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Economia

Impactos da guerra no Médio Oriente: BCV prevê abrandamento da actividade económica nacional

O Banco Central avançou esta semana que Cabo Verde deverá registar um “abrandamento” da sua actividade económica até final deste ano. Isto tendo em conta os eventuais impactos da conjuntura internacional marcada pelo agravamento das tensões geopolíticas, em particular no Médio Oriente, pela persistência da guerra na Ucrânia e pelo aumento da incerteza global. Segundo o BCV, estas e outras condicionantes haverão de impactar no preço dos produtos importados, de forma geral.

Os dados do Banco de Cabo Verde (BCV) constam do Relatório de Política Monetária (RPM) de Abril ora divulgados. Segundo o documento, nos primeiros meses deste ano, o agravamento das tensões no Médio Oriente e o aumento dos preços internacionais do petróleo “intensificaram” os riscos para a economia mundial, “pressionando” os preços da energia, dos transportes e dos bens alimentares. Tendo, naturalmente, repercussões em Cabo Verde que depende, em mais de 90% das importações.

“Para uma economia pequena, aberta e dependente das importações, como a cabo-verdiana, estes choques externos tendem a repercutir- -se nos preços internos, com impacto no consumo das famílias e nos custos das empresas”, explica o relatório.

Neste contexto, as projeções do BCV apontam para um “abrandamento da actividade económica nacional” em 2026, com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) a rondar os 5%, “próximo do seu potencial de crescimento”. Já para 2027, as projecções do BCV apontam para uma “recuperação moderada” da actividade económica, com o PIB a crescer à volta de 4,9%.

Inflação de 2,7% em 2026

De acordo com o referido documento, a inflação deverá aumentar para 2,7% em 2026, como reflexo do impacto do aumento, dos preços, da energia e dos produtos alimentares importados, prevendo-se que, em 2027, reduza para 1,8%, acompanhando o que se espera que seja a normalização dos preços internacionais.

“As contas externas deverão desacelerar em 2026, para 2,1% do PIB refletindo a moderação das receitas do turismo, das remessas e das entradas líquidas de financiamento externo. Ainda assim, as reservas internacionais deverão manter-se em níveis confortáveis, garantindo cerca de 8,4 meses das importações em 2026 e 8,6 meses em 2027”, analisa o documento.

Contudo, as referidas projeções permanecem sujeitas a “um elevado grau de incerteza”, como esclarece o BCV, tendo em conta a impressibilidade da situação do conflito no Médio Oriente, mas também devido ao comportamento dos preços internacionais da energia e às condições financeiras internacionais.

Manutenção das taxas de juro actuais

Neste contexto, o BCV diz que teve em conta “cenários alternativos”, incluindo um cenário severo, que pressupõe um conflito mais prolongado e preços do petróleo persistentemente elevados, podendo o preço do petróleo bruto atingir cerca de 145 dólares por barril no segundo trimestre de 2026, com impactos mais acentuados sobre a inflação, o crescimento económico e as contas externas. “Mesmo neste contexto, as reservas externas devem continuar a garantir cerca de 6,6 meses de importação”, prevê.

Face a este enquadramento, o BCV considera adequada a manutenção das taxas de juro de referência nos níveis atuais, reafirmando o “compromisso com a estabilidade de preços, a robustez do sistema financeiro e a credibilidade do regime cambial”.

Reservas internacionais líquidas aumentaram em 2025

Relativamente a 2025, o BCV garante que, apesar do contexto externo menos favorável, a economia cabo-verdiana registou um “desempenho positivo”, pois, o Produto Interno Bruto (PIB), em volume, cresceu 6,3 por cento, refletindo, contudo, “o abrandamento da procura externa turística e o enfraquecimento da procura externa líquida”.

Já do lado da oferta, o regulador financeiro avança que se destacaram a desaceleração da atividade do sector do alojamento e restauração e a contração do sector do comércio.

Nesse contexto, a inflação média anual aumentou para 2,3% em 2025, reflectindo, sobretudo, a subida dos preços das importações, nomeadamente dos produtos alimentares e dos custos de transporte internacional. “Ainda assim, a inflação permaneceu em níveis compatíveis com a estabilidade de preços”, observa o relatório.

O Banco Central avança ainda que, em 2025, as contas externas apresentaram uma evolução favorável, tendo em conta que a balança corrente registou um excedente de 3,7% do PIB, impulsionado pelo aumento das receitas provenientes das exportações de serviços de turismo, das remessas dos emigrantes e das transferências privadas.

A balança financeira registou assim entradas líquidas “significativas” de financiamento externo, “favorecendo” o reforço das reservas internacionais líquidas do país, aponta o BCV.

Em resultado, o regulador financeiro, avança que o stock das reservas internacionais líquidas aumentou para cerca de 1.1 mil milhões de euros em 2025, garantindo, aproximadamente, nove meses de importações (acima dos 6,5 meses registados em 2024).

No sector monetário e financeiro, o crédito à economia cresceu 4,8 % em 2025, reflectindo o abrandamento da actividade económica nacional, o aumento moderado das taxas de juro dos empréstimos e critérios de aprovação de crédito ligeiramente mais restritivos por parte dos bancos comerciais.

Publicado na Edição 976 do Jornal A Nação, de 14 de Maio de 2026

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