A farinha de mandioca ocupa um lugar especial na história alimentar e cultural de Cabo Verde. Mais do que um simples produto agrícola, ela representa resistência contra secas prolongadas e a criatividade e sobrevivência do povo das ilhas no combate às dificuldades económicas. No entanto, o mundo cultural e identitário que gira em torno do fabrico desta farinha tão especial, tarda em ser reconhecido oficialmente como fazendo parte do património desta ilha.
A mandioca tornou- -se uma alternativa importante ao milho em muitas ilhas do arquipélago, em especial durante os períodos de crise agrícola. Mas é na ilha de São Nicolau que a tradição da chamada “farinha- de-pau” se enraíza e ganha maior notoriedade a ponto de hoje ser símbolo cultural profundamente ligado à identidade local. Para o investigador José Joaquim Cabral (JJ Cabral), um saniculauense incontornável nestas manifestações culturais da ilha, a mandioca, originária da América do Sul, terá chegado através das rotas marítimas dos portugueses.
“Encontrei uma referência num livro, uma citação que data de 1794, que dá conta do cultivo da mandioca em São Nicolau. Mas há muitas lendas sobre isso, no entanto o que está confirmado é que o governador de Cabo Verde António Pusich, depois de ter sido intendente da Marinha em Cabo Verde, foi nomeado governador das ilhas no Brasil, onde se encontrava com a corte portuguesa no Rio de Janeiro. Penso que pode estar aí o seu contacto este tubérculo e tê-lo-á trazido depois para São Nicolau, quando foi nomeado governador das ilhas”, diz o investigador.
Para além de Cabo Verde, os portugueses levaram a planta do Brasil para várias colónias africanas, reconhecendo nela uma cultura resistente e adaptável a climas difíceis. Em Cabo Verde, onde as chuvas são escassas e irregulares, a mandioca encontrou condições relativamente favoráveis em certas dos vales agrícolas de São Nicolau. “A mandioca não se dá bem com climas húmidos nem demasiado secos, ou seja, a região mais favorável em São Nicolau foi a cintura da Fajã e Covoada. Nas zonas húmidas do Cachaço e as secas da parte Leste da ilha não dava. E de início conta-se que diziam às pessoas que ela era venenosa para elas não mexerem nas plantas.”
Reserva alimentar viva
No início do povoamento, as secas frequentes acabavam por destruir colheitas inteiras de milho e feijão e provocavam períodos de fome devastadora. E é aqui que a mandioca se revelou importante, porque conseguia resistir melhor à escassez de água e podia permanecer enterrada durante mais tempo sem se deteriorar. As populações podiam ter uma espécie de ‘reserva alimentar viva’, colhida apenas quando necessário. Depois de comida no ‘modge’ ou na cachupa, a mandioca era transformada em farinha e guardada em tambores. Aliás, esta é uma das primeiras frases do romance Chiquinho, de Baltasar Lopes: “ (…) a casinha desaguada era a tentação da meninência onde mamãe velha- guardava a farinha de pau”.
Após anos de seca, que dizimou grande parte das culturas, hoje a mandioca deixou o sequeiro e é cultivada igualmente no regadio. Pode-se mesmo falar de um renascer do interesse pela farinha-de-pau (pau da mandioca, claro), diz JJC. “Está muita gente a produzir farinha e ela voltou, felizmente, ao convívio do sanicolauense depois de vários anos; os jovens não sabiam fazer esse trabalho e tiveram de recorrer a gente mais velha, mas agora já há jovens envolvidos e a farinha de mandioca está de volta. Mas mesmo assim não há mão de obra suficiente e pode haver o risco de no futuro não haver farinha pela escassez de mão de obra.”
Para o investigador, o fabrico da farinha-de-pau deverá conhecer o mesmo destino que os trapiches de bois, que praticamente desapareceram das paisagens rurais das ilhas. A ideia é recorrerem a quem possa construir alguma raladora e trituradora mecânica.
“Em São Vicente existe o Ti Néné, um profissional da mecânica, um verdadeiro ‘buldonhe’, um faz tudo, que poderá criar essa máquina de fazer a torrefacção da farinha, ficar a mexê-la, para ultrapassar o problema da falta de mão de obra em São Nicolau, tal como se fez com os trapiches.” Os ‘bois no terreiro do trapiche com o focinho levantado’, como Baltasar Lopes também registou no seu romance.
No entanto, é sabido que por mais eficaz que uma máquina venha a ser na recuperação da tradição do fabrico da farinha- de-pau, dificilmente ela irá trazer o ambiente de outros tempos, por mais que a farinha esteja na moda. Para além do seu valor nutritivo, ela criava empregos, já que os agricultores tinham gente a trabalhar para eles durante todo o ano. Trabalhos que dificilmente virão a ser feitos por máquinas: arrancar a raiz da mandioca, o que levava por vezes a derrubar paredes das hortas, refazer novamente a horta, os muretes, os socalcos, depois sachar a terra, num processo manual. Três anos depois, a terra está dura e tem de ser revolvida, torna-la fofa para se plantar de novo.
Joaquim Arena
Leia a matéria na íntegra na Edição 978 do Jornal A Nação, de 28 de Maio de 2026

