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Novas promessas e velhas necessidades

Por: Denilse Ramos*

Passam cinco anos e, de repente, o que parecia distante entra no quotidiano das pessoas. Quase como uma tradição, as ruas se tornam mais coloridas, os sons mudam, mas, as letras continuam as mesmas. Surgem cartazes, aumenta o movimento de gente e, em cada porta, multiplicam-se visitas, reuniões, discursos e promessas.

A política torna-se o assunto do momento. Mas, no meio desse movimento, permanece uma sensação que atravessa muitos dos depoimentos recolhidos na cidade da Praia: mudam os tempos, mudam os rostos, mas muitas promessas continuam as mesmas: emprego  para os jovens, melhoria da saúde, mais segurança, transportes dignos, estradas e melhores condições de vida.

São  temas que regressam de eleição em eleição porque continuam a reflectir a realidade diária das pessoas. Não são promessas novas – são necessidades antigas. Necessidades que se tornam prioridade em cada campanha, repetindo-se de cinco em cinco anos.

Talvez por isso muitos jovens já não se deixem impressionar com a facilidade de outros tempos. O entusiasmo que antes preenchia ruas e bairros parece hoje mais contido. Alguns olham para a campanha com distância, eu diria mesmo, com prudência redobrada. Não porque tenham deixado de se preocupar com o país, mas porque aprenderam a medir as palavras pela experiência.

Mudanças temporárias

Nos depoimentos ouvidos, uma crítica surgiu várias vezes: a proximidade que aparece apenas em época eleitoral. Durante estes dias e semanas, ou até meses, os candidatos visitam bairros, escutam moradores, entram nas comunidades e prometem soluções. Depois, mal as urnas se esvaziam, o silêncio regressa. É essa ausência que alimenta o desencanto.

Ainda assim, por causa da campanha, nalguns bairros também se notam mudanças visíveis. Uma rua é calcetada, um poste é colocado, uma obra começa. São sinais rápidos e imediatos. Mas a população já não procura apenas respostas imediatas – procura respostas mais profundas e duradouras. 

Fala-se de saúde, de segurança, de oportunidades para os jovens e de serviços públicos que funcionem de forma regular. São mudanças que não cabem apenas no calendário eleitoral.

Ainda assim, no meio de tantas promessas repetidas, permanece uma ideia essencial: votar continua a ter valor. Mesmo quem se mostra descontente reconhece que o voto – ainda que seja em branco ou nulo – é uma forma de participação e de mensagem. Talvez essa seja a esperança mais silenciosa destas eleições: a de que, apesar das desilusões acumuladas, ainda exista vontade de exigir mais. No fundo, as eleições voltam a colocar o país diante de uma pergunta simples: desta vez haverá apenas novas promessas ou, finalmente, respostas para velhas necessidades das pessoas e dos cidadãos, a razão da democracia?

“Que democracia é esta?”

Entre alguns cidadãos, surge mesmo a crítica directa: que democracia é esta em que o povo tem voz apenas em época eleitoral, através de uma cruz no boletim de voto?

Entre os jovens, nota-se um sentimento particular. Há vontade de participar, mas também desconfiança. Há quem queira acreditar, mas exige coerência entre o discurso e a prática. Há quem procure oportunidades de estudo, emprego e condições para construir o próprio futuro em Cabo Verde. Quando essas expectativas não encontram resposta, a política perde força junto de quem mais deveria mobilizar.

Promessas antigas e esperança

Ainda assim, no meio de tantas promessas repetidas, permanece uma ideia essencial: votar continua a ter valor. Mesmo quem se mostra descontente reconhece que o voto – ainda que seja em branco ou nulo – é uma forma de participação e de mensagem.

Talvez essa seja a esperança mais silenciosa destas eleições: a de que, apesar das desilusões acumuladas, ainda exista vontade de exigir mais.

No fundo, as eleições voltam a colocar o país diante de uma pergunta simples: desta vez haverá apenas novas promessas ou, finalmente, respostas para velhas necessidades das pessoas e dos cidadãos, a razão da democracia?

*Estagiária

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