
Por: Amilcar Monteiro*
“Há momentos em que uma nação se redefine.” Com estas palavras, o Presidente da República José Maria Neves abriu o seu discurso na tomada de posse do XI Governo, no dia 19 de junho de 2026, usando a histórica qualificação dos Tubarões Azuis para o Mundial de Futebol como metáfora para o futuro de Cabo Verde. Não foi apenas retórica. O que aconteceu em campo é a prova viva de um conceito que a literatura académica sobre migração e desenvolvimento vem debatendo há décadas: a transição do modelo de “fuga de cérebros” para o de “circulação de cérebros”.
Em 2012, no âmbito de um estudo académico na Bridgewater State University intitulado Cape Verde Transnationality: Towards a New Level of Brain Circulation, explorei o potencial da diáspora cabo-verdiana como rede transnacional capaz de mobilizar conhecimento, capital social e inovação em benefício das ilhas. Catorze anos depois, os Tubarões Azuis oferecem-nos o caso mais espetacular e visível desta tese em ação.
Dos 26 jogadores convocados para o Mundial 2026, 14 nasceram fora de Cabo Verde – nos Estados Unidos e em países europeus como os Países Baixos, Portugal, França e Irlanda, todos com comunidades cabo-verdianas significativas. Seis dos onze titulares que empataram 0-0 com a Espanha nasceram fora do arquipélago.
Estamos perante o que Goes (2005) chamaria de “mundo cabo-verdiano” em ação – um espaço social transnacional sem fronteiras políticas, geograficamente descontínuo mas socialmente coeso. A seleção dos Tubarões Azuis é a materialização deste conceito: uma equipa construída a partir de múltiplos nós da rede migratória, onde jogadores formados em academias europeias trazem competências técnicas de classe mundial e as combinam com a identidade, a garra e o sentido de pertença dos que cresceram nas ilhas.
Este modelo inverte a lógica tradicional da fuga de cérebros. Os jogadores não “saíram” de Cabo Verde – muitos nunca cá viveram. Mas escolheram representar Cabo Verde. Escolheram canalizar o seu talento, formado nos melhores centros de formação do mundo, para uma nação de 500 mil habitantes. Isto é circulação de cérebros na sua expressão mais pura: o conhecimento não precisa de regressar fisicamente para gerar valor no país de origem.
É a nossa “11.ª Ilha”. Esta expressão é usada há décadas para designar a diáspora cabo-verdiana, estimada em mais de um milhão de pessoas – o dobro da população residente. Jorgen Carlsen, investigador dinamarquês, chamou Cabo Verde de “Galápagos da migração”, sublinhando que poucos países foram tão profundamente moldados pela mobilidade humana. No meu estudo de 2012, documentei como esta característica criava redes transnacionais por onde circulavam ideias, bens, remessas e informação – mas com limitações significativas.
Goes (2005) classificou a transnacionalidade cabo-verdiana como de “baixa intensidade”: forte nas conexões pessoais e familiares, mas fraca na formalização, no associativismo e na interação com as sociedades anfitriãs. A diáspora funciona como uma rede silenciosa, eficaz no envio de remessas mas pouco visível na produção de capital social organizado.
Os Tubarões Azuis representam a superação deste paradigma. Aqui temos uma estrutura formal – a Federação Cabo-verdiana de Futebol – que implementou uma estratégia deliberada de recrutamento na diáspora, criando pontes institucionais entre o talento formado no exterior e o projeto nacional. O resultado? Cabo Verde tornou-se a menor nação da história a avançar para a fase eliminatória de um Mundial, empatando com Espanha (0-0), Uruguai (2-2) e Arábia Saudita (0-0). Um feito que nenhum modelo de “baixa intensidade” poderia produzir.
O Presidente José Maria Neves captou a essência desta oportunidade quando afirmou: “Se fomos capazes de chegar a este patamar do futebol mundial, por que não aspirar à excelência na educação, na ciência, na tecnologia, na economia azul, na cultura, na administração pública, na inovação e no empreendedorismo?”
A pergunta é pertinente, mas a resposta exige ir além da inspiração. O sucesso dos Tubarões Azuis não nasceu do acaso nem apenas da vontade. Nasceu de um sistema: uma federação que mapeou a diáspora, identificou talentos, criou condições de atração e construiu uma identidade de equipa que transcende fronteiras. A questão crítica é: pode este modelo ser replicado noutros setores?
Acredito que sim, desde que este modelo seja deliberadamente fomentado. No meu estudo de 2012 identifiquei três elementos que limitam a transnacionalidade cabo-verdiana de alta intensidade: a ausência de plataformas institucionais de coordenação, o défice de infraestrutura digital, e a falta de estratégias deliberadas de envolvimento da diáspora científica e profissional. A Federação de Futebol resolveu o primeiro problema no seu domínio. Resta ao Estado fazer o mesmo para a educação, a saúde, a tecnologia e o empreendedorismo.
Precisamos de “Tubarões Azuis” na ciência, na tecnologia, na saúde e na administração pública – como o próprio Presidente da República desafiou. Não faltam cérebros cabo-verdianos pelo mundo. O que falta é um sistema que os ponha a circular.
O caso dos Tubarões Azuis ensina-nos várias lições transferíveis:
Mapeamento ativo da diáspora qualificada. Tal como a federação identificou jogadores elegíveis nas ligas europeias, é preciso mapear sistematicamente os profissionais cabo-verdianos na diáspora – médicos, engenheiros, investigadores, empreendedores, especialistas em TIC – e criar bases de dados acionáveis. O exemplo da Índia, que referi no estudo de 2012, com o Silicon Valley de Bangalore alimentado pela diáspora científica, continua a ser uma referência.
Incentivos claros de atração e participação. Os jogadores escolheram representar Cabo Verde porque a proposta tinha significado: uma oportunidade histórica, um projeto coletivo, uma identidade partilhada. Políticas de circulação de cérebros devem oferecer propostas igualmente mobilizadoras – programas de investigação conjunta, incentivos fiscais ao investimento da diáspora, plataformas digitais de mentoria e transferência de conhecimento.
Infraestrutura digital como facilitador. Em 2012, o custo da banda larga em Cabo Verde representava quase 20% do rendimento médio, um forte constrangimento para a interação com a diáspora. O avanço das TIC desde então abre novas possibilidades, mas é preciso ir mais longe: criar plataformas digitais que permitam a colaboração remota entre profissionais da diáspora e instituições nacionais, nos moldes do que já fazem países como o Ruanda e a Estónia.
Liderança institucional e visão estratégica. O PR evocou a necessidade de “lideranças serenas, confiantes, mobilizadoras e agregadoras”. No caso do futebol, a equipa técnica soube construir um coletivo resiliente a partir de individualidades dispersas. Replicar este feito noutros setores exige uma governança da diáspora que vá além do Instituto das Comunidades e se integre transversalmente nos ministérios da educação, economia, saúde e tecnologia.
O Presidente Neves desafiou o novo Governo a “converter prestígio em desenvolvimento, reconhecimento em oportunidades e talento em prosperidade.”
É exatamente este o desafio central da circulação de cérebros. A parceria entre a Bridgewater State University e a Universidade de Cabo Verde que documentei até 2012 – onde 25 estudantes de intercâmbio e 12 mestrandos beneficiaram de formação nos EUA – é um exemplo embrionário deste modelo. O próprio Dr. Dana Mohler-Faria, descendente cabo-verdiano de terceira geração a liderar uma universidade americana, encarnava já a ideia de que o capital social da diáspora pode ser mobilizado institucionalmente.
Hoje, com Cabo Verde sob os holofotes do mundo – a menor nação de sempre a avançar numa Copa do Mundo, prestes a defrontar a Argentina nos dezasseis avos de final – a janela de oportunidade é histórica. Mas janelas fecham-se. O “extraordinário capital simbólico” de que falou o Presidente só se converte em ganhos concretos se houver estratégia, instituições e vontade política para canalizá-lo.
A parceria BSU-UNICV que documentei no meu estudo demonstrou como a cooperação institucional entre a diáspora e as ilhas pode produzir resultados tangíveis na educação. A candidatura de Cabo Verde ao Millennium Challenge Corporation, apoiada por Bridgewater e defendida pelo Representante Barney Frank, resultou em compactos de 170 milhões de dólares. Estes foram exemplos isolados do que poderia ser uma estratégia nacional sistemática.
Quando os Tubarões Azuis entraram em campo contra a Espanha com seis jogadores nascidos fora do arquipélago e empataram com o campeão europeu, não estavam apenas a jogar futebol. Estavam a demonstrar que Cabo Verde é, como concluí no meu estudo de 2012, “uma nação além-fronteiras” – onde as ilhas, a migração e as redes transnacionais são partes interconectadas da dinâmica de ser cabo-verdiano.
Na próxima sexta-feira, quando os Tubarões Azuis defrontarem a Argentina em Miami, estarão a levar consigo não apenas uma equipa, mas a prova viva de que uma pequena nação, quando mobiliza toda a sua rede transnacional, pode nadar entre os maiores e competir com o campeão do mundo de futebol.
Independentemente do resultado, o futebol já forneceu a prova de conceito. Agora cabe à política pública escalar o modelo. Precisamos de “Tubarões Azuis” na ciência, na tecnologia, na saúde e na administração pública – como o próprio Presidente desafiou. Não faltam cérebros cabo-verdianos pelo mundo. O que falta é um sistema que os ponha a circular.
Tal como José Maria Neves afirmou, “o futuro de Cabo Verde depende cada vez mais da nossa capacidade de unir talentos, criar oportunidades e mobilizar todas as forças da nação em torno de objetivos comuns.” Os Tubarões Azuis mostraram que é possível. O desafio agora é mostrar que não foi uma exceção.
*Consultor em Gestão do Desenvolvimento | MSc Technology Management, BSU
Junho de 2026
Nota: Este artigo baseia-se no estudo Cape Verde Transnationality: Towards a New Level of Brain Circulation, desenvolvido em 2012 na Bridgewater State University sob orientação do Professor Martin Grossman, e nas declarações do Presidente da República José Maria Neves durante a tomada de posse do XI Governo, a 19 de junho de 2026.

