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Cultura

A Família Glé coloca folclore de Cabo Verde em banda desenhada

A partir da história de uma família em João Afonso, no interior de Santo Antão, Cheila Delgado e Merly Tavares partilham memórias de infância e o folclore de Cabo Verde com o Mundo, através do projecto BDPALOP.

Cheila Delgado, que se estreou na literatura em 2023 com “Poetisa não, por favor”, acredita que “escrever é também resistir, preservar e projectar”.

Cheila Delgado (argumentista)

E foi com base nesta crença que em 2025 aceitou o desafio de concorrer à terceira edição do projecto BDPALOP (banda desenhada nos Países de Língua Oficial Portuguesa), que há três anos vem publicando livros de autores de Moçambique, Angola e Cabo Verde.

Na edição de 2025, entre três duplas de cada um destes países, Cheila Delgado (argumentista) e Merly Tavares (ilustradora) conquistaram o primeiro lugar a nível de Cabo Verde e o segundo lugar nos PALOP, com o livro “A Família Glé”.

A história escolhida para embarcar nesta aventura é um fragmento da infância da escritora, resgatado da casa com piso de terra batida onde viveu com a avó “Leleta”, em João Afonso, interior de Santo Antão.

Entretanto, mais do que uma memória de infância, “A Família Glé” dá corpo à memória colectiva, à oralidade, e rende uma homenagem a uma mulher que, no seu tempo, foi a personificação da força feminina.

“A Família Glé é uma homenagem àquela que foi a minha avó Leleta. ´Glé´ porque somos uma família conhecida por falar sempre alto, então éramos chamados de ´Os Glé´. ´Glé´, também, porque tivemos três Guilherminas na família, entre as quais a minha avó Guilhermina Rocha”, indica a autora.

Merly Tavares (ilustradora)

Quem lê o livro encontra, por isso, um pouco daquilo que foi a sua vivência em João Afonso, do ritual da cachupa ao jantar, do contexto da altura de não ter uma casa de banho e das noites iluminadas pela lua cheia porque não havia luz eléctrica. Vivências que, ao fim ao cabo, acabam por ser de muitos outros santantonenses e de muitos outros cabo-verdianos.

“A principal representatividade deste livro é também sermos nós a contar a nossa história. Não os outros. Para mim isso é o mais importante”, admite a autora.

Do texto à ilustração

A história de Cheila Delgado ganha vida também através da ilustração de Merly Tavares, que teve a responsabilidade de interpretar o texto e transformá-lo em narrativa visual. Pensar em como traduzir emoções, cenas e ritmo para a banda desenhada e contribuir para enriquecer a narrativa.

“Ao ler e reler e imaginando cenários para as interações dos membros da família comecei a perceber que havia algo muito mais profundo na história, que é baseada em fatos reais da vida da nossa argumentista, mas muito enraizada na nossa cultura, nas vivências da ilha de Santo Antão”, indica a ilustradora e artista conceitual.

Para Merly, trabalhar com a BDPALOP foi uma experiência “muito positiva”, tanto por conseguir se expressar de forma livre e explorar a sua visão sem limitações criativas, quanto por ter tido acesso a formações importantes no contexto da banda desenhada.

Natalina Andrade

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