Após mês e meio da entrada em vigor do Estatuto do Pessoal da Segurança Privada, o sector vive um momento de fragilidade e incerteza. Não se trata apenas da escassez de profissionais; o problema é mais profundo e prende-se com a ausência de qualidade, formação e ética, factores que têm vindo a comprometer a credibilidade desta profissão.

Paulo Brito
Paulo Brito, consultor em segurança, insiste que “todo vigilante deve assegurar a sua carteira profissional através da formação inicial como exige a lei”. Ignorar este princípio, no dizer deste conselheiro em segurança, abre caminho para a precarização e para a perda de reconhecimento público. Como salienta, “a contratação de candidatos sem vocação e sem preparação resulta em profissionais desmotivados, sem postura e sem sentido de missão”.
José Graça, docente universitário e antigo administrador de uma empresa de segurança, acrescenta que a formação contínua deve abranger não apenas agentes operacionais, mas também dirigentes e gestores. “Se não fizermos uma resignificação de todos os aspetos inerentes ao setor, corremos riscos de enfraquecer todo o Sistema Nacional de Segurança”, alerta.
Para Maria Lopes, funcionária de uma instituição pública, a questão é clara: “Quando entro num edifício e vejo vigilantes sem preparação, sinto que a segurança é apenas aparente. Precisamos de profissionais que transmitam confiança, não improviso.”
Ética e postura
O vigilante é, muitas vezes, o primeiro contacto entre a entidade e o público. A sua atitude e comportamento reflectem directamente na credibilidade da empresa. “Ser vigilante não é apenas ocupar um posto de trabalho, é proteger pessoas, património e transmitir confiança”, lembra Paulo Brito.
Quando esse elo falha, degrada-se não só a imagem da empresa, mas também a confiança social na função da segurança privada. A ausência de ética e profissionalismo transforma o que deveria ser proteção em mais um fator de insegurança. Um utente de serviços bancários sintetiza: “Se o vigilante não inspira respeito, não sentimos segurança, sentimos vulnerabilidade.”
Precariedade e salários
Elton, agente de segurança, dá voz à realidade quotidiana: “O salário ronda à volta dos 17 mil escudos. Depois de muita luta, ficou para ser alterado em 1 de Julho e ainda nada.”
Para José Graça os principais constrangimentos estão ligados a questões de índole Financeiras, Formativas e Sociais. Como afirma, os valores pagos pelos serviços estão muito aquém dos custos reais de formação. Como refere, a necessidade de recorrer a centros especializados e instrutores autorizados torna os investimentos incomportáveis.
Nos aspectos sociais, esse especialista dá conta de preconceitos e estereótipos que, a seu ver, continuam a desvalorizar o sector, dificultando a retenção dos melhores talentos. Fez saber ainda que a introdução dos APA (Agentes de Portos e Aeroportos) agravou ainda mais os custos, exigindo especialização em áreas críticas. Para Graça, só com concertação e apoio institucional será possível superar estes desafios.
Graça defende por isso um modelo assente num “tronco comum” de formação para agentes públicos e privados, à semelhança de Singapura. A recente cooperação entre a Polícia Nacional e a Polícia Municipal poderia ser alargada às empresas privadas, promovendo interoperabilidade e criando uma doutrina única de intervenção. Benefícios: maior coordenação, credibilidade e eficiência.
Desafios e mudança de mentalidade
Para Paulo Brito, esta integração é urgente. “Se queremos que a segurança privada seja de facto complementar à segurança pública, precisamos discutir o setor com seriedade, elevando os padrões e combatendo a indiferença.”
Segundo este entrevistado, entre os problemas mais graves destacam-se o Preço Indicativo de Referência (PIR): pouco aplicado, mas essencial para dignificar salários e valorizar agentes, falta de cooperação entre empresas privadas em que, no seu entender urge reativar a associação do sector.
Brito entende ainda que o sector precisa de ser reforçado para evitar concorrência desleal e garantir qualidade.
Reconhecimento institucional
O papel das empresas privadas continua subvalorizado, apesar de já integrarem responsabilidades internacionais. António Silva, funcionário público na Cidade da Praia, resume o sentimento popular: “A segurança privada devia ser um apoio à polícia, mas parece um parente pobre. Sem fiscalização séria, qualquer empresa pode aparecer e oferecer segurança barata. Mas barata para quem? Para nós, sai caro em insegurança.”
João A. do Rosário

