
Por: José Eduardo Cunha
Esta é a história de uma equívoca e equivocada “homenagem”: aquela que, supostamente, deveria ter sido prestada ao escritor Virgílio Avelino Pires (Praia, 1935 – Lisboa, 1985), de acordo com os organizadores do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP) e a Câmara Municipal da Praia (CMP).
Julgava que estava a lidar com gente séria e credível quando, há quase dois anos, retomei a proposta de homenagem a Virgílio Avelino Pires junto da atual CMP, na sequência do processo iniciado há onze anos (2015) com a equipa camarária liderada por Óscar Santos.
Ingenuamente, pensei que a CMP teria o cuidado institucional e protocolar de, ao decidir avançar com a referida homenagem, convidar os filhos e familiares do escritor e, porque não, o autor da referida proposta. Conheço mal o vereador da cultura, Jorge Garcia, com quem vinha mantendo, ou tentava manter, contacto regular a propósito da realização da homenagem a Virgílio Pires. Garcia é, enquanto vereador da cultura, o responsável da CMP pelo evento EELP e pela realização da homenagem ao escritor.

Virgílio Avelino Pires
Devo confessar que, desde março, quando me desloquei de propósito à Praia para me inteirar pessoalmente do andamento do processo, nunca mais tive notícias do vereador, apesar dos meus esforços e dos do Presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), Daniel Medina. Este, de longe em longe, ia-me dando notícias do vereador Garcia, sobretudo promessas vagas e inconsistentes. Eu convidara Daniel Medina e a ACL a associarem-se a esta iniciativa porque, estando na Praia e conhecendo Garcia, poderiam acompanhar de perto o andamento do processo, mas também porque entendi ser útil dar algum respaldo oficial e institucional à iniciativa. A proposta de 2025 resumia-se a secundar a proposta aprovada em 2015, entretanto interrompida.
A equipa de Francisco Carvalho recebeu, da minha parte, cópia do processo inicial e o histórico do mesmo, bem como uma síntese sobre Virgílio Pires, a sua obra e os seus méritos literários e cívicos, que justificavam aquela homenagem. O que propusemos, e foi aceite pelas duas equipas camarárias (2015 e 2025), consistia em inscrever o nome do escritor praiense na toponímia da cidade.
Já em 2015, a Câmara propusera – e foi aceite pelos filhos – a atribuição de uma rua localizada no bairro da Achada de Santo António. Por contingências várias, que não importa aqui esmiuçar, o processo foi sendo adiado, tendo entretanto ocorrido a mudança política que se conhece, o que nos levou, em 2025, a retomá-lo no exato ponto em que tinha ficado suspenso.
Esta é a história de uma equívoca e equivocada “homenagem”: aquela que, supostamente, deveria ter sido prestada ao escritor Virgílio Avelino Pires (Praia, 1935 – Lisboa, 1985), de acordo com os organizadores do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP) e a Câmara Municipal da Praia (CMP). (…) Daquele tímido e envergonhado anúncio construiu-se uma VERGONHOSA “homenagem” … que não houve.
E foi assim que, desde março deste ano, entre silêncios, ausência de respostas e recusas de informação, numa atitude declaradamente hostil, incorreta e mal-educada por parte do vereador Garcia – cujas razões desconhecemos -, chegámos, sem aviso prévio, ao anúncio da tão esperada e desejada “homenagem”, inserida de forma quase clandestina no programa do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP).
Repito: da “homenagem”, ninguém deu conhecimento aos filhos e familiares, nem ao promotor da ideia. Estranho? Chocante? Nem por isso. Este é o nível e o estilo de atuação do “elegante” e “polido” senhor Garcia, vereador da cultura da capital do país.
Não é tudo. Se no anúncio da “homenagem” se disse NADA sobre Virgílio Avelino Pires, na conferência de imprensa e no programa do encontro disse-se COISA NENHUMA. Se já é mau ignorar os filhos do homenageado, não lhe dedicar uma única linha de informação nas 34 páginas do programa – como se faz com os 27 intervenientes do encontro – é algo inédito, inaudito, escandaloso e nunca antes visto em qualquer homenagem. Só nesta, da CMP, pelas mãos sábias do senhor Garcia. Se sobre Virgílio Pires nada se sabia, nada se ficou a saber, a não ser aquela linha órfã na página 6 do programa, onde consta: 15h| HOMENAGEM AO ESCRITOR VIRGÍLIO PIRES.
O que se passou no dia 8 de outubro, na sessão de abertura do XIV EELP? Ao que parece, a agenda do programa foi cumprida, com uma exceção. Adivinharam: não houve homenagem. Na verdade, somando tanto improviso, lacunas, omissões, negligências e incompetências, tudo apontava para este desfecho. Pasme-se: os mesmos homenageantes que não facultaram qualquer informação que esclarecesse os participantes sobre quem era o homenageado, a que título estava a ser recordado e em que consistia a homenagem – a dupla camarária Pinto e Garcia, Presidente e Vereador -, não se deram ao trabalho de justificar ou explicar os motivos da anulação, suspensão, adiamento ou cancelamento da “Homenagem ao escritor Virgílio Pires”. Para este calamitoso falhanço da CMP não encontro outra explicação: não é um acidente nem obra do acaso; traduz o perfil de um comportamento normalizado de gente sem qualidades. Daquele tímido e envergonhado anúncio construiu-se uma VERGONHOSA “homenagem”… que não houve.
Se tudo isto é escandaloso, não menos o foi o comportamento cúmplice do Presidente da ACL, Daniel Medina, e de toda uma plateia composta por “gente ilustre”: doutores, professores, mestres e, também, jornalistas.
O primeiro, pela atitude cobarde de quem vacila, recua e transige, quando se lhe exigia um ato de coragem e firmeza na denúncia da fraude daquela encenação montada pela CMP. Medina, conhecendo previamente as condições miseráveis de tudo aquilo, aceitou participar na sessão, quando tudo o impelia a demarcar-se dela em protesto. Aquela decisão pôs em causa a sua credibilidade e a da ACL, tornando-o cúmplice. Não satisfeito, e numa brevíssima referência ao escritor, no pouco que disse, errou, deturpou, inventou e distorceu quase tudo sobre a vida e a obra de Virgílio Pires, num exercício negligente, penoso e comprometedor da sua condição de académico e de Presidente de uma Academia de Letras.
Quanto aos “ilustres cabo-verdianos” presentes, o escândalo público da humilhação de um notável escritor cabo-verdiano não os perturbou, nem sequer repararam nele. Vi um estado geral de indiferença e insensibilidade perturbadores. Ninguém se indignou ou protestou.
Da parte dos “jornalistas”, nenhuma pergunta foi colocada a quem de direito sobre aquele ato falhado. Ninguém reagiu à inexplicável e inexplicada supressão daquele ponto de honra do programa, porque ninguém deu por nada. As pessoas não estavam lá, foram lá. E, no entanto, todos aplaudiam cada intervenção, distraída e mecanicamente, como quem enxota moscas ou cumpre as regras destes eventos sem alma. Não se preocupem, vem aí o XV Encontro. De alguma coisa se falará.
NOTA: Até à data deste texto, não consta que o Presidente da Câmara, o Vereador da cultura ou o Presidente da ACL tenham dado explicações, apresentado um pedido formal de desculpas ou solicitado a demissão. Era o mínimo que se podia esperar de gente com dignidade e sentido de responsabilidade – aquela responsabilidade que é intrínseca aos cargos e funções que ocupam e exercem. Não vejo nestes senhores grandeza intelectual, elevação ética, exigência moral, brio ou brilho para gestos desta dimensão. Eles não sabem, mas Virgílio Avelino Pires sobreviver-lhes-á e terá a sua homenagem.
Praia, 8 de outubro / Lisboa, 21 de outubro

