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Ambiente

São Domingos: Agricultores entre a esperança e o medo das pragas

A poucos dias do período de azágua, os agricultores da Várzea da Igreja, Milho Branco, Mato Afonso e Água de Gato, no município de São Domingos, mostram-se esperançosos com este ano agrícola. Alguns porém estão receosos com a sementeira por causa das pragas, bem como dos macacos e galinhas do mato. 

Aproximando a época de azágua, A NAÇÃO foi ouvir os agricultores em São Domingos para saber quais são os seus planos e expectativas em relação às chuvas deste ano. Por causa do sol quente que se tem feito sentir nos dois últimos meses, os nossos entrevistados acreditam que 2026 vai ser um bom ano agrícola.

José Varela

Porém, há quem esteja ainda com dúvidas se vai ou não lançar sementes à terra, como é o caso de José Varela, temeroso de ver o seu investimento sem retorno, como muitas vezes viu acontecer ao longo da vida. 

 “Quando trabalhamos e não temos oportunidade de desfrutar é frustrante. A agricultura é um trabalho muito árduo e com muitas despesas, não dá para ficar gastando todo ano e não recolher frutos desse trabalho”, lamentou.

Além da incerteza das chuvas, José Varela não deixa de apontar dois outros problemas para quem vive do cultivo da terra: os macacos e as galinhas do mato. 

“Sementeira é uma tradição que encontrei na casa e que faço com muito amor, mas meu canteiro fica perto da montanha que é onde se escondem os macacos e as galinhas de mato que são os nossos maiores problemas”, queixou-se.

Para combater essas duas pragas, este nosso entrevistado defende uma licença de caça controlada com arma de fogo, nem que seja apenas no período de plantio para os agricultores combaterem esses animais que têm causado “prejuízos significativos” à agricultura local.

Esperança fala mais alto 

Por outro lado, há quem prefira ignorar essas pragas e acreditar no bom ano de cultivo. É o caso de Luísa Lopes, que afirma já ter até a data marcada para a sementeira: 20 de Julho. “Já tenho as sementes de milho, feijões, abóbora, amendoins e batatas. Agora é só aguardar a chuva que acredito que não vai demorar e sinto que vai ser um bom ano agrícola”, afirmou.

Luísa Lopes

Nuno Moreira

Embora esteja animada, Luísa não deixa de se preocupar também com os macacos que, segundo ela, é o maior desafio de quem cultiva pelas bandas de Caiada. Mesmo assim, ela acredita que pode tirar um bom proveito de azágua este ano.

 Nuno Moreira, que partilha da mesma opinião da Luísa e que cultiva a terra há mais de 60 anos, acredita também que este ano a chuva cedo vai falar mantenha este ano e consequentemente este vai ano de boas colheitas. 

“Estou esperançoso com a azágua deste ano, por isso escolhi o dia 25 de Julho, o dia que comemoramos Nhu Santiago, para lançar as sementes. Normalmente, é sempre nesse dia que a chuva cai”, explicou.

Mas ao contrário da Luísa e outros agricultores, as pragas que mais preocupam Nuno Moreira, agricultor na região de Mato Afonso, são os gafanhotos e a lagarta do cartucho que há alguns anos vêm complicando a vida dos lavradores.

Falta de mão de obra 

Para além das pragas, os camponeses de São Domingos têm de lidar também com a falta de mão de obra, já que nos últimos anos vários jovens deste município emigraram à procura de melhores condições de vida.

Basílio Furtado, de 73 anos, vem sentindo esta falta na pele. Como diz, por falta de mão de obra, há vários anos que vem fazendo praticamente todo o trabalho de campo sozinho, o que, no seu caso, é cada vez mais difícil e penoso.

 “Sofremos muito com a falta de mão de obra. Principalmente nós que já estamos mais velhos precisamos de força jovem e os jovens que conheciam esse trabalho já emigraram e os que ficaram dedicam-se mais ao telemóvel do que ao trabalho no campo”, lastimou.

Já Maria Pereira, da freguesia de Nossa Senhora da Luz, disse que este ano apenas vai plantar metade do seu canteiro em Milho Branco, por contar apenas com o apoio do marido e do sobrinho. A mesma queixou-se também da invasão das galinhas de mato as suas plantações impedindo uma boa colheita.

A propagação das pragas e a falta de mão de obra em São Domingos, segundo os nossos entrevistados, são as maiores causas de muitos agricultores estarem a abandonar as sementeiras.

“Não recebemos nenhum tipo de ajuda do Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA), só quando a situação piora é que enviam técnicos para combater as pragas que não resultam em nada”, afirmou José Varela.

Mais atenção a agricultura

José Varela aproveitou ainda a situação para solicitar ao MAA e o Governo mais atenção a este sector. “Estou com um pouco de receio em relação às guerras e se chegarmos a uma situação difícil o que vai nos salvar é a agricultura. Ouvimos falar muito da fome 47 e se não prepararmos para épocas difíceis, corremos o risco de repetir essa tragédia”, alerta.

Este camponês destacou ainda que quem vive da terra não pode esperar só da chuva, por isso sugere a criação de condições para que todos os agricultores possam ter acesso à água durante todo o ano para as suas plantações. 

A Nação entrou em contacto com o delegado do MAA em São Domingos que remeteu o caso à nova ministra da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pesca , mas até ao fecho desta edição não foi possível contactar a ministra pelo que o assunto poder ser retomado mais à frente.

Projecto de dessalinização 

Em Setembro de 2024, o então primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, inaugurou a primeira fase do Programa de Mobilização de Água para Agricultura em São Domingos. Um projecto que combina o uso de água do mar dessalinizada com energias renováveis visando transformar a produção agrícola no país tornando-a menos dependente das chuvas.

Entretanto, o projecto só foi desenhado para abranger as localidades de Baía, Praia Baixo, Moia-moia, Achada Baleia e Praia Formosa, Variante e Nora em São Domingos.

E, em Março deste ano, saiu uma resolução no Boletim Oficial que estabelece que apenas agricultores inscritos no cadastro, com terrenos situados nas áreas abrangidas pela rede de distribuição e que utilizem sistemas de irrigação eficientes, como o gota-a-gota, poderão beneficiar do fornecimento de água dessalinizada, com um limite máximo de 35 metros cúbicos por hectare por dia.

O documento determina ainda que a atribuição de água terá em conta factores como a área cultivada, o tipo de cultura e as necessidades hídricas, sendo dada prioridade aos agricultores activos nas zonas abrangidas. 

Cleidiane Tavares (estagiária) 

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