As redes sociais e os media internacionais enlouqueceram, no bom sentido da palavra, com o fenómeno Vozinha. O guarda-redes da selecção de Cabo Verde, que defendeu todas as bolas que a sua congénere espanhola tentou meter na baliza dos Tubarões Azuis, no jogo da segunda-feira passada, 15, transformou- -se num herói do mundo digital. De 45 mil seguidores antes do jogo, passou para 1,5 milhões no fim do jogo, e para mais de 12 milhões de seguidores, em menos de dois dias. É já o cabo-verdiano mais seguido do Instagram, com 14 milhões.
“Só dá Vozinha nas redes sociais!”. Este é o facto que mais se tem ouvido e comentado nos últimos dias. Desde que o árbitro do jogo soprou o apito final que ditou o empate dos Tubarões Azuis contra a Espanha, na sua estreia histórica na Copa do Mundo, na segunda-feira, 15 de Junho.

ATLANTA, GEORGIA, USA – Vozinha faz uma defesa (Photo by Justin Setterfield/Getty Images)
Aos 40 anos, e ao que parecia ser a sua despedida dos relvados, Vozinha parece ter ainda toda uma carreira à sua frente, depois de mostrar em campo que a idade é só um número. O impacto do seu “paredão” contra a Espanha, como apelidaram os brasileiros, foi de tal ordem, que passou de um ilustre desconhecido entre Cabo Verde e a sua diáspora para um fenómeno do mundo digital.
De cerca de 45 mil seguidores antes do jogo, passou para 1,5 milhões no fim da disputa, e para 12 milhões de seguidores, em menos de dois dias (até ao fecho desta edição). Em menos de 24 horas já era o cabo-verdiano mais seguido do Instagram. A maioria de seguidores parecem ser brasileiros, especialmente depois de um “boost” da TV Cazé, um canal do Youtube, com 30 milhões de inscritos, quando uma repórter brasileira daquele canal surpreendeu, em directo, o jogador com os números que estava a alcançar nas redes sociais. “Uma loucura”, disse espantado o próprio Vozinha.
12 milhões, em menos de dois dias
Depois disso os números foram subindo, e subindo, atingindo e ultrapassando os 12 milhões de seguidores, até ontem, à hora do fecho desta página. A sua história está a conquistar o mundo, pela sua simplicidade e, por aos 40 anos de idade, contrariar as tendências e se estrear num Mundial, o sonho que o seu avó anteviu, apesar de já ter falecido.
“Chorei depois do jogo porque cresci com os meus avós e eles não puderam estar aqui, porque morreram há alguns anos”, disse emocionado no final do jogo.
Imbatível contra a Espanha, Vozinha conquistou, com mérito próprio, já um lugar na história do Mundial de Futebol 2026. Logo na terça-feira, 16, de manhã, a seguir ao jogo, Cabo Verde e Vozinha lideravam também os “trends” do Twitter.
Fala-se que, inclusive, o seu nome está a ultrapassar Cesária Évora em termos da visibilidade e projecção mundial do nome e da marca Cabo Verde, tendo em conta o impacto que a Copa do Mundo tem a nível do globo e há quem já fale que poderão vir muitos brasileiros visitar o arquipélago para conhecer a terra de “Vozinha”, aproveitando o voo de Recife da TACV.
A sua projecção fora das quatro linhas é tão grande, que Vozinha conquistou a atenção e o coração de outras figuras bem conhecidas de diferentes áreas. A brasileira Ivete Sangalo, cantora apreciada pelo guarda-redes crioulo, colocou um vídeo nas redes sociais a dizer “Vozinha arrasou! Também sou sua fã, viu?! Quero-lhe ver num show meu! A gente bota para quebrar juntos! Um beijo querido!”
Também José Ramos Horta felicitou o guarda-redes cabo-verdiano. O presidente de Timor Leste escreveu nas suas redes sociais: “Foi por isso que aderi à selecção nacional cabo- -verdiana… Por nos inspirar, por nos emocionar. Vamos continuar”, sendo que já tinha dito publicamente, antes, que ia apoiar Cabo Verde neste Mundial de Futebol 2026.
Estes são só dois exemplos de milhares de manifestações de desconhecidos, fãs e conhecidos numa homenagem e reconhecimento ao talento, mas também à humildade de Voginha, que vai inspirar certamente milhares de crianças e jovens no mundo inteiro a acreditarem que, afinal, os sonhos se podem concretizar. Josimar, antigo craque brasileiro, nome escolhido pelo pai de Vozinha para o filho em 1986, quando nasceu, também já convidou o seu “xará” cabo-verdiano para festa dos 40 anos da Copa de 1986, altura em que ele, o Josimar brasileiro, se destacou ao ponto de chamar a atenção do pai de Vozinha.
Como Cabo Verde pode tirar partido de tanta fama e promoção?

José Martins
É incontestável a dimensão da projecção de Vozinha, o “paredão” que viralizou, de uma forma incontrolável, nas redes sociais e na imprensa mundial. Pouco tempo após o fim do jogo houve marcas e influencers que se aproveitaram do seu nome e imagem para gerar conteúdos, promover as suas marcas, de forma indiscriminada. Vozinha tem agora, ele próprio, uma marca e um nome a proteger e a registar, mas Cabo Verde também beneficia enquanto país, resta saber, agora, como e se vai saber tirar partido, no bom sentido, disso.
José Martins, um cabo-verdiano a residir na Suécia, seguiu com atenção e emoção o jogo dos Tubarões Azuis, à distância, nesta estreia histórica na Copa do Mundo. E, tal como tantos outros filhos destas ilhas, dentro e fora do país, ficou impressionado com o fenómeno Vozinha fora dos relvados.
Este gestor e consultor em investimentos reagia ainda no rescaldo inicial do jogo entre Cabo Verde e Espanha, numa altura em que Vozinha já tinha alcançado cerca de 6 milhões de seguidores, em menos de 24 horas. “Impressionante, sem dúvida”, escreveu, interrogando a seguir que a verdadeira questão não é quantos seguidores ganhou, mas sim o que vamos fazer com isso?
“A atenção é um dos bens mais valiosos do mundo atual. Empresas, cidades e países investem milhões para conseguir aquilo que Cabo Verde alcançou de forma espontânea: chegar ao coração e ao ecrã de milhões de pessoas através de uma história autêntica. O Vozinha pode beneficiar desta onda de popularidade através de parcerias, patrocínios, campanhas de sensibilização e da construção de uma marca pessoal que perdure para além do Mundial. E seria mais do que merecido. Mas a pergunta mais importante continua a ser: o que pode Cabo Verde fazer com isto?”, questionou com enfase no impacto que isto também tem no país, enquanto nação e como podemos tirar partido dessa projecção de Vozinha.
Martins defende que podemos promover Cabo Verde como destino turístico, de forma diversificada. “Podemos mostrar ao mundo a nossa cultura, a nossa música, a nossa gastronomia, o Carnaval de Mindelo, as nossas paisagens e a hospitalidade do nosso povo. Podemos atrair investidores, despertar a curiosidade de quem nunca ouviu falar do nosso país e reforçar os laços com a nossa diáspora espalhada pelos quatro cantos do mundo”.
As empresas cabo-verdianas, diz, também têm uma oportunidade única. “Hotéis, restaurantes, operadores turísticos, companhias aéreas, produtores locais, marcas nacionais e pequenos empreendedores podem aproveitar esta montra global para contar as suas histórias e apresentar os seus produtos”.
Estratégia
Mas, para isso, defende, há uma condição. “É preciso agir rapidamente. Porque a fama é passageira. Os seguidores de hoje podem desaparecer amanhã. Se não houver estratégia, criatividade e capacidade de execução, esta oportunidade ficará apenas como uma bonita recordação de um empate histórico”, alerta.
Nesse contexto, questiona, como pode um país com pouco mais de meio milhão de habitantes transformar alguns dias de atenção mundial em anos de oportunidades?
“Se conseguirmos responder a essa pergunta, então o empate com a poderosa Espanha terá valido muito mais do que um ponto na classificação. Terá sido um ponto de viragem. Porque o mundo já olhou para Cabo Verde. Agora cabe-nos decidir o que queremos que ele veja a seguir”, interpela.
José Martins recorda que Cabo Verde é conhecido pela sua estabilidade democrática, pelo crescimento do turismo e pela sua diáspora trabalhadora, resiliente e empreendedora, mas desde o jogo contra a Espanha passou a ser conhecido, também, pelo futebol. “Pela coragem de enfrentar uma das maiores potências mundiais da modalidade e conquistar um empate histórico com a Espanha, com dignidade, humildade e respeito”.
Mais que um empate histórico, esse consultor defende que Cabo Verde conquistou algo que pode ter um impacto muito mais duradouro: visibilidade, respeito e a atenção do mundo.~
“Agora, cabe-nos transformar esta oportunidade em algo concreto: mais investimento; mais turismo; mais intercâmbio académico e cultural; mais oportunidades para os nossos jovens; mais valorização da nossa diáspora; e mais internacionalização das empresas cabo-verdianas”.
Resta saber, como questiona, se “teremos a visão, a união e a capacidade para a aproveitar?”. O tempo o dirá.
Publicado na Edição 981 do Jornal A Nação, de 18 de Junho de 2026

