São nove décadas passadas desde que o primeiro número da revista Claridade viu a luz do dia, no Mindelo, São Vicente. Em Março de 1936, num tempo marcado por uma profunda crise social e económica, que tinha levado dois anos antes o Capitão Ambrósio e os seus companheiros operários às ruas do Mindelo para exigir trabalho e comida, um grupo de jovens intelectuais liderados por Baltasar Lopes da Silva reuniu-se à volta desta publicação, que visava através da literatura, abordar assuntos delicados: as fomes, secas, abandono, busca por uma estética literária local que pudesse ajudar a denunciar um conjunto de males que atrofiavam as condições mínimas de vida e os anseios da felicidade destas populações. Quase um século depois, o que resta do legado claridoso?
A publicação era para ser um jornal, mas devido às dificuldades administrativas impostas pelas autoridades de então, optou-se antes pelo formato de revista, onde as contribuições e reflexões dos seus fundadores poderiam ser partilhadas. Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes, João Lopes e Jorge Barbosa, jovens na altura, na casa dos trinta anos, formaram o núcleo fundador da publicação, já que Jaime de Figueiredo, grande entusiasta do projecto, não concordou com o título Claridade, retirando-se da iniciativa, coincidindo essa retirada com a sua mudança para a cidade da Praia, ilha de Santiago. Ainda assim, não deixou de integrar o grupo assinando importantes textos sobre Claridade e os seus autores, sendo ele um intelectual antenado com as “coisas” do mundo.
À distância de quase um século da sua fundação e tendo sido publicado nove números, de Março de 1936 até Dezembro de 1960, de forma irregular e espaçada, e cinco décadas depois da independência a pergunta que se faz é o que resta das ideias dos claridosos na sociedade cabo-verdiana. Cumpriu-se o propósito de “fincar os pés na terra”? A voz deste grupo de cidadãos foi ouvida e os problemas que procuraram chamar atenção foram resolvidos?…
Hoje, o país nada tem que ver com o Cabo Verde dos anos 1930 e que existiu ao longo da vida do compromisso destes escritores e movimento literário, aos quais temos de acrescentar também outros nomes que se lhes juntaram, como António Aurélio Gonçalves, vindo mais tarde de Lisboa, Félix Monteiro, Teixeira de Sousa e outros valores. Hoje, como podemos analisar o seu contributo para a literatura e para a sociedade cabo-verdiana?
Para o escritor Germano Almeida, a ideia de fincar os pés na terra foi “revolucionária, excelente, pensar nos problemas de Cabo Verde, na altura, foi extraordinário”.
Mas o escritor acha que Baltasar Lopes e os seus companheiros “tinham os olhos um bocado no umbigo”. Recorda um encontro com o autor do romance “Chiquinho”: “Um dia, falando com ele, eu disse-lhe que nos anos de 1930, quando campeava o fascismo na Europa, Alemanha, Espanha, Itália, Portugal, vocês resolveram pensar em Cabo Verde, e ele sorriu e disse, ‘olha Germano, nós não pensávamos nada dessas coisas’”.
Germano acha que o facto de ele ter dito isso, não significa que Baltasar e os seus companheiros não estivessem preocupados com a sua terra e, a esta distância, “nós podemos dizer que as grandes preocupações dos claridosos mantêm-se em grande parte; nós obtivemos a independência, é verdade, e não acredito que tivesse sido em função das suas ideias, mas que indirectamente foi, creio que sim”.
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