
Por: Rui Pereira
Cinquenta anos depois da Independência, talvez tenha chegado o momento de formular a pergunta que sucessivos governos, economistas e decisores públicos raramente colocaram no centro do debate nacional: terão falhado as políticas económicas de Cabo Verde?
A pergunta incomoda porque desafia uma narrativa construída ao longo de décadas, segundo a qual o país constitui um caso exemplar de sucesso africano. Os indicadores internacionais apontam estabilidade política, crescimento económico, boa governação e progresso social. Tudo isso é verdadeiro. Cabo Verde alcançou conquistas importantes na construção institucional, na consolidação democrática e na melhoria das condições de vida das suas populações.
Mas esses indicadores dizem muito sobre a capacidade de administrar o país e dizem muito pouco sobre a capacidade de produzir riqueza.
E é precisamente aqui que começa a verdadeira discussão.
A grande questão nunca foi saber se Cabo Verde cresceu. Cresceu.
A verdadeira questão é outra: esse crescimento transformou a estrutura económica nacional?
A resposta parece evidente. Não.
Uma economia transforma-se quando aumenta a sua capacidade de produzir, exportar, inovar, industrializar e competir. Transforma-se quando cria empresas fortes, sectores estratégicos, conhecimento aplicado à produção e capacidade de transformar talento humano em riqueza nacional.
Em cinquenta anos, Cabo Verde não consolidou essas dimensões de forma estrutural.
Continua a importar uma parcela muito significativa daquilo que consome, permanece altamente dependente das remessas da diáspora, do turismo, da ajuda internacional e do investimento externo, sem conseguir afirmar um tecido produtivo suficientemente robusto para sustentar um ciclo autónomo de desenvolvimento.
Mais do que uma economia de produção, Cabo Verde construiu uma economia de circulação.
Circula dinheiro. Circulam importações. Circulam serviços. Circula financiamento externo.
Mas produz-se pouco. Esta é, talvez, a maior contradição do modelo económico cabo-verdiano.
Durante décadas celebrou-se o crescimento do Produto Interno Bruto, enquanto a base produtiva permanecia praticamente inalterada. Confundiu-se crescimento estatístico com transformação económica. E não são a mesma coisa.
Uma economia pode crescer durante anos sem criar riqueza estrutural. Pode aumentar o consumo sem aumentar a produção. Pode melhorar indicadores sociais sem reduzir a sua dependência externa. Pode apresentar estabilidade macroeconómica e continuar vulnerável perante crises internacionais.
Foi exatamente isso que a pandemia demonstrou. Bastou uma interrupção do turismo internacional para revelar a fragilidade de um modelo excessivamente concentrado em poucos motores económicos.
O problema nunca foi o turismo. O turismo representa uma oportunidade estratégica e continuará a ser fundamental para Cabo Verde. O problema foi a incapacidade de utilizar os recursos gerados por esse sector para construir uma economia mais diversificada, produtiva e resistente.
Talvez seja ainda mais incómoda outra pergunta:
Que legado económico produziram cinquenta anos de sucessivas gerações de economistas, gestores públicos e especialistas em desenvolvimento?
Cabo Verde formou centenas de quadros altamente qualificados, muitos deles em universidades de referência internacional. O país dispõe de economistas competentes, gestores preparados e técnicos reconhecidos.
No entanto, permanece uma questão legítima: essa inteligência nacional foi colocada ao serviço de uma verdadeira transformação económica ou foi sobretudo utilizada para aperfeiçoar a administração de um modelo dependente?
O problema não parece ter sido a falta de conhecimento técnico.
O problema terá sido a ausência de uma visão estratégica suficientemente ambiciosa para transformar conhecimento em capacidade produtiva.
Predominou uma lógica de administração, quando o país precisava de uma lógica de transformação.
Geriu-se a escassez com competência.
Criou-se pouca abundância.
É paradoxal que um país reconhecido pela qualidade dos seus recursos humanos continue sem afirmar uma indústria transformadora competitiva, uma economia azul de dimensão internacional, um sector tecnológico exportador ou uma estratégia consistente de industrialização inteligente.
Nenhuma nação enriqueceu apenas consumindo.
Nenhuma sociedade alcançou prosperidade sustentável apenas através das importações.
Nenhum pequeno Estado venceu a escassez sem criar uma especialização produtiva capaz de competir nos mercados internacionais.
Singapura fê-lo. Maurícia também. Outros pequenos Estados insulares encontraram nichos de excelência, transformando limitações geográficas em vantagens estratégicas.
Qual foi, afinal, a especialização económica construída por Cabo Verde ao longo destes cinquenta anos?
A resposta continua por escrever.
Naturalmente, seria intelectualmente desonesto ignorar os enormes constrangimentos do arquipélago: reduzida dimensão do mercado interno, fragmentação territorial, escassez de recursos naturais e elevados custos logísticos.
Mas precisamente porque essas limitações existem, exigia-se uma visão económica ainda mais inovadora.
Os países pequenos não podem competir pela dimensão.
Competem pela inteligência, pela tecnologia, pela diferenciação e pela criação de valor.
Talvez o maior erro das políticas económicas cabo-verdianas tenha sido acreditar que estabilidade equivalia a desenvolvimento.
Não equivale.
A estabilidade é apenas uma condição. Nunca foi o destino.
Chegados aos cinquenta anos da Independência, a verdadeira avaliação já não deve centrar-se apenas na gestão das contas públicas ou na capacidade de captar recursos externos. Deve centrar-se na capacidade de o país produzir riqueza, conhecimento, inovação e competitividade internacional.
Porque a pergunta decisiva deixou de ser quanto crescemos.
Passou a ser o que realmente construímos.
O desafio da próxima geração será substituir uma economia excessivamente dependente por uma economia fundada na produção, na inteligência, na industrialização tecnológica, na economia azul, na economia digital e no talento cabo-verdiano.
Se essa mudança não acontecer, Cabo Verde continuará a crescer sem transformar, a consumir sem produzir e a celebrar indicadores que, apesar da sua importância histórica, permanecerão insuficientes para garantir a prosperidade que o país ambiciona desde 1975.
Afinal, cinquenta anos depois da Independência, a pergunta fundamental permanece: terá Cabo Verde alguma vez tido uma verdadeira estratégia de transformação económica ou limitou-se, durante meio século, a gerir competentemente a escassez?

