Cerca de 210 milhões de eleitores norte-americanos votam, esta terça-feira, 03 de novembro, nas eleições intercalares, as conhecidas midterms, que funcionam frequentemente como um termómetro político da Administração em funções. Os resultados vão definir quem irá controlar o Congresso e o Senado durante os últimos dois anos do segundo mandato presidencial de Donald Trump.
Nestas eleições intercalares, estão em disputa os 435 lugares da Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Congresso norte-americano, cujos membros são eleitos para mandatos de dois anos e onde as propostas de lei são, geralmente, apresentadas e debatidas.
Os republicanos controlam atualmente a Câmara dos Representantes com 218 assentos contra 214 democratas e um independente, Kevin Kiley, que se mantém alinhado com os republicanos. Há ainda dois lugares vagos. Para conquistar a maioria, é preciso que ou o Partido Democrata ou o Partido Republicano conquistem 218 lugares.
Já no Senado, a câmara alta, estão em disputa 35 dos 100 lugares. Os senadores são eleitos para mandatos de seis anos e, entre outras funções, analisam e votam as propostas de lei que chegam da Câmara dos Representantes. Os republicanos também controlam esse órgão com 53 lugares, contra 45 dos democratas e dois independentes, que se alinham com os democratas. Para garantir a maioria, são necessárias 51 cadeiras.
Outros cargos em disputa
Neste pleito eleitoral desta terça-feira, 03 de novembro, também estão em jogo 39 cargos de governador, com os eleitores a escolherem os líderes de 36 estados e de três territórios norte-americanos (Guam, as Ilhas Virgens Americanas e as Ilhas Marianas do Norte).
Além disso, estão em disputa milhares de lugares nas assembleias legislativas estaduais e vários cargos locais. Haverá ainda eleições para cargos judiciais e referendos sobre temas como os impostos, o direito ao aborto e as regras eleitorais.
Preocupações com o custo de vida e com a guerra
Os republicanos controlam atualmente o Congresso, mas enfrentam um contexto marcado por uma crescente preocupação com o custo de vida e com a guerra que o país trava, já há oito meses, contra o Irão.
O estado da economia norte-americana não sai da mente de grande parte do eleitorado, encostado à parede pelos elevados preços dos combustíveis e dos produtos alimentares, bem como pelos custos da habitação e dos cuidados de saúde.
De acordo com o estudo do Centro de Investigação de Assuntos Públicos (NORC) da agência de notícias norte-americana, The Associated Press (AP), realizado quando faltavam menos de quatro semanas das eleições, a economia e o custo de vida surgem como as principais preocupações, referidas por cerca de oito em cada 10 eleitores.
A saúde e a guerra contra o Irão são consideradas questões prioritárias por aproximadamente dois terços dos inquiridos, enquanto temas mais favoráveis a Trump, como imigração e criminalidade, surgem abaixo na lista de preocupações.
Os centros de dados, a Inteligência Artificial (IA), as tarifas, que elevam ainda mais os preços para os norte-americanos, continuam também a ser temas importantes e que, certamente, serão tidos em conta na hora do voto.
Corrupção: a maior preocupação de última hora
Vários meios de informação apontam a corrupção como outra preocupação de última hora para maioria dos americanos que consideram a falta de integridade no governo como um problema muito sério. A corrupção parece ser uma questão mais importante na hora de votar do que imigração, saúde ou inteligência artificial, e só perde para o custo de vida em termos de gravidade.
Os candidatos democratas mencionam constantemente a corrupção em seus discursos. Uma pesquisa da rede de televisão conservadora Fox News destacou que 88% do eleitorado se declarou “extremamente” ou “muito” preocupado com a corrupção no governo.
Outra pesquisa da Harris para o The Guardian revela resultados semelhantes: nove em cada dez americanos consideram a corrupção um problema, e 76% acreditam que os funcionários do governo estão mais preocupados em enriquecer a si mesmos do que em melhorar a vida de seus concidadãos.
Crescente riqueza pessoal de Donald Trump e sua família
As críticas aludem à crescente riqueza pessoal de Donald Trump e sua família, como Obama mencionou recentemente num dos seus discursos: desde o seu retorno à Casa Branca, o presidente acumulou mais de US$ 2,2 bilhões [cerca de € 1,964 bilhão], principalmente em negócios com criptomoedas ; um valor nunca visto, nem sequer próximo, em qualquer outro mandato presidencial.
Empresários próximos ao republicano e sua família obtiveram lucros enormes; o luxuoso salão de baile que o ex-magnata do setor imobiliário está construindo na ala leste da residência presidencial recebeu mais de US$ 300 milhões em doações privadas, incluindo US$ 25 milhões prometidos por cada uma das gigantes da tecnologia Apple e Nvidia.
Por outro lado, Trump se vangloria abertamente dos milhões que o setor de energia lucrou com as guerras atuais.
A sombra da suspeita não paira apenas sobre questões econômicas. Ela também se estende a problemas como a falta de transparência em relação aos arquivos do pedófilo Jeffrey Epstein.
“Há apenas seis meses, a corrupção não era uma das principais preocupações dos eleitores. Agora, a poucos dias das eleições de meio de mandato, tornou-se, sem dúvida, uma das principais questões. E o motivo é a crescente sensação de que ‘outros estão progredindo enquanto eu fico para trás’, e eles não acreditam que o sistema funcione. Acreditam que o sistema foi manipulado, pervertido e usado de forma ardilosa, e isso gera um ressentimento que será sentido no dia da eleição”, prevê o pesquisador e analista político Frank Luntz.
Pesquisas dão vitória aos democratas
As expectativas em relação aos democratas são elevadas nas eleições intercalares de hoje, depois de várias disputas se terem revelado mais renhidas do que o previsto nas últimas semanas. Alguns eleitores manifestaram descontentamento com o custo de vida e a taxa de aprovação de Donald Trump caiu.
As pesquisas apontam para uma vitória democrata, impulsionada pelo descontentamento com a economia e a corrupção, além da profunda impopularidade de Trump, que é desaprovado por 59,9% dos eleitores por sua gestão do custo de vida, da guerra contra o Irã e das tarifas, entre outras questões.
A vantagem referenciada é de mais de oito pontos percentuais para a oposição retomar o controle da Câmara dos Representantes, composta por 435 cadeiras, precisando conquistar apenas mais quatro cadeiras, que já somam 214.
Essas pesquisas sugerem que eles também poderiam controlar o Senado, com suas 100 cadeiras, algo que parecia impossível no início deste ano. Os democratas, que detêm 47 cadeiras, precisam conquistar pelo menos mais quatro. As pesquisas mostram disputas acirradas em pelo menos sete estados: Michigan, Alasca, Maine, Iowa, Ohio, Kansas e Texas. Apenas em Michigan a cadeira atual é ocupada por um democrata.
O presidente encerrou sua campanha no domingo com dois comícios, um em Iowa e outro no Kansas, depois de inicialmente tê-los cancelado porque, segundo ele, ambos os estados estavam em “boa situação” para os republicanos.
Lugares no Senado com maior probabilidade de mudar de partido
Não obstante os democratas acreditarem na conquista da maioria no Senado, várias disputas permanecem renhidas em estados tradicionalmente republicanos, onde o resultado ainda pode favorecer qualquer um dos partidos.
No entanto, a CNN aponta os seguintes lugares (11) no Senado com maior probabilidade de mudar de partido:
1. Carolina do Norte
O democrata Roy Cooper liderava por 14 pontos percentuais o candidato republicano ao Senado, Michael Whatley, entre os eleitores mais prováveis de votar, segundo uma sondagem final da High Point University/YouGov.
2. Ohio
A média das sondagens compiladas pela CNN indica que o antigo senador Sherrod Brown lidera por cinco pontos percentuais o republicano Jon Husted, atual senador, com 50% contra 45%.
3. Texas
Duas sondagens — uma do New York Times/Siena e outra da CNN — mostram o candidato democrata ao Senado, James Talarico, à frente do republicano Ken Paxton, com uma vantagem superior à margem de erro.
4. Maine
A média das sondagens compiladas pela CNN aponta para uma vantagem de quatro pontos percentuais do democrata Troy Jackson sobre a senadora republicana em funções, Susan Collins: 50% contra 46%.
5. Alasca
Uma sondagem do New York Times/Siena não identificou um líder claro na disputa entre a antiga congressista democrata Mary Peltola e o senador Dan Sullivan: 48% contra 46%.
6. Kansas
Uma sondagem do New York Times/Siena colocou o democrata Adam Hamilton à frente do senador Roger Marshall, com 49% contra 44%. Já uma sondagem da CNN, realizada pela SSRS, não identificou um candidato claramente na liderança.
7. Iowa
A média das sondagens compiladas pela CNN não aponta para um líder claro na disputa entre o democrata Josh Turek e a congressista republicana Ashley Hinson, que registam, respetivamente, 46% e 45%.
8. Michigan
A média das sondagens da CNN coloca o democrata Abdul El-Sayed na liderança, com 50%, contra 45% do republicano Mike Rogers. Entre os estudos considerados está uma sondagem do New York Times/Siena, que atribuiu a El-Sayed uma vantagem de 11 pontos percentuais.
9. New Hampshire
Uma sondagem do Centro de Estudos de Opinião Pública da Universidade de New Hampshire atribuiu uma vantagem de 12 pontos percentuais ao congressista democrata Chris Pappas sobre o antigo senador republicano John Sununu, entre os eleitores mais prováveis de votar no estado.
10. Carolina do Sul
Uma sondagem do New York Times/Siena mostrou um empate entre a senadora republicana nomeada para o cargo, Darline Graham, e a candidata democrata Annie Andrews.
11. Geórgia
O senador democrata Jon Ossoff tem registado resultados superiores aos do congressista republicano Mike Collins ao longo da campanha.
Resultados das últimas eleições intercalares
Há quatro anos, nas últimas eleições intercalares, os democratas superaram as expectativas. O partido do então presidente Joe Biden manteve o controlo do Senado, onde conquistou um lugar, enquanto os republicanos conseguiram apenas mais nove lugares na Câmara dos Representantes, alcançando uma maioria tangencial de 222 contra 223.
Tal como este ano, as sondagens à boca das urnas de 2022 mostraram que a maioria dos eleitores estava insatisfeita com a situação económica e com o Presidente, condições que normalmente resultam em perdas mais expressivas para o partido que ocupa a Casa Branca. No entanto, outros fatores políticos favoreceram os democratas, nomeadamente os debates em torno do aborto.
As eleições intercalares realizaram-se poucos meses depois de o Supremo Tribunal ter revogado a decisão Roe v. Wade, uma decisão que, segundo as sondagens à boca das urnas, foi desaprovada por seis em cada dez eleitores. Em vários estados, os eleitores aprovaram medidas de proteção do direito ao aborto ou rejeitaram novas restrições.
Além disso, 28% dos eleitores afirmaram que pretendiam utilizar o seu voto para manifestar oposição a Donald Trump, antigo e futuro Presidente, uma percentagem próxima da registada entre aqueles que disseram querer expressar oposição a Biden.
O processo de redistribuição dos círculos eleitorais de 2020 resultou num menor número de distritos competitivos para a Câmara dos Representantes em 2022. Os republicanos controlaram o processo de redistribuição em mais estados, mas acabaram por conseguir apenas uma vantagem modesta à escala nacional nos novos mapas eleitorais.
C/Agências Internacionais de Notícias

