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Cabo Verde na Copa do Mundo 2026: O mar que nos une, a bola que nos leva: A alma dos Tubarões Azuis e a paixão por futebol

Por: Paulo Mendes*

Dez ilhas, um povo e um só coração! Seja bem-vindo a Cabo Verde! “A esperança é do tamanho do mar que nos abraça” – Pois é, este excerto do hino nacional é perfeito para retratar a alma, a crença e a resiliência que caracterizam o povo caboverdiano. Dez ilhas espalhadas no meio do Atlântico, mas ao mesmo tempo unidas pelo imenso mar que nos abraça e pela Seleção Nacional de Futebol “Os Tubarões Azuis”.

Cabo Verde, um país pequeno em território e população, mas uma grande Nação que nunca se verga diante das adversidades e desafios da vida. O desafio foi gigantesco, muitos achavam improvável, o sonho de qualificar-se para uma Copa do Mundo de Futebol, que parecia distante e ao mesmo tempo perto, manteve-se sempre vivo, o povo caboverdiano alimentava esta esperança em todas as eliminatórias africanas para o campeonato do mundo.

O grande dia e o sonho realizado 

O 13 de Outubro de 2025 é a data mais marcante da história do futebol caboverdiano. Foi nesse dia, numa segunda-feira, no estádio nacional lotado, na capital de Cabo Verde, cidade da Praia, que os Tubarões Azuis fizeram história quando selaram o apuramento inédito para a Copa do Mundo de 2026. A seleção nacional de futebol precisava de apenas de um 1 ponto, mas venceu e convenceu com um claro 3×0 frente ao Eswatini, projetando o nome de Cabo Verde para a ribalta do futebol mundial e não só.

Os holofotes do mundo viraram para o arquipélago, a repercussão foi imediata, a seleção nacional de futebol virou destaque na maioria da imprensa internacional e também viralizou nas redes sociais com muitos produtores de conteúdos digitais, famosos e não só, a olharem para o pequeno país insular, com pouco mais de 500 mil habitantes, tentando entender como Cabo Verde alcançou este feito inédito.

O ponto de viragem e o passo a passo rumo à história 

É importante recuar um pouco a “fita”, voltar no tempo, para entender melhor a história: se todos se lembram, em 2014 (Copa do Mundo no Brasil) os guerreiros do Atlântico estiveram quase lá. O sonho de jogar a primeira copa do mundo nunca tinha estado tão perto de se realizar, quando, pela primeira vez, Cabo Verde terminou o seu grupo da eliminatória africana em 1º lugar, vencendo a Tunísia por 2×0 na última rodada.

Infelizmente, a alegria do que seria o realizar de um sonho do povo caboverdiano transformou-se em pesadelo, quando a seleção nacional foi eliminada na secretaria pela FIFA por suposta utilização irregular de um jogador que estava suspenso. Esta decisão caiu que nem um balde de água fria para a seleção nacional e para os milhares de cabo-verdianos que sempre sonharam com esse momento.

Mas, como diz o ditado “há males que vem por bem”, pois o brilhante desempenho dos Tubarões Azuis nessa eliminatória para a Copa do Mundo de 2014 foi o ponto de viragem, pois se já acreditávamos que um dia seria possível, a partir daí todos passaram a acreditar muito mais que Cabo Verde tinha capacidade para concretizar o sonho de toda a Nação.

“O brilhante desempenho dos Tubarões Azuis na eliminatória para a Copa do Mundo de 2014 foi o divisor de águas e o povo passou a acreditar, muito mais, que Cabo Verde tinha capacidade para concretizar o sonho de toda a Nação”

A saga continuou, em busca do tão almejado sonho. Na história mais recente, além de 2014 é de registar a participação nas eliminatórias das copas de 2010, 2018 e 2022, tendo ficado em segundo do grupo, em duas ocasiões, (2010 e 2022) e terceiro em 2018. Nesse formato anterior eram apenas 5 vagas diretas, com os 10 vencedores de cada grupo disputando um playoff, ida e volta, para se encontrar as seleções africanas apuradas.

O formato atual das eliminatórias africanas para a Copa do Mundo foi expandido para acomodar o novo formato de 48 seleções, dividido em 9 grupos de 6 seleções, sendo que os primeiros colocados garantem vaga direta para a Copa do Mundo, com os quatro melhores segundos a disputarem uma repescagem para preencher mais uma vaga.

Coincidência ou não, logo na estreia do novo formato de eliminatórias para as copas do mundo, Cabo Verde sacramentou o apuramento inédito para a Copa de Mundo de 2026, na qual a seleção nacional de futebol conseguiu o melhor desempenho de sempre, com uma campanha brilhante, ficando em 1º lugar do grupo com 23 pontos, mais 4 que os Camarões, fruto de 7 vitórias, 2 empates e apenas uma derrota.

Emoção, festa e Estádio Nacional ao delírio

A vitória por 1×0, sobre os Camarões, no dia 9 de Setembro de 2025, na cidade da Praia, foi um dos momentos épicos e emocionantes da história dos Tubarões Azuis rumo à Copa do Mundo de 2026. Foi um dia inesquecível, graças a Deus eu estava lá, o público nas bancadas foi ao delírio com aquele golaço, marcado por Dailon Livramento, aos 54 minutos, após uma arrancada ainda no meio-campo adversário, deixando 3 jogadores para trás.

Após o apito final, lembro como se fosse hoje, a torcida foi à loucura e extravasou toda a sua alegria e emoção, invadindo o relvado, pela primeira vez, festejando não só o triunfo sobre a poderosa seleção dos Camarões, pentacampeão de África, mas acima de tudo para extravasar toda a emoção de algo maior que estava no horizonte perto.

A duas jornadas do fim das eliminatórias, a vitória em casa contra o adversário direto na luta pela classificação e considerada a mais forte do grupo aumentou a vantagem para 4 pontos, e a torcida não resistiu à emoção do resultado que significou estar com um pé na Copa do Mundo de 2026, e que veio a confirmar-se na última rodada, desta feita, e ainda bem, sem invasão de campo.

“Lembro como se fosse hoje, a torcida foi à loucura e extravasou toda a sua alegria e emoção, invadindo o relvado”

O grande sonho tornou-se realidade, Cabo Verde (Os Tubarões Azuis) conseguiu a classificação inédita para a Copa do Mundo de 2026, e está a encantar o mundo, levando um brilho diferente aos gramados da América do Norte, escrevendo uma história brilhante e digna dos melhores roteiros de Hollywood. Um feito grandioso para um pequeno arquipélago, em dimensão territorial e população, disperso em dez ilhas do Atlântico, mas de alma e coração gigantes, com “esperança do tamanho do mar que nos abraça”, e nos enche de força e coragem para vencer grandes desafios.

Tubarões Azuis emergem do Atlântico e conquistam o Mundo

Cabo Verde chegou e disse: “Nos Óra dja Txiga” (A nossa hora chegou), um desconhecido por muitos, que começou a escrever a sua história logo na estreia, mostrando-se dono do seu próprio destino, contra a atual campeã europeia de futebol, a poderosa Espanha, 2º lugar do ranking mundial da FIFA, campeão do mundo em 2010, uma seleção com jogadores de times colossos europeus, com provas dadas a todos os níveis. Quando muitos esperavam que seria um passeio para a Espanha, que eram favas contadas, e que Cabo Verde seria amassado com uma goleada, foi aí que Os Tubarões Azuis mostraram “os dentes afiados” dizendo: “Hoje não, somos os donos do nosso destino e vamos escrever a nossa história” e nesse dia, 15 de Junho de 2026, os espanhóis passaram a conhecer o que é Cachupa, prato típico e o mais conhecido de Cabo Verde. Os jogadores apresentaram o cartão de visita com: união, garra, foco, determinação e trabalho de equipa. Final do jogo, Espanha 0x0 Cabo Verde, um empate com saber a vitória histórica, mas era só o início de um filme de sucesso, escrito de azul, branco e vermelho, jamais previsto nem nos melhores roteiros de Hollywood.

O país inteiro viveu o antes, o durante, festejou e vibrou após o apito final, como nunca visto, um empate com sabor à campeão da Copa do Mundo. O 15 de Junho de 2026 ficou marcado na história das Copas do Mundo, o dia em que a estreante e “desconhecida” seleção de Cabo Verde parou a “poderosa” seleção da Espanha.

“Hoje não, somos os donos do nosso destino e vamos escrever a nossa história” e nesse dia, 15 de Junho de 2026, os espanhóis passaram a conhecer o que é Cachupa”

Após a estreia surpreendente, o Hard Rock Stadium, em Miami, foi o palco da sequência do roteiro histórico dos Tubarões Azuis, a expetativa era enorme para o jogo da 2ª rodada, no dia 21 de Junho, contra o Uruguai, bicampeã mundial, com uma crescente confiança da torcida e da seleção para alcançar a 1ª vitória histórica em copas do mundo. Infelizmente não veio a primeira vitória nesse jogo, mas ficou mais uma exibição consistente dos Tubarões Azuis com excelente resultado, empate 2×2, jogo em que a seleção nacional fez história, mais uma vez, quando aos 21 minutos da 1ª parte Kevin Pina marcou o primeiro gol de sempre de Cabo Verde em copas do mundo. A festa tomou conta das ruas em todas as ilhas, com a torcida a celebrar até de madrugada, com batucadas e buzinaços.

Passado o jogo contra Uruguai, Cabo Verde ficou a um passo de fazer história, de classificar-se à fase seguinte, que se confirmou quando os Tubarões Azuis tomaram conta do faroeste americano, com a cidade de Houston no Texas a servir de palco, do jogo da 3ª rodada, no dia 26 de Junho, contra a Arábia Saudita, onde carimbaram a classificação para os dezasseis avos de final, com um nulo 0x0 e se beneficiando da derrota do Uruguai frente à Espanha, terminando em 2º lugar do grupo. Com este feito histórico, esperado por poucos, no início da competição, Cabo Verde tornou-se a segunda melhor seleção estreante em copas do mundo, desde a estreia do Senegal na Copa do Mundo de 2002.

Em busca de mais um capítulo histórico

Esta é, sem dúvida, a Copa do Mundo de Cabo Verde. Como se não bastasse todos os feitos históricos alcançados pela seleção nacional de Cabo Verde, o destino traçou mais um capítulo simplesmente extraordinário no roteiro dos Tubarões Azuis, o encontro contra a Argentina, nos dezasseis avos de final, um jogo que certamente será eternamente especial para jogadores que sonharam um dia partilhar o gramado com Lionel Messi, simplesmente o melhor jogador da história do futebol mundial.

“Cabo Verde tornou-se a segunda melhor seleção estreante em copas do mundo, desde a estreia do Senegal na Copa do Mundo de 2002”

O País inteiro está expectante, a torcida ansiosa e confiante de uma boa atuação da seleção de Cabo Verde, mas acredito que independentemente do resultado, o jogo com a Argentina do mágico, Lionel Messi, será mais um capítulo histórico de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026, e que vai projetar ainda mais o nome do país no mundo e poderá ser um momento de valorização do sucesso dos Tubarões Azuis.

Um povo unido à volta dos Tubarões Azuis

A experiência de uma copa do mundo de futebol que se vive aqui em Cabo Verde é simplesmente indiscritível, só se compara àquela que eu vivi no Brasil, em Salvador, na Copa do Mundo de 2002 (Japão e Coreia do Sul), onde eu vi e senti a força do futebol, o esporte mais popular do planeta, capaz de unir toda a nação à volta da seleção nacional.

Assim como eu, todos os caboverdianos estão a viver esta Copa do Mundo de 2026 de uma forma especial e única com a participação dos Tubarões Azuis na sua estreia em copas, com muita alegria e alguma euforia também, cobrindo o país com as cores da bandeira de Cabo Verde, azul, vermelho e branco. Nunca se viu tantas bandeiras nas janelas e varandas das casas, as ruas e avenidas com bandeirinhas, os carros com bandeiras e adereços decorativos, as pessoas vestindo a camisa da seleção nacional e a pintar a bandeira nacional na face, numa clara manifestação de amor e apoio incondicional à seleção de todos nós, nunca vista e vivida com esta dimensão.

Já diz a letra do hino nacional “no desfiladeiro da vida esperança é do tamanho do mar”, que também serve de inspiração e caracteriza o povo caboverdiano, sustentado na resiliência e capacidade de superação para vencer as adversidades da vida. Essas dificuldades fizeram de Cabo Verde, historicamente, um país fortemente marcado pela emigração, principalmente para a Europa, os Estados Unidos da América e alguns países africanos lusófonos, constituindo uma vasta comunidade na diáspora, estimado em mais de 1 milhão de caboverdianos e descendentes.

Cabo Verde – Nação Global

E, neste contexto, a diáspora caboverdiana tem tido impacto enorme e decisivo na constituição e sucesso da seleção caboverdiana de futebol. O trabalho de scouting de recrutamento de jogadores caboverdianos ou descendentes, no estrangeiro, tem sido notável nesses últimos anos, com o Staff da Federação Caboverdiana de Futebol a conseguir identificar vários jovens com muito talento e qualidade e isso explica, em grande parte, a evolução dos Tubarões Azuis nos últimos anos.

A diáspora caboverdiana tem tido impacto enorme e decisivo na constituição e sucesso da seleção caboverdiana de futebol. (…) Dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026, 18 escolhidos são descendentes, ou seja, filhos de caboverdianos nascidos no estrangeiro

A convocatória é elucidativa neste sentido, dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026, pelo técnico Pedro Leitão Brito “Bubista”, 18 escolhidos são descendentes, ou seja, filhos de caboverdianos nascidos no estrangeiro, em países como Holanda, França, Portugal, Estados Unidos e Irlanda, e que escolheram representar Cabo Verde.

A paixão pelo desporto mais popular do planeta

Com toda essa projeção da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026, muita gente se pergunta como surgiu a paixão dos caboverdianos pelo futebol. A paixão pelo futebol em Cabo Verde surgiu da influência do futebol europeu, mais concretamente da forte ligação com Portugal e com o futebol português. Sabemos os laços históricos que unem os dois países, e isso fez com que os caboverdianos desde sempre torcerem por clubes portugueses, os chamados três grandes, Sport Lisboa e Benfica, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Portugal.

Os caboverdianos são muito conectados ao futebol português, de tal maneira que é comum encontrar-se pelas ruas de qualquer cidade de Cabo Verde torcedores vestindo a camisa do Benfica, Porto ou Sporting, que são grandes rivais. Além disso, nos dias dos jogos desses clubes os torcedores param tudo para assistir, até mesmo os jogos das equipes adversárias para torcerem contra, contudo é de salutar que a convivência é pacifica e saudável entre os torcedores desses três maiores clubes portugueses.

A influência é de tal forma que muitos clubes de futebol nacionais adotaram o mesmo nome de clubes portugueses, entre os quais Académica, Sporting, Boavista e outros que apesar de nomes diferentes adotaram símbolos parecidos, como é caso do Mindelense (São Vicente) e travadores (cidade da Praia) cujos símbolos são um tributo ao Sport Lisboa e Benfica.

O maior campeão de futebol de Cabo Verde é o Clube Sportivo Mindelense, da ilha de São Vicente, com 13 títulos, seguido do Sporting Clube da Praia, ilha de Santiago, com 10 títulos, e do Futebol Clube Dérbi (ilha de São Vicente) e do Boavista da Praia (ilha de Santiago) ambos com 3 títulos.

A nível nacional o futebol está organizado com associações regionais de futebol em todas as ilhas, que organizam os campeonatos regionais, as pessoas torcem pelo seu clube ou da sua cidade, há muitos que gostam de ir aos estádios para apoiar o clube do coração. O Campeonato Nacional de Cabo Verde, organizada pela Federação Caboverdiana de Futebol, é o maior torneio de futebol a nível interno, que reúne os campeões regionais de cada ilha e o campeão em título, dividido em fase de grupo e eliminatórias para se encontrar o novo campeão.

O maior campeão de futebol de Cabo Verde é o Clube Sportivo Mindelense, da ilha de São Vicente, com 13 títulos, seguido do Sporting Clube da Praia, ilha de Santiago, com 10 títulos, e do Futebol Clube Dérbi (ilha de São Vicente) e do Boavista da Praia (ilha de Santiago) ambos com 3 títulos. Para além do Campeonato de Cabo Verde, realiza-se também outras competições nacionais, nomeadamente a Taça de Cabo Verde e a Supertaça.

O povo caboverdiano tem uma enorme paixão pelo esporte mais popular do planeta, vivendo e vibrando intensamente com cada momento, desde a torcida pelos clubes de futebol nacionais, passando pelo futebol português, até chegar à seleção nacional de futebol que é o que nos une e nos torna um só povo, um coração e uma Nação muito mais forte e resiliente.

Que os Tubarões Azuis continuem a sua evolução, a fazer mais história nos palcos do futebol mundial e a dar muitas alegrias ao povo caboverdiano, que tanto merece, onde quer que esteja, nas dez ilhas do arquipélago ou na nossa imensa diáspora espalhada pelo mundo.

Cabo Verde conquistou o seu espaço no futebol mundial, vem traçando o seu destino com suor e glória. O espanto revelado pelo mundo em relação a Cabo Verde não se explica apenas pelo desempenho da seleção nacional nos gramados da Copa do Mundo, mas acima de tudo pela morabeza, crença, carisma e resiliência que caraterizam a alma do povo caboverdiano e que impulsiona os guerreiros do Atlântico dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo de 2026.

Nos óra dja txiga (A nossa hora chegou).

Viva Tubarões Azuis!

Viva Cabo Verde!

*Jornalista Apaixonado por Futebol

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