente a capacidade de uma nação produzir ideias, confiança ou influência. O tamanho físico de um Estado não determina, por si só, o tamanho da sua presença.
E a escolha da língua reforçou essa mensagem.
Ao ensinar aos interlocutores internacionais a palavra morabeza, o primeiro-ministro fez algo que parece simples, mas possui grande força comunicacional: transformou uma palavra cabo-verdiana num conceito susceptível de circular fora de Cabo Verde. A língua tornou-se narrativa; a narrativa tornou-se imagem; e a imagem pode tornar-se diplomacia.
É precisamente aqui que o gesto deixa de ser apenas simbólico.
Porque o soft power não vive apenas de momentos emocionais. Precisa de continuidade, estratégia e instituições. Uma palavra dita na ONU pode gerar atenção durante um dia; uma política consistente de diplomacia cultural pode gerar reconhecimento durante décadas.
Por isso, a pergunta que a “Manhã das Tribos” coloca a Cabo Verde é maior do que a própria intervenção de Francisco Carvalho: que país queremos projectar no mundo e que instrumentos estamos dispostos a construir para essa projecção?
Se o crioulo entra na ONU, deve também entrar com maior força nas plataformas digitais, na produção científica, na literatura, no audiovisual, na inteligência artificial, no ensino, na diplomacia cultural e na economia criativa. Se a morabeza é apresentada como atributo nacional, deve encontrar correspondência numa cultura institucional de abertura, confiança e diálogo. Se a diáspora é uma extensão da Nação, precisa ser pensada não apenas como comunidade emocional, mas como rede de conhecimento, investimento, ciência, cultura e influência.
A grande lição está aí: identidade sem estratégia pode ser apenas memória; estratégia sem identidade pode ser apenas técnica. O verdadeiro poder de uma pequena nação começa quando consegue transformar aquilo que a torna singular naquilo que a torna relevante.
Talvez seja essa a beleza política daquela manhã em Nova Iorque.
No grande palco onde as potências falam em nome dos seus interesses, uma pequena nação atlântica entrou com a sua própria voz. E, por alguns minutos, o crioulo cabo-verdiano deixou de ser apenas a língua de quem somos para tornar-se também a língua através da qual dizemos ao mundo quem podemos ser.
Essa é a verdadeira “Manhã das Tribos”: não o regresso a um mundo fragmentado, mas o nascimento de um mundo em que cada identidade procura encontrar o seu lugar no universal.
E Cabo Verde, que aprendeu historicamente a sobreviver entre mundos, talvez tenha aqui uma oportunidade rara: transformar a sua singularidade em estratégia, a sua cultura em diplomacia e a sua morabeza em soft power.
Porque, no século XXI, também se exerce poder quando se consegue fazer com que o mundo nos escute — sem precisarmos de deixar de falar na nossa própria voz.

