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A diáspora como activo estratégico de Cabo Verde

Por: Jorge Humberto Fernandes

Da memória à potência: transformar presença global em poder nacional

Cabo Verde nunca foi apenas território, é também e desde sempre, movimento. Desde os primeiros ciclos migratórios, a nação construiu-se numa geografia expandida, onde o arquipélago físico convive com um arquipélago humano disperso pelo mundo. Estima-se hoje que a diáspora cabo-verdiana ultrapasse largamente o número de residentes no território nacional, podendo situar-se entre 700 mil e 1 milhão de pessoas, face a uma população interna de pouco mais de meio milhão. Esta realidade não é apenas demográfica, é estrutural. É uma extensão viva do país no mundo. 

A presença global de Cabo Verde e da sua diáspora traduz-se, desde logo, num impacto económico mensurável. As remessas dos emigrantes representam, de forma consistente, entre 10% e 15% do Produto Interno Bruto (PIB) de Cabo Verde, constituindo uma das principais fontes de entrada de divisas, a par do turismo e do investimento externo. 

Em determinados momentos, este fluxo financeiro foi mesmo superior ao investimento direto estrangeiro. Trata-se de um contributo silencioso, indelével e decisivo, para a estabilidade macroeconómica, para o consumo interno e para a coesão social. Contudo, este modelo, assente quase exclusivamente na transferência de rendimento, revela hoje sinais claros de esgotamento estratégico. 

A diáspora cabo-verdiana claramente mudou. Já não é apenas força de trabalho emigrada; é, cada vez mais, uma comunidade de conhecimento, inovação e influência. Médicos, engenheiros, académicos, empresários, quadros altamente qualificados integram hoje redes globais de valor, um autêntico e experienciado networking.  Reduzir esta realidade ao papel de remetente de divisas é, no mínimo, uma visão curta e no limite um erro estratégico grave. 

Como advertia Manuel Castells, “o poder na sociedade contemporânea reside na capacidade de construir redes e de nelas se posicionar com inteligência”. A República de Cabo Verde tem na sua diáspora uma rede global já construída. Falta a aplicação da inteligência e do saber estratégico, para poder potencia-la e extrair daí resultados fluídos para o desenvolvimento global dos cabo-verdianos e das suas comunidades.

O desafio contemporâneo é, por isso, mais exigente e mais ambicioso: transformar remessas em investimento estruturante, converter pertença emocional em compromisso económico ativo e mobilizar redes externas como plataformas de aceleração do desenvolvimento interno. Isto implica abandonar definitivamente uma visão assistencialista da diáspora e adotar uma abordagem estratégica, integrada e orientada para os resultados. Como sublinha Amartya Sen, “o desenvolvimento consiste na expansão das capacidades humanas” e são poucas as nações que dispõem de uma base de capacidades humanas tão globalmente distribuída como Cabo Verde.

Pensar a diáspora como ativo estratégico implica uma definida mudança de paradigma. 

Pensar a diáspora como ativo estratégico implica uma definida mudança de paradigma. Em primeiro lugar, é necessário transitar de uma lógica de assistência para uma lógica de investimento, criando instrumentos capazes de canalizar recursos da diáspora para sectores produtivos e estruturantes: economia digital, agroindústria, turismo sustentável, energias renováveis, indústrias criativas. Não se trata apenas de captar capital por capital, mas de construir ecossistemas de oportunidades onde esse capital possa gerar valor, criar emprego e projetar inovação.

Em primeiro lugar, é necessário transitar de uma lógica de assistência para uma lógica de investimento, criando instrumentos capazes de canalizar recursos da diáspora para sectores produtivos e estruturantes: economia digital, agroindústria, turismo sustentável, energias renováveis, indústrias criativas. Não se trata apenas de captar capital por capital, mas de construir ecossistemas de oportunidades onde esse capital possa gerar valor, criar emprego e projetar inovação. 

Em segundo lugar, é indispensável ultrapassar a fragmentação. A diáspora cabo-verdiana é extensa e dispersa. Falta-lhe uma arquitetura de ligação eficaz de uma infraestrutura institucional e digital que permita mapear as competências da mesma, conectar os talentos e estruturar os projetos com base em critério sérios de responsabilidade. 

Em terceiro lugar, impõe-se evoluir da representação simbólica para a participação efetiva no contexto da nação global que somos. A diáspora cabo-verdiana não pode continuar a ser apenas evocada em discursos, independentemente da sua base e orientação ideológica, deve ser integrada de forma concreta nos processos de decisão e nos mecanismos de desenvolvimento nacional, tendo como objetivo o desenvolvimento da nacionalidade cabo-verdiana global em estreita relação com os demais países do espaço da lusofonia, e em perfeita comunhão com a União Europeia, África e outras latitudes onde os cabo-verdianos se afirmam como comunidades inteligentes, capacitadas e preparadas para o presente e para o futuro.

Neste contexto, o futuro imediato coloca três exigências estratégicas incontornáveis. 

A primeira é a criação de um verdadeiro Sistema Nacional de Mobilização da Diáspora, uma efetiva plataforma inteligente, tecnológica e orientada para os resultados, capaz de identificar competências, promover parcerias e transformar intenções em projetos concretos. 

A segunda é o desenvolvimento de instrumentos financeiros inovadores: obrigações da diáspora, fundos de investimento temáticos, mecanismos de co-investimento que permitam converter a poupança em capital produtivo e reduzir a dependência de fluxos externos tradicionais. 

A terceira é a afirmação de uma diplomacia económica da diáspora, reconhecendo as comunidades cabo-verdianas no exterior como autênticas extensões estratégicas do Estado, constituindo-se em verdadeiras embaixadas económicas, culturais e tecnológicas. 

A questão central, portanto, não é saber se a diáspora é importante, porque isso é um dado há muito adquirido. A questão decisiva é saber se Cabo Verde no seu todo está preparado para a tratar como aquilo que ela realmente é: um dos seus mais poderosos instrumentos de inserção global no século XXI. Num mundo onde a escala é determinante e onde os pequenos Estados enfrentam limitações estruturais, a única forma de competir é ampliar essa escala através de redes. Cabo Verde já dispõe dessa rede, mas tem faltado os elementos convenientes para a transformar em estratégia nacional. 

Durante décadas, a diáspora foi cantada como saudade, resistência e identidade de um povo, mas o tempo presente exige uma nova etapa histórica. Exige que a diáspora deixe de ser apenas memória e se transforme em método. Que deixe de ser apenas emoção e se afirme como engenharia de desenvolvimento, porque, no essencial o futuro de Cabo Verde não está apenas nas suas ilhas, mas também na inteligência estratégica com que souber mobilizar os seus filhos espalhados pelo mundo.

E essa não é apenas uma oportunidade. É, muito provavelmente, a mais decisiva escolha estratégica que o país tem diante de si.

27 de Abril de 2026

Fontes de Consulta e Referências:

. Governo de Cabo Verde – Plano Estratégico  de Desenvolvimento Sustentável (PEDS II) 

. Banco Mundial – Migration and Remittances Data 

. Fundo Monetário Internacional –  Relatórios macroeconómicos de Cabo Verde 

. Banco de Cabo Verde – Estatísticas de remessas e sistema financeiro 

. Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde – Indicadores socioeconómicos 

. Nações Unidas – Relatórios sobre migração internacional 

. Organização Internacional para as Migrações — Estudos sobre diáspora 

. Manuel Castells — A Sociedade em Rede 

. Amartya Sen — Development as Freedom 

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