
Por: António Santos
Quando o governo vendeu o vistoso pacote do “Cabo Verde para todos”, o eleitor comum acreditou genuinamente que tinha adquirido um produto universal.
Afinal, a embalagem prometia meritocracia, transparência e oportunidades para os mais de meio milhão de cabo-verdianos.
No entanto, bastou abrir a caixa pós-eleitoral para perceber que o consumidor comprou, na verdade, o clássico gato por lebre.
A letra miudinha do contrato aquela que as páginas de humor e os internautas agora fazem questão de ler em voz alta revela que o conceito de “todos” sofreu uma mutação linguística fascinante.
Na prática, o “todos” converteu-se num clube VIP altamente restrito. Se o cidadão comum não partilha o apelido certo, não cresceu na mesma zona balnear ou não possui o cartão de militante devidamente carimbado, fica a ver o “todos” passar na carruagem dos nomeados.
A lista de quem realmente usufrui deste Cabo Verde exclusivo inclui categorias fundamentais para o funcionamento do Estado (segundo a ótica da sobrevivência familiar):
• O primo em segundo grau que precisava urgentemente de uma direção-geral para compor o currículo;
• O vizinho de infância cujo único mérito operacional foi partilhar a bola de futebol na juventude;
• Os cunhados e compadres que garantem que os almoços de domingo continuem harmoniosos e bem financiados;
• A ex-esposa ou o ex-marido, porque manter a paz conjugal retroativa também parece ser uma prioridade de interesse público.
Em suma, o slogan não mentiu; apenas omitiu que, para se qualificar como “todos”, é obrigatório fazer parte da árvore genealógica ou do círculo de amigos de quem assina os despachos no Boletim Oficial.
31.10.2026

