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O relatório da UNESCO sobre o ensino superior: África e futuro

Por: Karina de Fátima Gomes

A educação superior mundial vive um momento decisivo. Essa é uma das principais conclusões do novo relatório da UNESCO/IESALC, publicado em 2026, que analisa as tendências globais da educação superior e os desafios para garantir uma formação mais inclusiva, equitativa e de qualidade em um mundo marcado pela mobilidade internacional, pelas transformações digitais e pelas desigualdades persistentes.

O documento revela um cenário paradoxal. Nunca houve tantos estudantes matriculados na educação superior: em 2024, o número global chegou a 269 milhões, mais que o dobro registrado no ano 2000. Ainda assim, as desigualdades continuam profundas. Enquanto regiões como Europa e América do Norte apresentam taxas de acesso próximas de 80%, em países da África Subsaariana o índice permanece em torno de apenas 9%.

O relatório demonstra que a educação superior tornou-se um espaço central para o desenvolvimento sustentável, para a mobilidade social e para a construção de sociedades mais democráticas. No entanto, os sistemas universitários enfrentam pressões crescentes: redução de financiamento, precarização das condições de trabalho docente, ameaças à liberdade acadêmica, impactos da inteligência artificial e profundas desigualdades no acesso às tecnologias digitais. Um dado alarmante aponta que cerca de um terço da população mundial ainda não possui acesso à internet.

Outro aspecto importante destacado pela UNESCO é a crise da permanência estudantil. O acesso às universidades aumentou significativamente, mas a conclusão dos cursos ainda permanece limitada. A taxa global de graduação cresceu pouco na última década, passando de 22% para 27%. O relatório alerta que muitos estudantes ingressam na educação superior, mas abandonam os estudos devido a dificuldades econômicas, ausência de políticas de apoio e desigualdades estruturais.

A situação dos refugiados também chama atenção. Apesar do crescimento da mobilidade internacional estudantil (que ultrapassou 7,3 milhões de estudantes em 2023) apenas 9% das pessoas refugiadas conseguem acessar a educação superior no mundo. Esse dado evidencia que o direito à universidade ainda está longe de ser universal.

O documento dedica atenção especial à transformação digital e à inteligência artificial. A pandemia de COVID-19 acelerou mudanças profundas nas formas de ensinar, aprender e pesquisar. Plataformas digitais, educação híbrida e inteligência artificial já fazem parte do cotidiano universitário. Entretanto, o relatório alerta para os riscos da exclusão digital e para a necessidade de regulamentação ética dessas tecnologias.

Outro ponto relevante é a defesa da educação superior como bem público e direito humano. A UNESCO reafirma que universidades não podem ser compreendidas apenas como espaços de formação técnica para o mercado, mas também como territórios de produção de conhecimento, diversidade cultural, pensamento crítico e promoção da paz.

Para países africanos e pequenas nações insulares, como Cabo Verde, o relatório traz reflexões especialmente importantes. O documento evidencia que as desigualdades globais continuam fortemente marcadas pela distribuição desigual de recursos, conectividade digital e oportunidades de mobilidade acadêmica. Ao mesmo tempo, aponta a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas para inclusão, permanência estudantil, valorização docente e internacionalização solidária.

Ainda sobre África, o relatório da UNESCO discute um problema pouco debatido, mas extremamente importante: a fragilidade dos sistemas de produção e organização de dados sobre educação superior, especialmente na África Subsaariana. O documento afirma que muitos países da região reportam menos de 40% dos indicadores educacionais internacionais exigidos pela UNESCO e possuem séries históricas muito curtas ou fragmentadas.

Na prática, isso significa que diversos países africanos ainda têm dificuldade para produzir dados consistentes sobre aspectos fundamentais da educação superior, como número de estudantes matriculados, taxas de evasão, conclusão de cursos, financiamento universitário, perfil do corpo docente, mobilidade estudantil e acesso por gênero ou classe social. Em muitos casos, os dados existem apenas parcialmente; em outros, não são atualizados regularmente; e há situações em que sequer há um sistema nacional integrado de informações universitárias.

O relatório explica que isso ocorre por diferentes razões. Uma delas é a limitação estrutural dos sistemas administrativos e tecnológicos. Muitos países não possuem plataformas digitais robustas capazes de integrar informações das universidades públicas e privadas. Outro problema é a falta de investimento contínuo em infraestrutura de dados, formação técnica e sistemas de monitoramento educacional.

A UNESCO também destaca que, em alguns países, não existem legislações claras obrigando as instituições de ensino superior a fornecer dados atualizados ao governo. Isso faz com que a coleta de informações dependa da boa vontade das instituições ou de processos burocráticos lentos e pouco padronizados.

Esse problema tem consequências profundas. Sem dados confiáveis, torna-se muito mais difícil criar políticas públicas eficazes para a educação superior. Governos acabam tendo dificuldades para identificar desigualdades, planejar expansão universitária, investir em áreas prioritárias ou acompanhar índices de evasão e permanência estudantil. Em outras palavras: sem dados sólidos, o planejamento educacional torna-se frágil. O relatório chama atenção para o fato de que a ausência de dados não é apenas uma questão técnica, mas também política e social. Quando determinados grupos, regiões ou instituições não aparecem nas estatísticas, suas necessidades tendem a permanecer invisíveis. Por isso, a UNESCO defende que fortalecer os sistemas de informação educacional deve ser entendido como parte essencial da democratização da educação superior.

Um dos dados mais significativos apresentados pelo relatório da UNESCO refere-se ao crescimento dos programas de doutorado na África Subsaariana. Embora a região ainda apresente baixos índices de acesso à educação superior quando comparada a outras partes do mundo, o número de estudantes matriculados em doutorados cresceu impressionantes 125% ao longo da última década. Esse avanço demonstra um fortalecimento gradual da pesquisa científica e da formação avançada no continente africano, revelando esforços de internacionalização, ampliação das universidades e consolidação de políticas voltadas para a produção de conhecimento local. O crescimento também representa uma mudança simbólica importante: a África deixa de ocupar apenas o lugar de consumidora de teorias produzidas em outros centros e passa, cada vez mais, a afirmar-se como espaço legítimo de produção científica, intelectual e acadêmica – ou seja: quando africanos tem oportunidades eles produzem conhecimento, e conhecimento de alto nível.

De forma geral, o relatório apresenta a África simultaneamente como espaço de profundas desigualdades estruturais e como território de expansão, crescimento universitário e construção de novos modelos de cooperação acadêmica internacional: temos que investir mais em educação.

Mais do que um levantamento estatístico, o relatório da UNESCO funciona como um alerta político e social. Em um mundo atravessado por guerras, deslocamentos humanos, crises econômicas e rápidas mudanças tecnológicas, a educação superior aparece como um dos principais caminhos para a construção de sociedades mais justas, críticas e sustentáveis. O desafio, agora, é transformar os dados em ações concretas.

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