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A imersão linguística: Os limites da hipótese lisboeta para a génese do crioulo cabo-verdiano e a eterna tentação de subestimar as capacidades cognitivas do povo negro

Por: Eleutério Afonso

Recentemente tive acesso ao artigo de Carlos Carvalho, publicado na edição n.º 913 do jornal A Nação, no qual o autor retoma o debate sobre as origens geográficas do crioulo cabo-verdiano. 

A leitura chamou-me particularmente a atenção pela revalorização da hipótese segundo a qual o embrião do crioulo teria surgido em Lisboa antes do povoamento efetivo de Santiago.

O artigo promete uma “desconstrução” de paradigmas estabelecidos, mas os argumentos apresentados não parecem suficientes para desmontar a hipótese dominante. 

Contudo, os argumentos apresentados, em vários momentos, aproximam fenómenos distintos: o contexto favorável à aquisição imperfeita de uma segunda língua por adultos estrangeiros e a emergência efetiva de uma nova língua a ser “estabilizada” intergeracionalmente. 

Embora esses processos possam coexistir historicamente, não são equivalentes do ponto de vista das ciências da aprendizagem e da linguística do contacto. É precisamente essa distinção que importa clarificar.

As marcas da terra: “Subi kanba kutelu” e “Nhemi txada”

Antes de abordar diretamente a hipótese defendida, importa lembrar que certos traços lexicais e fraseológicos da variedade do “berdiánu” mais antigo (Santiago) parecem conservar marcas profundas da ecologia histórica e da própria geografia da Cidade Velha.

Unidades fraseológicas como “sai riba” ou “subi kanba kutelu” são usadas como sinónimos de “vencer na vida”. A geografia da Cidade Velha aponta para a possibilidade de um escravizado poder escapar e “vencer” o cativeiro subindo o cutelo acima para sair da cidade. Da mesma forma, “sapa txada” ou “nhemi txada” são sinónimos de “correr muito rápido”. Isso compreende-se pelo facto de a Cidade Velha ser cercada de grandes achadas – Salineiro de um lado e Achada Forte do outro. Numa situação de fuga, o sucesso dependia de alcançar o alto destas achadas. 

É impossível sustentar que uma língua nasceu em Lisboa quando o seu DNA idiomático está codificado na orografia e na experiência de resistência de Santiago.

A hipótese lisboeta parece pressupor que os africanos em Lisboa não conseguiriam adquirir o português funcional básico ao longo de duas décadas (…) Interpretar a aquisição imperfeita de uma língua como se fosse o nascimento de outra é um erro científico que oculta o imperativo da transmissão geracional. O debate continua aberto, mas precisa considerar o que hoje conhecemos sobre as ciências da aprendizagem.

O argumento temporal e a plasticidade linguística

O principal problema da hipótese lisboeta reside no argumento temporal: os “vinte anos” entre a chegada dos primeiros africanos a Lisboa e o povoamento de Santiago. Paradoxalmente, esse intervalo pode ser interpretado no sentido oposto ao pretendido.

Se considerarmos as condições de Lisboa quinhentista – um cenário clássico de imersão linguística intensiva numa cidade monolingue – a tendência cognitiva mais plausível não é a criação de uma nova língua, mas sim a aprendizagem progressiva do português. 

O multilinguismo africano não é exceção; é a regra na África Ocidental. Indivíduos habituados ao contacto entre línguas desenvolvem elevada plasticidade linguística. Numa sala de aulas no Senegal, por exemplo, é normal escutarmos cinco línguas em circulação. 

O paralelo contemporâneo é elucidativo: em Cabo Verde atual, os senegaleses aprendem o crioulo em menos de dois anos devido à imersão. Escutamos marcas que os identificam como estrangeiros adultos, mas aquilo que falam é o crioulo existente, não um pidgin inventado. Ora, se o ser humano moderno aprende uma língua em dois anos, por que se assume que em vinte anos, em Lisboa, seria necessário inventar um código rudimentar?

Santiago vs. Lisboa: ecologias sociopolíticas inversas

Santiago apresentava exatamente as condições inversas de Lisboa: minoria de falantes nativos de português, maioria massiva de africanos de diferentes grupos linguísticos e contacto horizontal intenso nas senzalas e plantações. É nesse tipo de ecologia que a crioulização se torna plausível. Quando o input da língua dominante é insuficiente, a necessidade de comunicação interétnica obriga à estabilização de formas híbridas que, através da transmissão intergeracional (as crianças), dão origem a uma nova língua autónoma.

O preconceito cognitivo e a teoria de Cummins

A hipótese lisboeta parece pressupor que os africanos em Lisboa não conseguiriam adquirir o português funcional básico ao longo de duas décadas. Jim Cummins distingue a BICS (Basic Interpersonal Communicative Skills), competências comunicativas do quotidiano nas feiras e no cais, da CALP (Cognitive Academic Language Proficiency), a proficiência académica e complexa.

No século XV, a BICS (o português funcional) seria perfeitamente acessível a qualquer adulto em imersão em Lisboa. A hipótese de que foi necessário “modifificar” o português para torná-lo acessível ao cérebro do negro é um insulto à inteligência linguística africana e ignora as evidências empíricas atuais.

Confusão de conceitos e processos

Vinte anos é tempo demais para um cérebro Homo Sapiens multilingue produzir apenas um pidgin em contexto de imersão total. O problema reside na confusão conceptual entre aquisição de língua por adultos e a génese efetiva de uma nova língua, uma confusão frequente nos debates sobre crioulização e muito presente nas teorias do bioprograma de Bickerton, por exemplo. O filho de um falante aprendiz não reproduz o falar limitado dos pais, mas sim a língua da sociedade onde cresce. 

No contexto de ausência de plantação predominante, sem dominação escravocrata intensa, grandes senzalas, ausência de ghetto, enfim, de uma série de outros fatores que propiciam a crioulização, o filho desse falante (imigrante hoje e escravo no sec. XV) não reproduzirá as falas dos pais, mas sim a língua da sociedade onde cresce ou, no mínimo, ele será bilingue…mas não criará uma nova língua porque ele próprio estará a comparar os falares dos pais e dos falantes nativos  tirando conclusões óbvias de que “Os pais estão a falar com dificuldades, a língua dos nativos”. Isso porque o ser humano vive na infância uma fertilidade de inteligência linguística denominado “período crítico para as aprendizagens linguísticas”.

Interpretar a aquisição imperfeita de uma língua como se fosse o nascimento de outra é um erro científico que oculta o imperativo da transmissão geracional. O debate continua aberto, mas precisa considerar o que hoje conhecemos sobre as ciências da aprendizagem.

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