
Por: Gil Évora
A chegada das “low costs” e a dinamização do turismo de cruzeiros mostram uma lufada de ar fresco no turismo cabo-verdeano habituado desde há décadas ao “all inclusive” e ao turismo de sol e praia baseado nas ilhas do Sal e da Boa Vista.O dia-a-dia nas cidades da Praia, Mindelo e um também S.Filipe têm mostrado que o turismo de hoje fez uma guinada qualitativa de realce a que não é estranho a chegada das low cost, em particular a Easyjet e a Transavia. Habituados ao tradicional “all inclusive” característico das ilhas do Sal e Boa Vista, assistimos agora a um “upgrade”, um incremento qualitativo do turismo nas cidades atrás citadas, e os turistas passam a fazer parte do nosso dia-a-dia.
Para além das vantagens tarifárias das “low cost” (que não são objeto de análise neste artigo) interessa aqui abordar as vantagens económicas proporcionadas pela chegada das “low cost”, em particular os impactos na pequena economia doméstica nas cidades atrás citadas.
Um dos impactos mais significativos tem sido a nível do alojamento complementar. A grande maioria dos turistas que chegam nas “low-costs” são turistas que privilegiam o alojamento nos “airbnbs” em detrimento do alojamento nos hotéis. Daí que assiste-se hoje as cidades da Praia, Mindelo e S.Filipe a aderirem gradualmente ao sistema do alojamento complementar garantindo receitas importantes para o rendimento familiar. Em complemento, o turista da “low cost” privilegia os pequenos bares e restaurantes, o artesanato local, o transporte interno, e as viagens intra e inter ilhas o que acaba por se traduzir num impacto significativo na economia local.
Essa quebra do monopólio aéreo permitiu uma descentralização do turismo, e um incremento agora rumo às ilhas de Santiago, S.Vicente, Santo Antão e mesmo Fogo. Para além dessa descentralização as “low cost” permitiram também uma certa “democratização” do acesso ao destino Cabo Verde, antes vedado para quem não pudesse pagar as tarifas aéreas, as tarifas dos grandes hotéis e mesmo os pacotes turísticos.
Para além das tradicionais vantagens inerentes a um aumento do tráfego turístico (aumento das receitas geradas pelas taxas aeroportuárias, taxas turísticas e impostos) o desenvolvimento do tráfego “low-cost” levou os turistas para a rua, dinamizou o comércio e a economia local, impulsionou pequenos negócios e gera empregos diretos e indiretos que ainda estamos longe de conseguir quantificar.
Não podemos também ignorar em como essa “democratização” no acesso ao destino Cabo Verde proporcionado pelas empresas “low cost” acaba por afectar positivamente a economia de uma forma geral. “Low costs” e tarifas mais acessíveis significam também um aumento da conectividade da Europa para com o arquipélago, rotas diretas para outras ilhas que não somente o Sal e a Boa Vista, visitas mais frequentes também por parte da nossa diáspora residente na Europa, o que a um nível mais macro acabará por gerar um aumento do volume de passageiros, mais receitas turísticas, mais emprego local e um impacto direto no crescimento do nosso PIB.
Turismo de Cruzeiro no caminho da consolidação
Os últimos anos mostraram-nos também um desenvolvimento sem precedentes do turismo de cruzeiros em 4 destinos diferentes no nosso arquipélago: Praia, Mindelo, Porto Novo e S.Filipe. Existe uma ideia generalizada de que as autoridades dão pouca atenção a este tipo de turismo.
Habituamo-nos a ouvir somente a Enapor e algumas (poucas) agências de viagem a falar deste tipo de turismo e muito pouco as autoridades ligadas ao sector. Contudo os benefícios deste tipo de turismo são muito palpáveis, mesmo tendo em conta que a permanência média de um navio de cruzeiro nos portos cabo-verdianos dificilmente ultrapassa as 12 horas.
Em primeiro lugar o impacto na economia local é facilmente palpável. A chegada de um barco de cruzeiro de médio porte significa a mobilização de dezenas de autocarros Coaster, dezenas de Hiaces, centenas de guias turísticos e dezenas de táxis, sem falar na dinamização do comércio local que isso acarreta.
Um dos impactos mais significativos tem sido a nível do alojamento complementar. A grande maioria dos turistas que chegam nas “low-costs” são turistas que privilegiam o alojamento nos “airbnbs” em detrimento do alojamento nos hotéis. Daí que assiste-se hoje as cidades da Praia, Mindelo e S.Filipe a aderirem gradualmente ao sistema do alojamento complementar garantindo receitas importantes para o rendimento familiar. Em complemento, o turista da “low cost” privilegia os pequenos bares e restaurantes, o artesanato local, o transporte interno, e as viagens intra e inter ilhas o que acaba por se traduzir num impacto significativo na economia local.
Os tours e as excursões contemplam visitas ao interior das ilhas, aos pontos turísticos, almoços nos restaurantes no interior, aquisição do artesanato local, serviços de animação cultural, etc. e está provado que o turista de cruzeiro funciona como um “provador”, ou seja a curta estadia serve de montra, mas uma grande percentagem deles regressa mais tarde para estadias mais prolongadas em hotéis.
Portanto este tipo de turismo injeta rendimentos diretamente nos restaurantes, transportes locais e, artesanato, etc, gera rendimentos locais diretos, com impacto nas famílias e de outubro a Abril este sector dinamiza o emprego local (em especial nos guias turisticos) nestes quatro portos de destino…isso sem falar, claro, das receitas geradas pela TSA- taxa de segurança aeroportuária adaptada ao sector marítimo e das taxas portuárias cobradas pela Enapor.
Apesar da dinâmica já criada é possível fazer-se muito mais, criando circuitos turísticos mais eficientes e que permitam a toda a cadeia de produção otimizar e maximizar as receitas provenientes dos turistas de cruzeiro. E se considerarmos que o turismo de cruzeiro é um daqueles segmentos que maior crescimento tem tido na consolidação do produto turístico cabo-verdiano, então uma maior atenção deve ser dada á qualidade e competitividade dos produtos e serviços oferecidos na certeza de que estas questões interferem diretamente no impacto socioeconómico local.
Turismo requer investimento nacional e municipal
Em termos quantitativos a chegada das “low-cost” e a previsão do acréscimo de outros segmentos de turistas pode fazer com que possamos no final de 2026 chegar a 1.5 milhões de turistas, uma previsão otimista sim mas, agora perfeitamente ao nosso alcance. Contudo este tipo de turismo por não estar confinado aos resorts por primarem pelo contacto directo com a população e pelas vivências citadinas, por priveligiarem a troca de experiências com a população, exige também muita atenção por parte das autoridades nacionais e municipais.
Atenção no que diz respeito á promoção da qualidade dos circuitos turísticos, o que implica investimento nas cidades, e atenção também no que diz respeito ao aspeto segurança. Cabo Verde não sendo um país inseguro quando comparado com outros destinos, deve investir um pouco mais na segurança nas cidades que recebem os turistas de cruzeiros e os turistas das “low costs”!
Terminamos 2025 e iniciamos 2026 em contacto com este novo turista, passageiro das “low cost”, em particular nas cidades da Praia, Mindelo e S.Filipe. Hoje fazem parte do nosso dia-a-dia, deambulam pelas cidades num contacto diário com as populações, pelo que é preciso acarinha-los, redobrar a atenção e criar todas as condições para que se sintam bem. Um incremento deste tipo de turismo bem como do turismo de cruzeiros continuará a alimentar as nossas economias locais, proporcionar rendimentos e criação de empregos em particular na camada juvenil.
Ao terminarmos o ano de 2026 tenho a certeza que o peso das Ilhas de Santiago, S.Vicente, Sto. Antão e Fogo no turismo nacional terá conhecido um incremento qualitativo e quantitativo, provocando uma diminuição da “dependência” do Sal e Boa Vista e proporcionando uma maior diversificação do turismo.



