
Por: José Martins
A apresentação da nova identidade visual do Governo de Cabo Verde merece uma reflexão que vai muito além da estética, das cores ou da criatividade do logótipo.
A questão não é saber se a imagem é bonita ou feia. A verdadeira questão é perceber que identidade queremos construir e projetar enquanto país.
Ao longo dos anos, temos assistido à criação e reformulação de diferentes marcas associadas ao Governo, ao turismo, às instituições e à promoção internacional de Cabo Verde. Mas onde está a coerência estratégica? Qual é, afinal, a nossa Marca País?
É fundamental distinguir três realidades: o Governo é transitório, o Estado é permanente e a identidade de Cabo Verde pertence a todos os cabo-verdianos.
Naturalmente, cada Governo tem legitimidade para modernizar a sua comunicação. Mas será que cada novo ciclo político deve trazer consigo uma nova identidade visual? E até que ponto estamos a confundir comunicação governamental com representação nacional?
Uma verdadeira Marca País não se constrói apenas com logótipos, slogans ou campanhas. Constrói-se com credibilidade, confiança, estabilidade institucional, cultura, turismo, investimento e uma visão estratégica de longo prazo.
Precisamos de uma estratégia nacional de Marca Cabo Verde, transversal ao turismo, à diplomacia, à captação de investimento, à cultura e à diáspora, capaz de sobreviver às alternâncias políticas.
E, naturalmente, qualquer reformulação financiada com recursos públicos deve ser acompanhada de transparência quanto aos custos, objetivos e resultados esperados.
Não questiono a necessidade de modernizar. Questiono a ausência de uma visão integrada e duradoura que seja claramente apresentada aos cidadãos.
Será que estamos a consolidar a imagem de Cabo Verde ou simplesmente a multiplicar marcas e identidades que mudam ao sabor dos ciclos políticos?
O Governo tem um mandato. O Estado tem continuidade. Cabo Verde tem uma identidade que não deve depender de quem governa.
É sobre isto que deveríamos estar a debater

