PUB

Colunistas

Nós não caímos… Saímos de pé e vencemos o nosso Mundial

Por: José Vicente Lopes

1. Nesta altura do Mundial, tudo de mais interessante, espirituoso e amoroso, que havia por dizer, já foi dito e escrito sobre o jogo Cabo Verde e Argentina. De volta ao país, quais argonautas das ilhas, os Tubarões Azuis foram recebidos em apoteose merecida, os discursos deste ano ao 5 de Julho foram todos inspirados no desempenho dos nossos “novos combatentes”, como lhes chamou a PAN, Janira Hopffer Almada, e José Maria Neves vai voltar a condecorar a selecção nacional, agora com a mais alta distinção do Estado. 

O orgulho cabo-verdiano, como não podia deixar de ser, anda estes dias nos píncaros – e o que vamos ser capazes de fazer com tamanha vitória, com tamanho presente planetário, disso só o tempo se encarregará de mostrar.  

2. A magia do futebol dá para tudo. Saber que o jogo contra a Argentina foi visto por 2,7 biliões de pessoas, com muitos milhões dessa fabulosa cifra a vibrar por Cabo Verde, além de arrepiante, foi uma das proezas jamais vividas ou imaginadas por qualquer cabo-verdiano. Eu, que fui para este Mundial torcendo para que não fossemos humilhados por quem quer que fosse, dou por cumprido este meu regresso ao mundo da bola, com a sensação de missão cumprida, “balanço extremamente positivo”, e que só não fomos mais longe porque as leis da FIFA não o permitiam.  

Sim, e não é segredo, no script da FIFA, esse antro de malandragem e corrupção desde os tempos de João Havelange, o nosso papel era de mero figurante e despachados logo no primeiro jogo, como previsivelmente aconteceu ao Curaçao, Haiti e outras seleções de países que pouco ou nada pesam na balança da FIFA. E por isso, na partida contra a Argentina não só tivemos de nos bater contra os argentinos como tivemos que jogar contra a máfia de Infantino. Nas redes sociais são inúmeros os vídeos, de gente dos mais variados países, entendidos no assunto, a mostrar como o árbitro jogou escandalosamente ao lado da Argentina, algo que voltou a repetir-se no jogo Argentina e Egipto. 

Felizmente, de nada valeu a Infantino ou a Trump, que nem sequer sabia para servem os cartões em futebol, conseguir a anulação de um cartão vermelho a um jogador dos EUA porque, mesmo assim, a América, do quero posso e mando de Trump, acabou humilhada pela Bélgica por 4-1. Se isto não é justiça divina é, valha-nos isso, a justiça desportiva. 

Além de não termos perdido no tempo regulamentar com nenhum dos times que nos foi dado jogar, no fim da partida a Argentina revelou-se uma equipa aflita e desesperada, boka na txon, e Cabo Verde uma equipa obstinada, cheia de moral, capaz de ainda jogar o tempo que fosse necessário para levar de vencida a partida. Para Messi e Infantino o fim do jogo foi um alívio e a salvação, in extremis, da humilhação mundial. No fim do jogo, em vez de festejar como seria normal, os argentinos saíram do campo encabulados, nem pareciam que tinham vencido a partida. Como disse Pico Lopes ao Messi, do mau comportamento do juiz da partida, “assim é muito fácil vencer quando o árbitro está sempre do vosso lado”.  

(…) há países que são grandes pela dimensão do seu território, devem essa dávida à natureza, à Geografia, ou até à História, têm a força do seu tamanho; aos países pequenos, não lhes resta outra saída senão agigantarem-se pela força daquilo que são capazes de fazer, como tem sido o caso de Cabo Verde

3. Na história dos mundiais, é sabido que há equipas que, bem ou mal, a jeito ou à força, têm obrigatoriamente de chegar às quartas de final sob pena de causarem enormes rombos financeiros ao sistema, e neste Mundial 2026 a Argentina volta a ser uma dessas equipas. 

Neste nosso mundo, onde os pequenos são, amiúde, chamados a medir forças com gigantes, há países que são grandes pela dimensão do seu território, devem essa dávida à natureza, à Geografia, ou até à História, têm a força do seu tamanho; aos países pequenos, não lhes resta outra saída senão agigantarem-se pela força daquilo que são capazes de fazer, como tem sido o caso de Cabo Verde. 

Neste Mundial, parafraseando o saudoso Ovídio Martins, num poema escrito nos primeiros anos da independência, jogo a jogo, ilha a ilha, lá fomos mostrando ao mundo que existimos, sem medo mais de existir. E, continuando com o saudoso Ovídio, “Poesia é agora sentir o futuro-presente”, “Cabo Verde está a levantar-se, na força das suas dez ilhas, seus dez versos, suas dez esperanças […]”. 

Era preciso viver este Mundial para contá-lo, um dia. 

Cromos do Mundial

1. Foi este tipo de imagem que Vozinha se recusou a dar ao Mundo, ao rapidamente erguer o seu colega Sidny Cabral no fim do jogo contra a Argentina. Ainda que humanamente compreensível, no fim de um suado corpo a corpo contra os argentinos, os Tubarões Azuis não podiam se colocar na posição em que o atleta brasileiro foi captado no jogo contra a Noruega. No Mundo em que tudo é signo, tudo é símbolo, as grandes disputas desportivas são momentos épicos, a perspicácia de Vozinha fica aqui registada como um dos momentos do nosso Mundial.

2. Uma das imagens deste Mundial há-de ser a do menino Lewis, oito anos, filho do nosso Nuno Costa, a chorar, ao mesmo tempo que consolava o pai, que chorava também, face ao resultado final do jogo contra a Argentina. Ao ver-se captado pelo ecrã do estádio, Lewis teve a fisgada, e mais do que fisgada um momento de nobreza, para erguer os braços e com as duas mãos fazer o gesto do coração, despedindo-se, assim, Cabo Verde, do Mundo. 

Esse momento remeteu-me a uma outra imagem igualmente emblemática, esta vivida pelo menino brasileiro José Carlos, 10 anos, chorando na arquibancada do Estádio Sarriá, Espanha, após a derrota do Brasil para a Itália na Copa de 1982. A foto, do fotojornalista Reginaldo Manente, ocupou a capa inteira da edição do dia seguinte do hoje extinto Jornal da Tarde (do grupo Estado de S. Paulo), tornando-se uma das mais icónicas capas da história da imprensa brasileira. A “tragédia do Sarriá”, como ficou conhecida pelos brasileiros a derrota para a Itália de uma das mais espectaculares formações da selecção canarinha em 1982, foi apenas acompanhada por esta legenda: “Barcelona, 5 de julho de 1982″. 

A similitude entre as duas imagens, uma captada em Espanha em 5 de Julho de 1982 e a outra nos EUA em 3 de Julho de 2026 (uma diferença de 44 anos), fica aqui igualmente registada, porque o futebol não é só futebol. É também momentos que ficam registados para sempre na retina do tempo. 

PUB

PUB

PUB

To Top