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Sem conectividade não há coesão

Por: Emanuel Pires Lima * 

Há países cuja continuidade territorial se faz por estrada ou por ferrovia. Em Cabo Verde, faz-se também pelo mar. Entre ilhas, a ligação marítima não representa apenas deslocação. Representa a possibilidade de manter o país próximo de si próprio, apesar da distância física que separa as comunidades.

Num país arquipélago, o transporte marítimo é essencial à mobilidade dos cidadãos, à circulação de mercadorias, ao desenvolvimento económico e à coesão nacional.

É essa dimensão que deve estar no centro da conversa sobre conectividade. 

Uma viagem pode significar, estudar, trabalhar, visitar familiares, chegar a uma consulta médica  agendada há muito, mas também abastecer mercados, assegurar que um negócio continua a funcionar, dinamizar o comércio e o turismo.
E quando estas ligações são condicionadas ou falham, os impactos ultrapassam os passageiros que não embarcam: afeta o comércio, as empresas, o turismo, as famílias e as comunidades. 

Por isso, a conectividade marítima deve ser entendida como uma questão de coesão nacional. Não elimina as diferenças entre ilhas. Permite sim, que uma ilha de menor dimensão não fique automaticamente mais longe das oportunidades apenas porque tem menos população ou procura.

E esta leitura é também económica. Cabo Verde precisa de fazer circular melhor aquilo que produz, aquilo que consome e as pessoas que criam valor em diferentes pontos do território. Um mercado interno só ganha escala quando existe capacidade real de ligação entre os seus vários centros de produção, consumo e serviços.

A conectividade marítima deve ser encarada como uma infraestrutura estratégica, capaz de reduzir desigualdades e garantir oportunidades mais equilibradas entre as ilhas. Para isso, é necessária uma responsabilidade partilhada entre operadores, autoridades e administrações portuárias.

A conectividade marítima deve ser encarada como uma infraestrutura estratégica, capaz de reduzir desigualdades e garantir oportunidades mais equilibradas entre as ilhas. Para isso, é necessária uma responsabilidade partilhada entre operadores,  autoridades e administrações portuárias.

E os operadores marítimos, em concreto, a CV Interilhas ocupa, neste quadro, uma função de continuidade. A empresa deve responder pela qualidade da sua operação e pela clareza da informação que presta, mas a relevância do serviço não se esgota numa rota ou num horário. Está na capacidade de manter comunidades ligadas e de reduzir, tanto quanto possível, o peso da geografia na vida das pessoas.

Apesar dos desafios meteorológicos, oceanográficos, técnicos e portuários, é fundamental reforçar o planeamento, a manutenção dos navios, a coordenação institucional e a qualidade da informação prestada aos passageiros, sem comprometer a segurança.

A segurança, esse valor, que continua a ser a condição de qualquer ligação. O estado do mar, as condições portuárias ou a disponibilidade técnica da frota podem impor limites. Explicar esses limites é necessário, mas a comunicação deve começar pelo que está em causa para o país: assegurar mobilidade com previsibilidade e confiança, sem transformar a segurança numa variável negociável.

A pergunta essencial, por isso, não é apenas quantas viagens se realizam. É o que cada ligação permite ao país realizar. Quando existe conectividade, as ilhas aproximam-se em tempo, em acesso e em possibilidade. Quando ela se fragiliza, a distância geográfica passa rapidamente a ser distância económica e social.

Tratar o transporte marítimo como infraestrutura de coesão significa reconhecer esta realidade. 

Em Cabo Verde, ligar ilhas é unir pessoas, aproximar economias e fortalecer a unidade nacional. Porque, num arquipélago,  sem conectividade não há coesão.

E a verdadeira coesão nacional constrói-se também garantindo que nenhuma ilha fique isolada e que a distância geográfica não seja um obstáculo ao desenvolvimento.

*Comandante da Marinha Mercante, com mais de 40 anos de experiência no setor marítimo. 

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