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A festa das eleições, a embriaguez da vitória e a maturidade da democracia

Por: Estêvão Rodrigues

Uma reflexão sobre a adrenalina das campanhas eleitorais e a arte de conviver na diferença

Há qualquer coisa de fascinante na atmosfera das campanhas eleitorais. Uma adrenalina colectiva apodera-se das pessoas, desperta paixões, mobiliza vontades, aproxima desconhecidos e transforma a rotina das comunidades numa festa de participação política.

Mesmo convencidos da força e até da invencibilidade do nosso candidato, a ansiedade não nos abandona. Os dias parecem mais curtos, as noites mais longas e cada notícia ou manifestação de apoio é vivida com intensidade. A vitória parece próxima, mas, enquanto os votos não forem contados, a inquietação mantém os activistas em alerta.

Como se costuma dizer, não devemos dormir à sombra da bananeira. Em política, nenhuma vitória está antecipadamente garantida. A confiança deve caminhar de mãos dadas com o trabalho, a organização, a mobilização e o diálogo com os eleitores. É preciso estar nas comunidades, escutar as pessoas, apresentar propostas e utilizar os instrumentos legais de participação política.

Uma campanha não se alimenta apenas de discursos e comícios. Vive também dos encontros, convívios, abraços, música e conversas improvisadas. Há que criar dinâmicas que deixem boas recordações, daquelas que fazem nascer saudades depois da festa eleitoral. Afinal, também se faz política através da emoção, da proximidade e das relações humanas.

Quando os ânimos aquecem e a temperatura eleitoral sobe, há sempre quem deseje prolongar indefinidamente a festa. Alguns activistas parecem pouco dispostos a aceitar que a campanha tenha princípio e fim, como se a contagem dos votos, a proclamação dos resultados e até a tomada de posse não devessem interromper a animação. Pudera! Há sempre uma nova batalha à espera e outro ciclo eleitoral a preparar!

As eleições também movimentam a economia. Aumenta a procura de camisolas, bonés, bandeiras, cartazes, serviços gráficos, transportes, alimentação e bebidas. Surgem oportunidades temporárias para activistas, delegados de mesa, motoristas e profissionais da comunicação, enquanto estrategas e consultores encontram terreno fértil para exercer as suas competências.

Há quem sonhe com eleições todos os anos, sobretudo porque a sua proximidade parece acelerar obras públicas, inaugurações e visitas dos governantes às comunidades. Não admira que a festa tenha tantos admiradores!

Outro fenómeno curioso é a súbita aproximação dos candidatos aos eleitores. Multiplicam-se apertos de mão, abraços, beijos e fotografias; mercados, bairros e comunidades tornam-se paragens obrigatórias. Por vezes, os eleitores cansam-se de tantas mãos estendidas e beijos de conhecidos e desconhecidos! É a democracia no seu lado mais humano, mas também teatral.

Talvez esta seja a maior lição da experiência eleitoral: a campanha pode ser uma competição apaixonada, a vitória um motivo de celebração e a derrota uma causa de tristeza. Mas nenhuma delas deve destruir os laços que nos unem enquanto povo. (…) A democracia só amadurece verdadeiramente quando vencedores e vencidos compreendem que, acima das diferenças políticas, continuam a ser companheiros de uma mesma caminhada nacional.

Todavia, por detrás desta animação, esconde-se uma questão essencial: será que a democracia se esgota na conquista do poder através do voto? Ou a sua verdadeira maturidade revela-se na forma como os protagonistas convivem depois de conhecidos os resultados?

É precisamente aqui que a festa eleitoral deve ceder lugar à responsabilidade democrática.

Em «On Democracy» (1998), Robert A. Dahl identifica o pluralismo, a participação, a competição política e o reconhecimento da oposição como elementos fundamentais da democracia. Esta não exige unanimidade; pressupõe a diversidade de opiniões e projectos.

Por seu lado, Pippa Norris, em «Why Electoral Integrity Matters» (2014), destaca a integridade eleitoral como factor de confiança nas instituições e de legitimidade dos governantes. A qualidade da democracia depende também da credibilidade institucional, do respeito pelas regras e da garantia dos direitos de todos.

Perder eleições não pode significar exclusão política ou social. Quem obtém menos votos continua a ser cidadão de pleno direito, com dignidade, direitos, aspirações e contributos para a sociedade.

Do mesmo modo, vencer não significa adquirir o país como propriedade privada. A vitória confere um mandato para governar, não um título de propriedade sobre a nação. Aos vencedores cabe governar com sentido de Estado, respeitando as instituições, as minorias e a diversidade de opiniões. Governar com todos e para todos, incluindo aqueles que não votaram na sua candidatura.

A oposição, por sua vez, não deve ser tratada como inimiga do Estado  ou obstáculo à governação. A sua missão é fiscalizar, questionar, apresentar alternativas e assegurar que o exercício do poder permaneça sujeito ao escrutínio público. Divergir não é trair; criticar não é destruir; perder eleições não é perder a pátria.

Neste contexto, a experiência democrática de Cabo Verde merece particular atenção. A alternância política, já experimentada no país, demonstra que o poder pode mudar de mãos sem transformar a sociedade num campo de vencedores e vencidos irreconciliáveis. Hoje governa uma força política; amanhã poderá governar outra. O país permanece, a cidadania permanece e os desafios colectivos continuam.

Seria desejável colocar a energia e a capacidade de mobilização das campanhas ao serviço da construção nacional entre eleições: transformar convívios em espaços de diálogo, abraços eleitorais em relações duradouras de respeito e promessas em compromissos concretos.

A democracia não pode ser uma festa reservada aos vencedores, nem um luto prolongado para os vencidos. Não deve haver cidadãos  de primeira e de segunda em função das escolhas feitas nas urnas. Muito menos se deve confundir fidelidade partidária com patriotismo ou divergência política com falta de amor à pátria.

No fundo, as eleições são momentos de escolha, não de separação definitiva. Os votos determinam quem recebe, temporariamente, a responsabilidade de governar, mas não quem merece pertencer à nação.

Quem perde mantém o direito de viver no seu país, trabalhar, empreender, participar, criticar e contribuir para o desenvolvimento nacional. Quem ganha deve compreender que a vitória ganha significado na capacidade de unir, respeitar e servir todos os cidadãos.

Talvez esta seja a maior lição da experiência eleitoral: a campanha pode ser uma competição apaixonada, a vitória um motivo de celebração e a derrota uma causa de tristeza. Mas nenhuma delas deve destruir os laços que nos unem enquanto povo.

Porque as campanhas terminam, os resultados são proclamados, os governos tomam posse e os mandatos chegam ao fim. Mas a pátria continua. E a democracia  só amadurece verdadeiramente quando vencedores e vencidos compreendem que, acima das diferenças políticas, continuam a ser companheiros de uma mesma caminhada nacional.

Referências bibliográficas

•DAHL, Robert A. (1998). On Democracy. New Haven: Yale University Press.

•NORRIS, Pippa (2014). Why Electoral Integrity Matters. Cambridge: Cambridge University Press.

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