A poucos dias das eleições legislativas, Christian Lopes, gestor ligado ao sector da aeronáutica, não esconde a sua perplexidade perante o silêncio desta campanha eleitoral face à crise no Médio Oriente e as consequências que isso pode significar para Cabo Verde. “Cada litro de gasolina que encarece lá fora traduz-se em mais escudos pagos cá dentro”, afirma, apontando para o impacto directo no bolso dos cidadãos.
A poucos dias das elei ções de 17 de Maio, o cidadão e quadro formado em gestão, Christian Lopes, considera incompreensível que, em plena convulsão internacional, marcada pela instabilidade no Médio Oriente e pela escalada dos preços do petróleo, os candidatos e os partidos nada digam sobre um assunto que toca directamente a vida das famílias e a sustentabilidade da economia nacional.
A poucos dias das eleições de 17 de Maio, o cidadão e quadro formado em gestão, Christian Lopes, considera incompreensível que, em plena convulsão internacional, marcada pela instabilidade no Médio Oriente e pela escalada dos preços do petróleo, os candidatos e os partidos nada digam sobre um assunto que toca directamente a vida das famílias e a sustentabilidade da economia nacional.
“É como se estivéssemos a discutir o futuro do país de costas voltadas para o mundo”, afirma, sublinhando que a omissão não é apenas estratégica, mas revela, antes, uma falta de responsabilidade política. “É como se a crise petrolífera fosse um fenómeno distante, que nada tem a ver com a nossa vida”, pontua.
O entrevistado do A NAÇÃO recorda que Cabo Verde é altamente dependente das importações de combustíveis, cujas crises costumam impactar de forma imediata na economia deste arquipélago. O aumento dos preços internacionais repercute-se no custo da energia, no transporte público e privado, e até na inflação dos bens alimentares.
“Cada litro de gasolina que encarece lá fora traduz-se em mais escudos pagos cá dentro”, afirma, apontando para o impacto directo no bolso dos cidadãos.
Por isso, a seu ver, a ausência de debate sobre este tema na campanha eleitoral que encerra amanhã é um erro grave, porque impede que os eleitores compreendam as medidas que poderiam ser tomadas para mitigar os efeitos da crise e que poderão surgir mal a campanha termine.
Segundo Lopes, a instabilidade no Médio Oriente não é apenas uma questão geopolítica distante, mas um factor que condiciona o mercado global de energia. Salienta que os conflitos na região, a insegurança nas rotas de abastecimento e a volatilidade das alianças internacionais criam um ambiente de incerteza que afecta todos os países, incluindo Cabo Verde.
“Não podemos fingir que estamos isolados. O mundo bate à nossa porta todos os dias, através dos preços que pagamos e das dificuldades que enfrentamos”, frisa.
Este entrevistado vai mais longe, criticando a postura dos economistas nacionais, que, segundo ele, têm evitado pronunciar-se sobre o tema. “Os que sabem calam-se, e os que não sabem falam alto”, disse, numa frase que resume a sua indignação.
Esta ausência de vozes credíveis num momento particular em que o país vive contribui, no dizer deste quadro e cidadão, para a desinformação e fragilização ainda mais da capacidade da sociedade de exigir soluções concretas para os problemas que o partido vencedor das eleições de domingo terá de enfrentar.
Como defende, os partidos deveriam explicar claramente como pretendem lidar com os choques externos, que políticas energéticas defendem e que alternativas estão dispostos a explorar.
Uma outra necessidade neste debate é a urgência de diversificação. Cabo Verde, como também alerta, não pode continuar refém da importação de combustíveis fósseis, devendo acelerar a aposta nas energias renováveis, sobretudo solar e eólica.
“Temos sol e vento em abundância, mas falta vontade política para transformar esse potencial em independência energética”, afirma.
Christian Lopes alerta que a crise dos combustíveis não é apenas uma questão macroeconómica, mas tem efeitos concretos na vida quotidiana. O aumento dos preços do transporte público afecta estudantes, trabalhadores e famílias inteiras. A inflação energética repercute-se nos custos de produção e, por consequência, nos preços dos alimentos.
“Quando o petróleo sobe, a mesa do cabo-verdiano fica mais pobre”, disse, numa imagem que traduz a ligação directa entre a geopolítica internacional e a realidade doméstica.
Em relação à campanha, como nota Christian Lopes, os candidatos preferem centrar- -se em promessas fáceis e em slogans de continuidade ou mudança, evitando assuntos complexos que exigem explicações detalhadas e compromissos sérios, enfim, uma estratégia que privilegia o curto prazo e a conquista de votos, em detrimento da preparação para os desafios estruturais.
“É mais cómodo falar de obras e inaugurações do que enfrentar a crise energética global”, ironiza.
Christian Lopes lança por isso um apelo à sociedade civil e aos meios de comunicação, académicos e líderes comunitários, a pressionarem os partidos a incluir o tema da crise petrolífera e do Médio Oriente no debate público. Só assim, acredita, será possível construir uma cidadania informada e exigir políticas que protejam o país dos choques externos.
“O silêncio é cúmplice. Se não falamos, aceitamos. E aceitar é condenar Cabo Verde a viver sempre vulnerável”, conclui.
Quem Christian Lopes?
Christian Lopes é cabo-verdiano, natural da ilha do Sal. É licenciado e mestre em Gestão pela Universidade de Aveiro, e frequenta o mestrado em Operações de Transporte Aéreo no ISEC Lisboa. Desenvolve reflexão escrita em áreas diversas, incluindo política, economia, sociedade, juventude, sustentabilidade e geopolítica. Como diz, pertence a uma geração que defende “uma visão estratégica, institucional, pragmática e orientada para o futuro de Cabo Verde”.
João A. do Rosário
Publicado na Edição 976 do Jornal A Nação, de 14 de Maio de 2026

