Constituído por 24 contos, um dos quais, ‘O erro do músico’, que dá o título à colectânea, o novo livro da Eileen Barbosa marca o regresso da autora de Eileenístico às histórias curtas – seu género de preferência. Como ela conta, a escolha do título foi sugestão da editora Pedro Cardoso, que dá a chancela ao livro, que contém o que Eileen considera como “provavelmente os meus melhores contos”.
Eileen Barbosa esclarece que não se trata de um livro de contos de contos recentemente escritos, “mas aqueles que eu já tinha escrito há algum tempo e que não puderam integrar os originais que enviei para o Prémio Literário Llana, no Sal, em 2023, por exigirem textos inéditos e ainda não partilhados”.
Alguns destes contos, diz, já tinham sido lidos num programa de rádio, numa rubrica literária de sua autoria. “Então, ao não poder candidatar estes contos, que são os que eu mais gosto, candidatei aqueles que eu chamo a minha ‘equipa B’, que depois foram publicados no livro Polaroides, por ter vencido uma menção honrosa, no concurso.”
Humor e algum lado ‘macabro’
Os trabalhos agora a serem editados no novo livro foram guardados para esta ocasião e são textos de que a autora diz gostar imenso. “Tenho um que se chama O rei estripado, em que uma rainha se sente muito ofendida pelos comentários de mau gosto do rei, pega numa faca, abre-lhe a barriga, tira-lhe um pedaço do intestino e vai incendiar esse pedaço na rua, perante as pessoas.” E o conto que dá título ao livro, O erro do músico, revela que foi-lhe inspirado pela época em que Eileen era vizinha do músico mindelense Hernani Almeida.
“E na minha cabeça, quem conta esta história é o próprio Hernani; mas se calhar as pessoas vão ler e não se vão dar conta, porque esta história é do tempo em que o Hernani tocava piano, porque antes de tocar guitarra ele era pianista; portanto, é uma ficção, mas tem uma pontinha de realidade, da qual as coisas começaram a desenvolver-se até acabar nestes contos que eu aqui apresento.” Outros dos contos, Farrapos da Interbase, que autora havia chegado a pensar para título do livro, que nasce à volta de um incêndio nessa mesma empresa do Mindelo, em que Eileen cria um casal de mendigos que vivam debaixo de umas escadas.
A autora confessa não ter um conjunto de temas literários preferidos, como acontece com alguns escritores. “Posso estar a conversar com alguém e reparar numa frase e dizer esta frase é bonita, vou tomar nota; olho também para as pessoas, mas também tenho cenas mais macabras, outras vezes vai um conto policial, tenho coisas pequenas muito inspiradas pelo amor, e acho que é um bocadinho por aí”, diz.
Eileen destaca, também o humor que alguns dos seus textos contêm, “de um olhar igualmente para os sentimentos das pessoas”. Questionada se alguma destas histórias poderiam evoluir para um romance, um registo mais longo, ela recorda:
“Certa vez escrevi uma série de contos à volta de uma mesma personagem e dei-o a ler ao Germano Almeida, que me disse, tens aqui material para um romance, senta-te e trabalha; eu tenho esse romance em mente, mas o romance é uma coisa…uuff!, é uma coisa! Dei a ler esse ‘romance’ a alguém que me levantou várias dúvidas, em poucas páginas, aí eu pensei, ainda tenho de amadurecer o texto mais.”
Romance em preparação
Apesar de nada ter contra ser contista a vida toda, “o que tem muito a ver comigo e com os meus próprios gostos, tenho sim um romance em que estou a trabalhar, mas é uma coisa muito atrevida da minha parte, porque é um romance histórico, de uma época que eu não vivi, por isso tem de ser muito mais amadurecido”.
Eileene Barbosa passou 17 anos sem publicar, como recorda, desde o seu primeiro livro Eileenístico, de 2007, e só em 2023 vem a publicar o livro de contos Águas Salgadas, em 2024 Polaroides, e este ano, O erro do músico. “Mas, entretanto, participei em colectâneas, tanto de prosa como de poesia, ensaios.”
Em 2014, Eileen Barbosa foi escolhida como um dos escritores africanos com menos de 40 anos, mais promissores, no meio de uma lista de 39 outros autores do continente, que incluía também o angolano Ondjaki e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A escritora tem como autores preferidos os cabo-verdianos Teixeira de Sousa e Germano Almeida e o brasileiro (recentemente falecido), Luís Fernando Veríssimo, como grande referência a nível internacional, assim como Somerset Maugham, para além da portuguesa Inês Pedrosa.
O erro do músico é lançado esta sexta-feira, 12, na Livraria Pedro Cardoso, com a apresentação de Jeff Hessney.
Joaquim Arena



