Um homem de 36 anos, com dupla nacionalidade cabo-verdiana e holandesa, foi detido em Schiedam, Roterdão, nos Países Baixos, suspeito de envolvimento no homicídio de Ismael Neves, diretor técnico da ITAC – Inspeção Técnica Automóvel de Cabo Verde, que foi atingido por dois disparos, um no peito e outro numa perna, na sequência de um tiroteio ocorrido na zona de Chã de Cemitério, São Vicente, em Janeiro de 2024.
A detenção, segundo uma nota da Polícia Judiciária, ocorreu a pedido das autoridades cabo-verdianas. O suspeito, natural de Roterdão, residia anteriormente em São Vicente, onde geria empresas familiares e um espaço de diversão noturna na zona de Madeiralzinho. Após o homicídio, abandonou a cidade do Mindelo.
O suspeito é indiciado pela prática de cinco crimes, sendo um de homicídio na forma consumada, três de homicídio na forma tentada e uma de arma de fogo.
O Ministério Público de Roterdão (Openbaar Ministerie – OM) recebeu o pedido para assumir o processo criminal, dado que o detido possui nacionalidade holandesa, o que impede a sua extradição.
O indivíduo foi presente ao juiz de instrução na passada sexta-feira, tendo-lhe sido decretada prisão preventiva por, pelo menos, mais duas semanas.
Assassinatos em São Vicente
Na altura houveram dois casos de homicídios que se relacionaram. O primeiro episódio remonta à madrugada de 7 de janeiro de 2024, quando, após um desentendimento num espaço noturno, ocorreu um tiroteio em Chã de Cemitério, nas imediações da residência de Hélder Gomes, conhecido como “Cabeça”.
O ataque resultou na morte de Ismael Neves Gomes, de 44 anos, diretor técnico da Inspeção Técnica Automóvel de Cabo Verde (ITAC) e primo de “Cabeça”. Na altura, Hélder Gomes e uma mulher que os acompanhava também foram atingidos por disparos, mas sofreram apenas ferimentos ligeiros.
No entanto, 109 dias depois, na noite de 24 de abril de 2024, Hélder Gomes foi novamente alvo de um atentado. À saída do seu carro, em frente à sua residência em Chã de Cemitério, foi alvejado com pelo menos cinco tiros, tendo falecido no local.
As investigações levadas a cabo pela Polícia Judiciária (PJ) e pelo Ministério Público de Cabo Verde permitiram a detenção, em julho de 2024, de três suspeitos ligados diretamente ao homicídio de “Cabeça”, os quais aguardam julgamento sob medidas de coação não privativas de liberdade.
A nota divulgada hoje pela PJ não diz nada sobre um possível envolvimento do suspeito ora detido no caso de assassinato de Cabeça.
Suspeitas de ajuste de contas
As autoridades acreditam que Ismael Gomes terá sido uma vítima colateral, encontrando-se no local errado, à hora errada, sendo que o alvo principal era Hélder Gomes.
Os contornos dos dois homicídios apontam para um ajuste de contas entre grupos rivais, situação já na altura comentada por vários mindelenses, que alertavam para a possibilidade de represálias e para a alegada falta de resposta policial eficaz.
Geremias S. Furtado
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1 Comentário
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João de Deus
28 de Abril, 2025 at 11:37
Não venham agora, com ar de virgens ofendidas, fazer de conta que isto caiu do céu, como quem tropeça numa pedra na rua. O que Cabo Verde está a colher é simples: décadas de falta de autoridade do Estado, de vista grossa, de compadrio, de polícia que só aparece para multar carro estacionado em contramão.
Esta criminalidade juvenil, agora toda armada em cartéis de favela, não nasceu ontem nem caiu de Marte. Foi sendo criada, alimentada e protegida pela negligência descarada de sucessivos governos que viraram costas aos bairros, abandonaram as escolas, ignoraram o tráfico e assobiaram para o lado quando já toda a gente via o que se estava a formar.
E agora? Agora é tarde para chorar pelo leite derramado. Não culpem “a sociedade”, “a juventude” ou “as famílias”. Culpem o Estado, culpem-se a vocês próprios, que deixaram que o terreno fértil da ignorância, da pobreza e da impunidade florescesse em balas, vinganças e corpos estendidos no chão.
A verdadeira mãe deste monstro é a omissão do Estado. Sem disciplina, sem autoridade, sem justiça firme, o que se cria é isto: uma sociedade paralela onde quem manda é a lei da bala.
Querem resolver? Primeiro assumam que falharam. Depois, parem de vender ilusões em conferências de PowerPoint e comecem a recuperar o básico: ordem, educação séria, justiça que funcione, e autoridade verdadeira onde ela faz falta.
Se não, o próximo “debate” que vão ter é à base de mais tiros, e menos comunicados de imprensa.