
Por: Estêvão Rodrigues
Os primeiros 100 dias do Governo de Francisco Carvalho ainda não permitem uma avaliação definitiva, mas já revelam métodos, prioridades e sinais sobre a forma como o Executivo pretende responder aos desafios do país.
A iniciativa de vários ministérios, uma comunicação mais directa e a abertura ao diálogo com os municípios, independentemente da sua orientação política, constituem sinais positivos.
Mas o diálogo precisa de traduzir-se em decisões, metas e resultados. A população espera menos anúncios e mais soluções. Os compromissos assumidos devem ter prazos, responsabilidades, recursos e mecanismos de acompanhamento. É através da execução que a confiança se transforma em credibilidade.
O programa “Cabo Verde para Todos” coloca no centro direitos sociais importantes, nomeadamente o acesso gratuito ao ensino superior público e aos cuidados de saúde.
São medidas que podem ampliar oportunidades, mas a gratuitidade não garante, por si só, qualidade. É necessário assegurar profissionais suficientes, equipamentos, medicamentos, organização e avaliação dos serviços.
Os primeiros 100 dias do Governo de Francisco Carvalho ainda não permitem uma avaliação definitiva, mas já revelam métodos, prioridades e sinais sobre a forma como o Executivo pretende responder aos desafios do país
Também existem problemas herdados, cuja solução não pode, contudo, esperar indefinidamente. A segurança, incluindo o fenómeno do “caçubody”, exige respostas firmes, preventivas e próximas das comunidades.
A irregularidade no abastecimento de água e energia e os problemas de limpeza urbana, particularmente na Praia, afectam a qualidade de vida e a imagem do país.
Nestes domínios, os cidadãos esperam soluções concretas, comunicação transparente e responsabilização das instituições competentes, com o envolvimento da sociedade civil.
A governação não é, porém, responsabilidade exclusiva do Governo. Os cidadãos têm direitos, mas também deveres: exigir serviços de qualidade, fiscalizar a utilização dos recursos públicos, participar na vida democrática e preservar os bens colectivos.
Neste contexto, fica uma questão: para quando a reactivação das associações de moradores, autogeridas e estabelecendo parceria com os serviços municipais? Poderiam constituir importantes instrumentos de participação, corresponsabilização e melhoria da vida comunitária tanto nos bairros urbanos como nas aldeias rurais.
Os próximos meses serão decisivos para transformar compromissos em resultados concretos. A oposição e a sociedade civil devem exercer uma fiscalização crítica e construtiva, enquanto os cidadãos devem manter-se atentos e participativos.
No final, a confiança consolidar-se-á pela capacidade de cumprir promessas, responder com prontidão e qualidade às necessidades dos cidadãos, executar e prestar contas. Cabo Verde precisa de instituições fortes e próximas das pessoas, mas também de uma sociedade consciente de que a democracia se constrói diariamente através da participação, do diálogo e do exercício responsável dos direitos e deveres.

