
Por: Prof. Dr. Julio C. de Carvalho*
Conforme escrevi no meu mais recente livro, Nasci em Cabo Verde, a minha identidade foi marcada, desde o início, por uma profunda contradição histórica. Embora geograficamente africanos, ao nascer não éramos cidadãos africanos no sentido político, mas sim portugueses. Essa condição, herança direta do sistema colonial, criou uma dualidade que moldou toda uma geração: africanos pela origem e pela cultura, mas portugueses pela lei, sem, contudo, sermos plenamente aceites como tal.
Como destaca a UNESCO, os processos de construção identitária em contextos coloniais frequentemente geram sentimentos de pertença incompleta, ou seja, de dupla pertença. Crescemos, assim, entre dois mundos, sem integração total em nenhum deles. Essa realidade marcou profundamente a minha infância, muito antes de eu ter consciência ou linguagem para a compreender.
A independência de Cabo Verde, proclamada em 1975, um marco histórico, trouxe esperança e a promessa de autodeterminação. Recordo-me vividamente da solenidade do ato no Estádio da Várzea, um momento carregado de simbolismo e de expectativas para o futuro da nação.
Contudo, ao longo das décadas, a evolução do país revelou dinâmicas complexas. Alguns cidadãos prosperaram e alcançaram sucesso, enquanto outros permaneceram à margem dessas oportunidades. A minha própria trajetória reflete essa dualidade: sou, inegavelmente, produto de Cabo Verde, mas também dos Estados Unidos, país que me proporcionou oportunidades que nem sempre estavam acessíveis a todos na minha terra natal.
Durante o período do partido único, como relata o Banco Mundial em estudos sobre governança e desenvolvimento, o acesso a oportunidades era frequentemente condicionado por critérios seletivos. Mais tarde, com a transição para o multipartidarismo, esperava-se uma democratização plena das oportunidades. No entanto, emergiram novas formas de exclusão, agora baseadas na filiação partidária, a chamada “cor da camisola”.
Essa realidade levanta uma questão essencial: até que ponto o mérito individual tem sido o verdadeiro critério de progresso em Cabo Verde? A experiência de muitos cidadãos sugere que, frequentemente, o sucesso está mais ligado à proximidade política do que ao esforço, à competência ou à dedicação.
Por viver fora de Cabo Verde, encontro inúmeros profissionais altamente qualificados, espalhados pelo mundo, dispostos a contribuir para o desenvolvimento do país. No entanto, muitos sentem-se afastados por não terem ligação com o partido que governa, o que limita a sua participação efetiva na construção nacional.
Diante desta realidade, impõe-se uma reflexão séria sobre os mecanismos de inclusão e de valorização de talentos. Cabo Verde precisa abraçar uma cultura política e institucional assente no mérito, na transparência e na justiça. Combater o compadrio e rejeitar a promoção da mediocridade não é apenas uma opção; é uma condição indispensável para o desenvolvimento sustentável do país. Afinal, o cabo-verdiano mantém a sua identidade e o seu valor, onde quer que esteja. Nôs tudu nôs é fidju, ka ten fidju dentu e fidju fora.
Mais do que nunca, é tempo de os cabo-verdianos reassumirem o protagonismo sobre o seu próprio destino coletivo. Um verdadeiro equilíbrio institucional e parlamentar pode abrir caminho para uma sociedade mais justa, em que todos tenham oportunidade de contribuir e prosperar.
No final, a questão é simples, mas fundamental: que tipo de país queremos construir? Um em que o sucesso depende da filiação política, ou um em que o mérito e o esforço são os pilares do desenvolvimento? A resposta dos políticos e do povo cabo-verdiano a esta pergunta definirá o futuro de Cabo Verde.
* Académico e docente residente nos Estados Unidos, o Professor Doutor Júlio C. de Carvalho é militante da União Caboverdeana Independente e Democrática (UCID), partido político cabo-verdiano, foi indicado para liderar a lista do partido no círculo de África nas eleições legislativas de maio de 2026, evidenciando o seu compromisso contínuo com a participação cívica e o desenvolvimento político no espaço africano.

