
Por: Eurico Mendes*
O setor externo sempre desempenhou e continuará a desempenhar papel central na economia cabo-verdiana, dada a sua configuração geográfica dispersa, mercado interno limitado, solo semiárido e escassez de recursos naturais.
Estes fatores estruturais restringem o desenvolvimento dos setores agrícola e industrial e, associados à fraca poupança interna, condicionam a capacidade de investimento em infraestruturas físicas e sociais essenciais para um crescimento sustentado.
Dessa forma, a estrutura produtiva de Cabo Verde está, e deve permanecer, orientada para o comércio e a prestação de serviços, dependendo fortemente de financiamento externo – público e privado – para assegurar investimento e capitalização dos setores estratégicos. O setor externo torna-se, assim, fonte determinante de riqueza e financiamento, incluindo as contribuições da diáspora.
É fundamental aprofundar a análise sobre estas vulnerabilidades e constrangimentos, utilizando pesquisas e modelos macroeconómicos de economia aberta para compreender a dinâmica de crescimento e a volatilidade do país diante de choques externos.
Um estudo detalhado do período entre 1980 e 2012 permite examinar como mudanças socioeconómicas, institucionais e políticas internas, bem como fatores exógenos – incluindo a influência de parceiros estratégicos da zona Euro, o contexto da Guerra Fria (1945–1991) e a crise financeira de 2007/08 – moldaram o desempenho económico do país. A aplicação de modelos de regressão múltipla de séries temporais possibilita identificar variáveis explicativas do PIB e compreender os determinantes do crescimento.
Além disso, deve-se considerar as reformas estruturais implementadas nas últimas décadas que posicionaram Cabo Verde como um país de rendimento médio (de renda baixa), segundo indicadores quantitativos (PIB/PNB per capita, PPC per capita) e qualitativos (IDH).
A política é, como enfatiza Keynes, expressão concentrada da economia, e o economista deve possuir visão interdisciplinar: “em algum grau matemático, historiador, homem de Estado e filósofo. Tem de compreender símbolos e utilizar palavras (…) Estudar o presente à luz do passado, com vista ao futuro. Nenhuma parte da natureza humana ou das suas instituições pode ficar completamente fora da sua atenção”.
Portanto, compreender a economia cabo-verdiana exige não apenas análise quantitativa, mas também a consideração das interações entre contexto histórico, estrutura institucional, relações externas e características socioculturais do país.
A dependência externa, embora estruturante, pode ser articulada com o fortalecimento do setor produtivo endógeno e a promoção da exportação cultural, formando um modelo de crescimento adaptado à realidade cabo-verdiana e sustentável a longo prazo.
*Economista e Bancário

