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Cultura

“Reina da Morna” resgata inéditos de Cesária Évora

O mundo volta a escutar Cesária Évora. Nesta sexta-feira, 16, chega às plataformas e às lojas o álbum póstumo “Reina da Morna”, uma colecção de dez gravações inéditas da diva caboverdiana, preservadas durante anos nos arquivos da Lusáfrica, antiga empresa do produtor Djô da Silva. 

José “Djô” da Silva, numa entrevista ao jornal português Observador, responsável pelo fenómeno Cesária Évora à escala planetária, revela que os 10 registos abarcam diferentes momentos da carreira da cantora, desde os anos 1980 até 2011, data do seu falecimento. Algumas das faixas estavam incompletas, mas todas guardavam “a voz da Cesária como deve ser”, como afirma o produtor, que compilou o material ao longo da sua gestão da carreira da artista. 

 “Reina da Morna” reúne composições, entre outros, de B.Leza, Manuel D’Novas e Eugénio Tavares, compositores centrais da morna tradicional e presenças habituais no reportório de Cize. O single “Sonsente” já está disponível, acompanhado de um videoclipe construído a partir de imagens inéditas de estúdio que são fragmentos de uma Cesária descontraída, espontânea, em plena criação. 

“Se (Cesária) gravou estas canções é para serem lançadas”, defende-se Djô da Silva, prevendo discussões à volta deste assunto. “A Cesária não fazia nada que não quisesse. Se gravou estas canções, é para serem lançadas”.  

O manager recorda que, ao longo dos vários anos de trabalho com Cesária, a Lusáfrica gravava sempre mais temas do que aqueles que entravam nos álbuns. As gravações, que ficavam de fora, eram guardadas para “mais tarde”, mas nunca houve a intenção de criar um disco póstumo. A ideia só ganhou forma após o falecimento da artista, em Dezembro de 2011, quando a equipa da editora reuniu os registos dispersos e percebeu que havia ali um corpo coerente de trabalho.

Sony Music assume o catálogo e garante continuidade do legado 

O lançamento de “Reina da Morna” acontece no contexto da aquisição, em 2025, dos catálogos da Lusáfrica e da Africa Nostra pela Sony Music França, que já era parceira de Djô da Silva há mais de 25 anos, o que de resto facilitou a propagação do fenómeno Cesária ao mundo inteiro. Djô diz que decidiu vender as duas cancelas e empresas por não ter condições de continuar a gerir o catálogo a partir de Cabo Verde, e para garantir que o legado de Cesária não cairia no esquecimento. “Decidi vender para salvaguardar o catálogo e mantê-lo vivo. Sei que a Sony vai cuidar dele.” 

O álbum a ser lançado esta sexta-feira inclui ainda um livreto assinado pelo jornalista francês Francis Dordor, que acompanhou Cesária ao longo da sua carreira e contextualiza estas gravações no percurso da artista. Um documento cultural para Cabo Verde e para o mundo. 

Por isso, “Reina da Morna” não é apenas um disco mas, também, um documento histórico, um reencontro com a Cesária íntima, aquela que Djô descreve como a cantora dos bares do Mindelo, espontânea, visceral, sem artifícios.

Para Cabo Verde, o álbum representa também a continuidade de uma narrativa que a própria Cesária ajudou a construir. “A afirmação da morna como expressão universal e a projeção da identidade caboverdiana no mundo”, algo reconhecido pela UNESCO que declarou esse género como património imaterial da humanidade, em 2019. 

De acordo com os promotores, este lançamento confirma, uma vez mais, que a voz de Cesária Évora continua viva, necessária e insubstituível.

Biografia 

De origem humilde, nascida em São Vicente em 1941, ilha onde também faleceu em 2011, Cesária Évora teve vários momentos da sua carreira musical. Um virado para Cabo Verde ou núcleos de cabo-verdianos na diáspora, apenas com um ou outro registo magnético, e um segundo momento à escala internacional, depois da sua “redescoberta” por Djô da Silva na segunda metade da década de 1980. Para trás tinham ficado os anos de esquecimento, ou então de cantar em bar em bar nas noites do Mindelo, a troco de bebidas e cigarros. 

O álbum “La diva aux pieds nus” (A diva dos pés descalços), feito em 1988, foi aclamado pela crítica, levando-a a iniciar a gravação do álbum “Miss Perfumado” (1992). 

Com “Miss Perfumado”, que surge na sequência de “Mar azul” (1991), Cesária tornou-se uma estrela internacional aos 47 anos de idade, gravando com vários outros cantores. Em 2004 conquistou um prémio Grammy de melhor álbum de world music contemporânea. O presidente francês Nicolas Sarkozy distinguiu-a, em 2009, com a medalha da Legião de Honra. 

Cesária Évora morreu no dia 17 de Dezembro de 2011, com 70 anos, por “insuficiência cardiorrespiratória aguda e tensão cardíaca elevada”. 

Ao todo Cesária Évora deixou mais de vinte álbuns, tornando a música cabo-verdiana, principalmente a morna, conhecida nos mais variados lugares do Planeta, e com ela o nome de Cabo Verde. Nenhum outro cantor ou artista cabo-verdiano conseguiu igual proeza. 

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